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Estudiosos discutem a vida e a obra do escritor Camilo Castelo Branco
20/09/2012

 

Para celebrar os 150 anos do livro 'Amor de Perdição', USP recebe congresso internacional 19 de setembro de 2012

 

19 de setembro de 2012 | 3h 09


ISABEL LUCAS - ESPECIAL PARA O 'ESTADO'


 


LISBOA - Colérico, dado a paixões, tão tumultuoso quanto contraditório, Camilo Castelo Branco (1825-1890) envolveu-se em muitas polêmicas ao longo da sua vida que terminou em suicídio. É para falar de um desses conflitos que opôs o escritor a um professor de Coimbra que o português Daniel Pires, especialista na obra de Bocage e conhecedor profundo do ambiente literário em Portugal no século 18, se desloca ao Brasil para um congresso internacional sobre Camilo Castelo Branco.


 


Organizado pela USP e Real Gabinete Português de Leitura, por ocasião dos 150 anos da publicação de Amor de Perdição, a obra mais conhecida do escritor, o congresso reúne, de hoje até sexta-feira, em São Paulo (na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, a partir das 10 horas), e de 24 a 25, no Rio, alguns dos mais conhecidos estudiosos da vida e obra de Camilo Castelo Branco. É o caso de Daniel Pires, que vai tratar daquela que ficaria conhecida como a "Questão da Sebenta". O episódio teve lugar em 1883, já perto, portanto, do fim da vida de Camilo, e "tem como pano de fundo o grande e controverso Marquês de Pombal, talvez a personalidade mais odiada e mais amada da História de Portugal", comenta Pires dias antes de viajar ao Brasil.


 


Camilo era dos que o odiavam. Em 1882 saiu com Perfil do Marquês de Pombal, livro em 15 capítulos e escrito em tempo recorde, que pretendia censurar os defensores do homem que reconstruiu Lisboa após o grande terramoto de 1755. "A tarefa de escrever o Perfil do Marquês de Pombal em 20 dias deixou-me o cérebro em lama", escreveu Camilo numa carta a um amigo, antes que a polêmica com o professor que amava o marquês houvesse estourado.


 


Um e outro colidiram fortemente na interpretação daquela personagem da História de Portugal e tudo terminou com Avelino César Calisto, professor de Teologia na Universidade de Coimbra, acusando Camilo Castelo Branco de "mercenarismo feita numa sebenta". O resultado foi um violento embate verbal entre ambos.


 


"Esta questão é muito importante para entender Camilo", acredita Pires. "Ela mostra qual a ideologia por detrás da obra camiliana. Um positivista na maneira de ver o catolicismo. Homem polêmico e contraditório que oscilava entre dois extremos com alguma facilidade", acrescenta o especialista na obra de Manuel Maria Barbosa du Bocage, outro escritor com quem Camilo partilhava algumas características - apesar de ter nascido em 1825, 20 anos depois da morte de Bocage - como, por exemplo, a marginalidade. "Ele lutou sempre contra o seu tempo, afrontando uma sociedade que lhe era adversa, com uma moral sexual rígida e desafiou a religião. Viveu com três mulheres ao longo da sua vida, e uma delas era casada, Ana Plácido."


 


Daniel Pires insiste nessas semelhanças entre dois homens que nunca coincidiram no tempo, mas que partilharam a experiência da prisão e sempre combateram, com a sua obra, um sistema que lhes era hostil. Dois polígrafos - Bocage cultivou todos os gêneros poéticos e Camilo escreveu em todos os registros literários -, tinham no humor e na sátira armas fortes no combate aos adversários, como faz questão de sublinhar Pires, antes de ressaltar o gênio criativo de Bocage e Camilo. "Eram dois seres de eleição, com um estilo peculiar e inconfundível, um humor corrosivo, dois autores de sátiras perfeitamente atuais, com uma grande incoerência no seu cotidiano", salienta.


 


Nos 150 anos de Amor de Perdição, não faltam motivos para continuar a ler Camilo Castelo Branco, sublinha Daniel Pires, que vê nele representados "a inquietude e a revolta do gênio, decorrentes de uma infância traumática e de normas sociais rígidas e irracionais que conduzem inexoravelmente ao conflito; a arquitetura da narrativa, com a trama metodicamente gerada e a forma depurada como expressa sentimentos; a coragem de afrontar uma sociedade adversa e preconceituosa; o elogio da criatividade, bem como a profissionalização do homem de letras, que até então tinha uma profissão, sendo a literatura subsidiária".


 


ISABEL LUCAS É JORNALISTA. COLABORA COM O JORNAL PÚBLICO E A REVISTA SÁBADO,  DE PORTUGAL


 


Fonte: Estadão.com.br/Cultura