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Clássicos russos chegam ao mercado
14/11/2012

 



Por Fabricio Vieira | De São Paulo

'O grande perigo ao traduzir literatura russa consiste em reduzir aqueles livros à perspectiva que adotamos hoje', diz o escritor e tradutor Rubens Figueiredo

Literatura russa traduzida diretamente do original virou praticamente um selo de qualidade para o leitor brasileiro. Essa história começou a ganhar vulto há cerca de uma década, quando as prateleiras das livrarias passaram a agrupar crescente número de livros vertidos do russo para o português, sem a antiga necessidade de apoio em um idioma intermediário.

Para as editoras, esse nicho parece não esgotar seu apelo. Basta notar a variedade de títulos lançados apenas nas últimas semanas: "A Fraude e Outras Histórias" e "Homens Interessantes", de Nikolai Leskov; "Vladimir Ilitch Lenin", de Maiakóvski; "Avenida Niévski", de Nikolai Gógol; e "Oblómov", de Ivan Gontcharóv.

"A tradução de literatura russa no Brasil passou por várias fases e agora realmente chegou a vez das traduções diretas. É um processo de amadurecimento. O leitor tem a oportunidade de comparar as traduções mais antigas, indiretas, com as atuais", diz Denise Sales, tradutora responsável pelo recém-lançado "A Fraude" (Editora 34; 224 págs., R$ 39).

Esse conjunto de obras que acaba de chegar ao mercado traz livros fundamentais da literatura russa, sendo alguns títulos ainda inéditos no país.

Nikolai Leskov (1831-1895), que surge com duas coletâneas de contos e novelas, é um autor que há muito o público (especialmente o acadêmico) aguardava em português. Isso se explica devido ao célebre ensaio "O Narrador", de Walter Benjamin (1892 - 1940), habitual frequentador dos currículos de cursos de Letras e Comunicação, que tem como objeto exatamente a obra de Leskov.

Com arguta capacidade de observação e cuidadosa construção artesanal de histórias simples mas profundas, Leskov em muito deve sua arte a processos narrativos ligados à tradição de sua terra, bebendo em anedotas e lendas populares. Seus protagonistas (uma idosa, um soldado, um órfão) narram pequenos casos cotidianos, por vezes extraordinários, que facilmente enredam o leitor.

"Quanto às traduções diretas, parece razoável supor que vão preservar mais informações do original. Mas é importante ter em mente que o requisito central de uma tradução é a capacidade de se expressar em língua portuguesa escrita", diz Rubens Figueiredo, tradutor de "Oblómov" (Cosac Naify; 736 págs., R$ 119), o mais ambicioso título dentre os recém-lançados.

Texto máximo do menos conhecido Ivan Gontcharóv (1812-1891), "Oblómov" é um dos clássicos da literatura do século XIX. Publicado originalmente em 1859, o romance tem como protagonista Iliá Ilitch Oblómov, um decadente rico proprietário de terras dominado pela inércia e a passividade. Alternando-se entre o divã e a cama, sempre de roupão, ele deixa a vida transcorrer sem nada fazer, entorpecido por devaneios e uma inescapável rotina imobilizante. Essa inação do protagonista é contraposta à agitada vida de seu amigo Stolz, um ambicioso empreendedor cujo ritmo frenético se choca com os bocejos e cochilos de Oblómov - símbolo da letárgica Rússia czarista? Da elite russa pré-Revolução? Muitas interpretações já foram dadas...

"Oblómov é certamente um personagem que merece lugar na galeria de figuras imortais criadas pela imaginação humana", afirma o crítico italiano Renato Poggioli no posfácio do livro.

Também responsável pelas versões em português de clássicos como "Guerra e Paz" e "Anna Kariênina", Figueiredo diz que "o grande perigo ao traduzir literatura russa consiste em reduzir aqueles livros à perspectiva que adotamos hoje, aos horizontes e critérios de nosso tempo e de nossa sociedade". "Não se trata tanto de dificuldades técnicas, mas do exercício de uma perspectiva crítica", afirma.

Tal perspectiva se torna especialmente relevante quando nos debruçamos sobre o poema-homenagem de Maiakóvski (1893- 1930) dedicado a Lênin (1870- 1924). Com tradução de Zoia Prestes, "Vladimir Ilitch Lenin" (Fundação Maurício Grabois/ Anita Garibaldi; 234 págs., R$ 80) é um dos potentes exemplares do engajamento artístico que marca a trajetória de Maiakóvski.

Escrito em 1924, motivado pela morte de Lênin, o extenso poema escapa da armadilha de se compor apenas como um panegírico. O vigor expressivo do poeta - imortalizado pelo epíteto "sem forma revolucionária não há arte revolucionária" -, com sua liberdade métrica e rítmica, cria um painel imagético de grande impacto e beleza, no qual o comunismo russo e seu líder máximo surgem como figuras que suplantam o risco de datado balbuciar propagandístico.

Outro artista bastante conhecido do público brasileiro, Nikolai Gógol (1809-1852) completa a safra recente de traduções com o conto "Avenida Niévski" (Cosac Naify, R$ 46). A inventiva edição lançada buscou reproduzir o vaivém incessante da mais importante via de São Petersburgo, dividindo as páginas em dois blocos espelhados, com duplo sentido de leitura. Pela avenida, o pintor Piskarióv e o tenente Pirogóv perambulam, cada qual em uma direção, analisando os passantes.

Apesar de variado, esse grupo de traduções não abarca peças contemporâneas - o poema de Maiakóvski, de 1924, é o mais recente exemplar. O que explicaria o fato de a literatura russa das últimas décadas ser ignorada?

"Os motivos do predomínio de autores do século XIX [entre as traduções] são muitos e podem incluir o fato de já estarem em domínio público, a certeza de boas vendas, o consenso a respeito da importância de suas obras...", diz Denise.

Já Figueiredo tem uma visão um pouco diferente da questão: "O motivo é o mesmo que reduz ao mínimo o espaço para traduzir autores que não sejam americanos ou ingleses, ou que não escrevam em inglês e não sejam vendidos pelas fábricas exportadoras de livros sediadas em Londres e Nova York", afirma o tradutor. "Parece haver um monopólio neocolonial também nessa área", conclui.



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