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O encontro da ciência com a mitologia
05/11/2011

 

Matemático à beira da morte protagoniza 'Os Infinitos', de John Banville, o autor de 'O Mar', que ganhou o Man Booker Prize

 

Desde que ganhou o Man Booker Prize (um dos mais prestigiados prêmios literários do mundo) em 2005 com O Mar, o escritor irlandês John Banville não publicava uma nova obra. O jejum foi quebrado há dois anos quando lançou Os Infinitos, livro agora editado no Brasil, pela Nova Fronteira. "A demora não foi motivada por alguma pressão, pois o prêmio não afetou minha rotina, exceto engordar um pouco minha conta bancária", brincou ele, que conversou com o Sabático por telefone, de Dublin.


 


Douglas Banville/DivulgaçãoO irlandês John Banville


De fato, Os Infinitos revela-se uma obra consistente ao promover o encontro da ciência com a mitologia, duas paixões do escritor. Na trama, o matemático Adam Godley, que comprovou cientificamente a existência de múltiplas realidades, está à beira da morte. Cercado pela família - e observado com atenção pelos deuses do Olimpo -, ele revê sua vida, o que inclui não apenas lembranças afetivas mas também (e principalmente) espirituais.


 


A grande inspiração de Banville é a obra do poeta romântico alemão Heinrich von Kleist (1777-1811), Amphitryon, que, por sua vez, é uma adaptação de um trabalho homônimo de Molière. Por conta disso, Os Infinitos, apesar do tom sério, é recheado de um humor que, para muitos, é típico irlandês, de uma tradição reforçada por Joyce e Beckett. Sobre isso, John Banville falou na entrevista a seguir.


 


Foi divertido escrever esse livro?


Muitos colegas me perguntaram sobre isso e eu não diria que a diversão foi tão grande assim. "Prazer" talvez não seja a palavra mais adequada para descrever o ato da escrita. Como observei antes, durante a produção de um livro, há alguns momentos (devo reconhecer que breves e, muitas vezes, ilusórios) quando surge uma alegria transcendente, mas, em geral, o ato tem uma exigência mortal. Na verdade, a arte dessa arte é fazer com que as coisas pareçam difíceis.


 


E qual a importância de Amphitryon, de Kleist, na concepção da sua obra?


Eu diria fundamental. Kleist é um artista injustamente pouco conhecido: eu o coloco no mesmo patamar de grandes nomes como Goethe e Schiller. Sua ambição, a qual utilizei como mote para meu livro, era amalgamar o clássico drama grego com o burlesco shakespeariano, o que consegue com sucesso em Amphitryon. É uma história ambígua, cruel, que mostra um homem que perdeu tudo, inclusive o próprio nome, tomado por Zeus. E o tom é de comédia, embora, em muitos trechos, o leitor chegue às lágrimas. Esse foi o meu ponto de partida e, como sempre acontece em ficção, o caminho tomado não foi o planejado.


 


Você, por outro lado, consegue unir ciência e mitologia em Os Infinitos.


Já escrevi livros sobre cientistas (Kepler, Copérnico) e planejava outro sobre os físicos que foram importantes no século 20. Não consegui realizar esse plano mas, de uma certa forma, anunciei minha linha de pensamento científico em Os Infinitos. Sou um grande entusiasta da física que, para mim, continua avançando enquanto a filosofia parece ter se estagnado. O grande salto da física foi aceitar as ambiguidades do mundo que nos cerca, ou seja, há muito o que descobrir, certas explicações ainda estão nebulosas, portanto, nada pode ser encarado de forma definitiva.


 


Isso explica bem o fato de o personagem Adam Godley ser um matemático, não?


Sim, de fato. A matemática é uma forma racional criada pelo homem para observar e interpretar a realidade. Mas é preciso tomar cuidado, pois não podemos acreditar que, quanto mais conhecemos de matemática, mais questões são resolvidas. Isso, na verdade, leva a uma tese que envolve a forma como tratamos o desconhecido. Precisamos nos conscientizar de que apenas uma parte do universo que nos cerca foi desvendada - estamos cercados de muitos detalhes que ainda desconhecemos. Isso explica a genialidade dos gregos, que criaram a mitologia justamente para compensar as informações que ainda não detinham.


 


O livro mostra Adam Godley em seus últimos dias. Por que a morte, se o romance trata do infinito?


Antes de responder, preciso lembrar que o livro não trata de física quântica ou algo parecido: trata-se de uma comédia humana. Ainda que fiquemos fascinados por teorias científicas que apontem para o infinito do universo, nós logo teremos nosso ponto final, morreremos. Por outro lado, Spinoza dizia que o homem sábio é aquele que pensa na morte, mas cujas meditações são sobre a vida. É uma verdade. Ainda que não desconhecemos da nossa finitude, o que interessa é a vida.


 


E a vida sob a ótica do humor, como se percebe em seu romance. Qual a origem desse humor? É possível identificar uma ironia tipicamente irlandesa?


Não, o humor é um conceito universal que apenas adquire algumas características locais. Como irlandês, sempre encarei o mundo como um lugar sombrio e, por isso, muito engraçado. Isso tem uma certa relação com Joyce e muito com Beckett. Gosto apenas do início de Ulisses, quando os sentidos (gosto, cheiro) são descritos de forma magistral - depois, perde muito de sua força. Já Beckett, especialmente em Molloy, foi uma grande revelação, pois comprovou que um escritor pode criar sua própria linguagem para retratar a realidade. Graças a ele, percebi que a beleza linguística pode ser perseguida como uma finalidade.


 


OS INFINITOS


Autor: John Banville


Tradução: Maria


Helena Rouanet


Editora: Nova Fronteira


(276 págs., R$ 39,90)


 


Fonte: Estadão.com.br


 

 

 

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

O irlandês John Banville