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Filósofo transforma em livros palestras que exploram questões fundamentais da vida
25/09/2012

 

Fundador da School of Life, Alain de Botton lança seis títulos no Brasil pela editora Objetiva

 

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo


Questões fundamentais da vida sempre interessaram o filósofo suíço Alain de Botton: dúvidas sobre como desenvolver o potencial do indivíduo ou a respeito da durabilidade dos relacionamentos. Por conta disso, ele fundou em Londres, cidade onde vive desde os anos 1970, a School of life, escola da vida, destinada a lidar com questões sobre satisfação pessoal e como melhorar o cotidiano.

O espaço surgiu em 2008 e, devido ao sucesso, o conteúdo foi transformado em uma série de livros, coordenados pelo próprio Botton, e que chegam agora no Brasil, sob a chancela da Objetiva. São seis títulos:
Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida (assinado por Roman Krznaric), Como Manter a Mente Sã (Philippa Perry), Como Mudar o Mundo (John-Paul Flintoff), Como Pensar Mais Sobre Sexo (Botton), Como se Preocupar Menos com Dinheiro (John Armstrong) e Como Viver na Era Digital (Tom Chatfield).

Os títulos sugerem autoajuda - Botton não nega, mas acredita que, "em uma época complexa e confusa, esse tipo de livro implora para ser repensado e readaptado". Sobre a escola e o assunto de seu livro, o filósofo respondeu as seguintes questões, por e-mail.

Qual a melhor maneira de pensar o sexo hoje, quando a tecnologia pode invadir a privacidade de qualquer pessoa?

Acho que devemos lembrar que o sexo será sempre algo misterioso e confuso - e portanto privado. É raro uma pessoa passar pela vida sem sentir - em geral, com certa angústia secreta, talvez no fim de uma relação, ou quando mentimos na cama frustrados, ao lado do nosso parceiro, incapazes de dormir - que o sexo é algo que nos causa certa estranheza. Trata-se de um campo no qual as pessoas em geral têm a impressão dolorosa, em seu íntimo, de que são fora do comum. Embora seja uma das atividades mais reservadas, o sexo é cercado por ideias sobre como as pessoas normais devem se sentir a seu respeito e como devem tratar esta questão. Entretanto, na verdade, poucos são sequer remotamente normais em matéria de sexo. Quase todos somos assombrados pela culpa e por neuroses, por fobias e desejos perturbadores, pela indiferença e pelo asco. Nenhum de nós se aproxima do sexo como deveria, com a perspectiva jovial, esportiva, não obsessiva, constante, bem ajustada que nos tortura constantemente por acreditarmos que é algo peculiar aos outros. Somos universalmente anormais - mas somente em relação a certos ideais de normalidade extremamente distorcidos. Portanto, está na hora de aceitarmos a estranheza do sexo com bom humor e coragem - e de começarmos a conversar sobre ele com honestidade e compaixão. O meu livro trata exatamente disto: é um convite a refletir mais sobre o tema a respeito do qual equivocadamente imaginamos já saber tudo.

Qual é a fronteira entre a pornografia e o sexo?

O aumento da pornografia na Internet prejudicou muitas vidas sexuais. Algumas mulheres podem achar, com alarme, que a libido do seu companheiro desapareceu misteriosamente. Não desapareceu, simplesmente foi transferida para o computador. Uma aliança involuntária entre Cisco, Dell, Oracle e Microsoft, por um lado, e milhares de provedoras de conteúdo pornográfico, do outro, explorou uma falha do projeto do gênero masculino. Uma mente originalmente projetada para lidar com algo pouco mais tentador em termos sexuais do que a visão ocasional de uma mulher da tribo na savana, torna-se um alvo indefeso quando bombardeada por convites constantes a participar de cenários eróticos que ultrapassam consideravelmente tudo o que foi sonhado pela mente doentia do Marquês de Sade. Nossa constituição psicológica não tem um dispositivo suficientemente resistente para compensar a evolução das nossas capacidades tecnológicas, nem algo capaz de deter o nosso desejo apaixonado de renunciar a todas as outras prioridades por mais alguns minutos (que acabam se tornando quatro horas) nos recessos mais negros da rede. A pornografia é tão imediata e intensa, que destrói nossa capacidade de fazermos um sexo real mais humano e sem ostentação. A melhor solução pode ser simplesmente trancar o computador em algum lugar - e discutir as tentações com honestidade. A pornografia não deveria ser considerada uma coisa "revoltante", ela é boa para os homens, mas boa de uma maneira que destrói coisas que não são apenas boas, mas essenciais à vida.

No passado a humanidade estava mais preocupada com o sexo devido às barreiras sociais?

Por mais que nos sintamos pouco à vontade em relação ao sexo, esta sensação se intensificará em geral por acharmos que pertencemos à era da libertação - e, consequentemente, a esta altura deveríamos considerar o sexo uma questão clara e simples. Por mais que nos esforcemos para expurgá-lo de suas peculiaridades, o sexo nunca será simples como gostaríamos que fosse. Ele pode perecer; recusa-se a ser entendido como coroação do amor, como deveria. Por mais que tentemos domá-lo, o sexo tem uma tendência recorrente a tumultuar nossas vidas. O sexo permanece em um conflito absurdo, e quem sabe irreconciliável, com alguns dos nossos mais importantes compromissos e valores. Talvez em última instância devêssemos aceitar que o sexo é inerentemente algo misterioso em vez de nos culparmos por não responder de maneiras mais normais aos seus impulsos confusos. Com isso, não quero dizer que não podemos tomar medidas para compreendê-lo melhor. Deveríamos apenas nos compenetrar de que nunca poderemos superar totalmente as dificuldades que ele coloca em nosso caminho.

Qual a razão do sucesso da School of Life?

Acho que é porque a cultura da elite costuma desconfiar do que é relevante. Se você diz que quer estudar filosofia da literatura porque quer relacioná-la à sua vida, assustará os professores. Entretanto, a maioria das pessoas tem necessidades práticas muito intensas - e se a religião não cuidar delas, tenderemos a recorrer à cultura para resolvê-las. A School of Life não teme o que é relevante.

O senhor se sente atraído para a filosofia por causa da necessidade de refletir profundamente sobre os seus problemas?

Sim, eu sou um escritor profundamente autobiográfico. Meus livros começam sempre a partir dos meus problemas pessoais. São uma espécie de autoterapia.

Como o senhor usa a arte para defender as suas ideias?

Os artistas são pessoas que experimentam uma necessidade particularmente aguda de ser ouvidos, e ouvidos de maneira precisa. Quase sempre, num estágio de formação, as pessoas não os ouvem o bastante. A arte é a sua vingança!

COLEÇÃO THE SCHOOL OF LIFE
Organização: Alain de Botton
Tradutores: Daniel Estill, Cristina Paixão Lopes, Débora Landsberg, Carlos Leite da Silva, Bruno Fiuza.
Editora: Objetiva (R$ 26,90 cada)


Fonte: Estadão.com.br/Cultura