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O último livreiro do império
21/11/2012

 

Há quase 170 anos, numa ruazinha no centro de Campos (RJ), abre-se uma livraria que nunca deixou de funcionar nem sequer um dia

 





11 de novembro de 2012 | 13h 33

Jotabê Medeiros - O Estado de São Paulo



Comenta-se que José do Patrocínio, filho e cidadão de Campos
dos Goytacazes, comprou ali na livraria Ao Livro Verde a pena com a qual a
princesa Isabel assinaria a Lei Áurea, em 1888, libertando os escravos no
Brasil. E olha que, àquela altura, a livraria já tinha 44 anos e durado mais
que a imensa maioria das livrarias atuais do planeta, as Barnes and Noble e as
Borders que morrem como moscas diante das mudanças da era digital e do e-commerce.



Marcos Arcoverde / EstadãoA história da caneta de Patrocínio
é meio lendária, mas quase todo o resto ainda está por ali para ser comprovado,
como os três balcões originais da antiga loja, uma cristaleira palito de
perfumes (na época, perfume se vendia em livraria, e não em farmácia),
fotografias antigas por todo lado, a fachada original com o nome do
estabelecimento em relevo. Em 1995, o Guinness Book reconheceu sua longevidade
e lhe concedeu o título de A Livraria Mais Antiga do Brasil.



Os tempos ditaram as mudanças, pela sobrevivência: apesar da
oferta de volumes novinhos de Getúlio, de Lira Neto; Marighella, de Mário
Magalhães; Verão da Lata, de Wilson Aquino; e da autobiografia de Neil Young; a
loja Ao Livro Verde é hoje mais papelaria do que livraria. Vende livros
didáticos, arquivos de papel e pen drives. Tem um pequeno café e um computador
para acesso à internet. Possui 27 funcionários, a maioria especializada no
atendimento de papelaria, sem intimidade com a literatura.



A uma quadra do Rio Paraíba do Sul, a livraria chegou a ser
a joia da intelectualidade portuguesa da corte que atracava no antigo Cais do
Imperador. Foi para esse público que foi criada, em 1844, pelo empreendedor
português José Vaz Corrêa Coimbra. Citada pelo escritor José Cândido de
Carvalho (outro filho de Campos) no livro O Coronel e o Lobisomem, a livraria
fluminense foi inaugurada em 13 de junho de 1844, e pertenceu a três famílias –
a atual, Sobral, a comprou do alemão Max Zuchner e a administra desde os anos
1940. Um anúncio no jornal O Monitor Campista, de 1844, já mostrava a vocação
futura do estabelecimento: a loja oferecia, além de livros e serviços gráficos,
"miudezas, lindo sortimento de joias, drogas medicinais e para pinturas e
o legítimo rapé Bernardes".



A ruazinha onde fica o predinho já teve três nomes (Barão de
Cotegipe, Rua Bananal e a atual denominação, Rua Governador Teotônio Ferreira
Araújo) e a numeração foi mudando, mas a livraria nunca se mexeu um milímetro
do seu lugar. "Não posso acabar com essa livraria, ela vai para 200
anos", diz o atual proprietário, Ronaldo Sobral. No momento, a rua está em
obras, estão alargando as calçadas e revitalizando, mas os trabalhos
prejudicaram sensivelmente o movimento, queixa-se o comerciante.



O balconista Carlos Américo Machado Franco, de 76 anos,
começou a trabalhar ali aos 16 anos. "Eu vinha de bonde. Atendi aqui
clientes que tinham 95 anos, e que eu conhecia da vida toda. Tinha muitos do
tempo das usinas, mas elas fecharam", conta. O comércio que mais resistiu
foram duas casas de ferragens e duas farmácias, que passaram do século 19 para
o 20, mas também já fecharam.



Muitos foram até ali conferir a lenda da livraria que nunca
fechou, do acadêmico Austregésilo de Athayde ao escritor Carlos Heitor Cony e o
cartunista Ziraldo, que deixou um desenho e um autógrafo num cartaz da
livraria. "Aqui reúne uma turma muito boa, vem o pessoal da Academia
Campista de Letra", orgulha-se o fotógrafo aposentado Wilton Moreira, de
85 anos, um dos mais antigos clientes – tem mais de 50 anos que passa por ali
diariamente, toma um cafezinho e pega os jornais para ler.



Em 1988, o Primeiro Encontro Internacional de Tradutores
levou até a Ao Livro Verde intelectuais do mundo todo, que deixaram seus nomes
no livro de visitantes: a francesa Alice Raillard, o alemão Curt Meyer-Clasen,
o italiano Mario Merlino, o dinamarquês Per Johns. Os jovens poetas e
escritores da cidade são habitués, mas compram pouco. "Intelectual não tem
veia comercial. Livro raro é coisa de colecionador, a casa aqui sempre foi fiel
ao fundador", diz Sobral, de 65 anos. O prédio foi tombado pelo município,
mas nunca recebeu nenhuma atenção dos governos do Estado e Federal.



Ao Livro Verde passou por duas guerras mundiais, pelas
revoluções todas, pela ditadura militar, pela dance music, pelos livros de
autoajuda. "E nunca fechou!", sentencia Ronaldo Sobral. Ele tem três
filhos, um advogado, uma especialista em informática e um gerente de banco. Se
vão prosseguir com a tradição? "O passado já passou, e o futuro quem sabe?",
avalia o livreiro. "Mas é muito difícil, é uma luta. Tem hora que dá
vontade de desistir."



"Quando o Kadafi morreu, lembraram que ele tinha
escrito um certo Livro Verde e telefonaram para mim, não sei se foi da Folha de
S.Paulo ou do Estado, para perguntar o porquê do nome da loja", diverte-se
às gargalhadas Sobral. O nome já era um século mais velho que o ditador líbio,
mas ninguém sabe sua origem. Não há referência bibliográfica. O jornal Monitor
Campista, o primeiro a registrar uma oferta da livraria, em sua abertura, já
começou com um erro digno de um "Erramos": chamou-a de Loja do Livro
Verde, quando na verdade a própria fachada dizia Ao Livro Verde.



Fonte: Estadão.com.br/Cultura