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Daniel Galera lança livro
08/11/2012

 

Precisão da escrita marca o novo romance do autor, o belo e sensível 'Barba Ensopada de Sangue'

 

08 de novembro de 2012 | 2h 11


UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo


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Evelson de Freitas/EstadãoO escritor Daniel GaleraDurante um baile dominical, aquele em que todos os habitantes de uma cidade pequena se encontram, repentinamente faltou luz. Dez minutos depois, com a situação restabelecida, um homem surge estirado no chão, morto por várias facadas. Ninguém se surpreende - na verdade, o silêncio impera. Conhecido por seu temperamento irascível, o falecido não deixa saudade e o desaparecimento de seu corpo se torna um caso insolúvel para a polícia, pois não há vestígios tampouco algum depoimento que ajude elucidá-lo.


"Meu pai contou essa história há muitos anos, quando costumávamos passar o verão em Garopaba, no litoral catarinense", relembra o escritor Daniel Galera. "Nunca soube se era algo realmente verdadeiro ou um daqueles mitos que marcam uma sociedade." O certo é que a história não saiu de sua cabeça e anos depois inspirou Barba Ensopada de Sangue, livro que a Companhia das Letras lança até sábado.


Trata-se de um dos melhores romances brasileiros deste ano e certamente um ponto alto na carreira de Galera, sempre lembrado como um dos mais promissores entre os jovens autores nacionais. O tom musical da prosa e o modo como os diálogos - precisos e rápidos - servem de contraponto à ação, como bem observou o argentino Ricardo Piglia, transformam Barba Ensopada de Sangue em um livro muito forte, "a um tempo engenhoso e desprendido, alternando o grau zero e o alto grau de escrita", na opinião de outro autor, Francisco Bosco.


O assassinato foi o ponto de partida. A lenda dizia se tratar de um cidadão de Garopaba, mas Galera preferiu transformá-lo em um gaúcho, Gaudério - há uma grande incidência deles morando na cidade catarinense. O escritor também viveu uma temporada lá, cerca de um ano e meio, fazendo anotações, germinando ideias, destrinchando o local. "Não pretendi apresentar um retrato fiel da cidade, mas utilizar sua geografia como espaço vital para o desenvolvimento da história."


Assim, o romance acompanha a trajetória do protagonista (cujo nome não é revelado), um professor de educação física, que decide viver em Garopaba. O que o motiva é uma história contada pelo pai antes de seu suicídio, sobre o misterioso desaparecimento do avô, Gaudério, que morava na cidade catarinense - ele foi supostamente assassinado daquela forma, esfaqueado durante o blackout acontecido durante uma festa dominical. Aparentemente, foi enterrado como indigente em uma cova sem identificação, mas há também a versão de que seu corpo foi atirado ao mar.


Acompanhado de Beta, cadela do falecido pai, o professor empreende a busca pela verdade, mergulhando em um isolamento geográfico e psicológico. No período passado em Garopaba, ele faz algumas amizades, desperta paixões, mas, principalmente, transforma-se em 'persona non grata' por conta da investigação. Pior: sua incrível semelhança física com o avô perturba a população, especialmente os mais velhos, que conheceram Gaudério.


A narrativa segue um ritmo impecável - com pleno domínio da escrita, Galera trata da (re)construção da identidade com fluidez, arquitetando diálogos ágeis e descrições precisas. Logo no primeiro capítulo, quando o protagonista descobre que o pai, desgostoso com suas doenças, decide se matar, os sentimentos se escondem entre as palavras trocadas, criando um crescente clima de tensão que não deságua em sentimentalismo.


A busca pelo esclarecimento ganha outro detalhe engenhoso, alimenta o suspense da narrativa: o protagonista sofre de prosopagnosia, enfermidade adquirida de nascença ou depois de um traumático acidente em que a pessoa é incapaz de assimilar rostos momentos depois de vê-los, mesmo os velhos conhecidos. Assim, ele é obrigado a desenvolver técnicas, como fixar cicatrizes ou tatuagens. Por outro lado, se passa por situações engraçadas, como não reconhecer seus alunos de academia, por outro sofre momentos perigosos, como a sangrenta luta travada no final da história, clímax que antecede o surgimento de revelações.


Na verdade, esse é um dos poucos momentos de violência explícita, que poderia justificar o título. "Na verdade, fiz a escolha logo que comecei a escrever e gostei desse tom de pulp fiction, mesmo que não case tanto com a trama", justifica Galera.


O projeto de trabalho foi detalhado. Galera conta que desenvolveu a história ao longo de nove meses de 2008, iniciada logo depois de encerrada a temporada de verão. "Esse momento, que compreende principalmente o outono e o inverno, período em que o frio afasta turistas e até mesmo moradores, revelou-se ideal para descobrir a verdadeira identidade das pessoas. É nessa entressafra que surgem de forma mais definida os medos e anseios dos moradores."


Galera escreveu o romance quando já não vivia mais em Garopaba, buscando a distância como medida de prudência. Também exercitou ao máximo seu particular método criativo, que consiste em processar as ideias de tal forma que, quando chegam ao papel, as palavras já estão devidamente encaminhadas, necessitando de rala revisão. "Eu imagino frases, não imagens. Assim, ao escrever, a história surge praticamente em sua versão final."


Desse desaguar literário, surgem momentos surpreendentes, como quando descreve o encontro casual do professor de educação física com uma baleia, em pleno mar: a descrição de um momento inusitado é costurada com flashes da exata situação vivida, naquele instante, por boa parte dos personagens, resultando em uma colcha de retalhos em que o espantoso contrasta harmoniosamente com o rotineiro.


Em seu quarto romance, Daniel Galera, paulistano nascido em 1979, consolida a estatura de um escritor sério, robusto, tranquilo, como bem adjetiva o português Gonçalo M. Tavares. Sua escrita fluente não perde o prumo mesmo com digressões ou revisões de perspectivas, independentemente do personagem.


Basta observar a trajetória da cadela Beta. Pertencente ao pai do protagonista, ela não é sacrificada como pede o dono suicida, mas, ao contrário, torna-se um porto seguro para o professor de educação física, companheira fiel tanto nos momentos de tranquilidade como quando a violência irrompe repentinamente. Antes mesmo de o livro ser lançado, Barba Ensopada de Sangue já empolgou o cineasta Karim Aïnouz que, finalizada a leitura, revelou desejo de levá-lo ao cinema.


Fonte: Estadão.com.br/Literatura