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Lully & nós
23/11/2012

 

Costa Lima ou Bruno Negri, que homenageia sua shitzu branca e preta: livro traz as reflexões filosófico-caninas capturadas por uma máquina inventada para traduzir "auês".

 





Por Joselia Aguiar | Para o Valor, de São Paulo

A obra podia entrar na prateleira reservada aos livros
fofos, se tal existisse. O que existe, de verdade, é a chance de parar na lista
de best-sellers como um "Marley & Eu" à brasileira.
"Confesso minha ignorância: não sei que livro é esse, 'Marley &
Eu'", responde o ficcionista novato Bruno Negri sobre uma possível
influência ao escrever "Me chamo Lully", seu relato de uma vidinha de
cachorro que chega agora às livrarias - o lançamento, pela Book Makers, será no
dia 5, na Livraria Argumento, no Leblon, no Rio. Vai ter jazz, MPB e coquetel
para gente e bichos.


A ignorância confessada, que seria fatal em alguém que
pretendesse fazer sucesso no metier dos livros comerciais - afinal,
"Marley & Eu" foi lido por milhões no mundo inteiro -, pode ser
vista como um divertido alheamento intencional ou uma saudável distância técnica,
quando se conhece enfim a identidade de quem está disfarçado pelo pseudônimo.
Bruno Negri é Luiz Costa Lima, de 75 anos, um dos críticos literários mais
importantes do país, há quatro décadas em atividade, mais de 20 títulos
publicados, obra premiada aqui e no exterior.



De parecido com o livro do jornalista americano John Grogan,
que narrou as peripécias de seu Marley, há, além do tema, uma capa com seu
apelo emotivo: em close, um cãozinho se apresenta com olhar sedutor. Aí param
as semelhanças. A grande diferença se configura pelo ponto de vista. Marley
teve a história contada por Grogan, seu dono. Lully, ao contrário, é autora da
própria história. Pois um laboratório nos Estados Unidos desenvolveu
equipamento ainda em fase de testes que captura o pensamento de animais e o
decodifica em linguagem de humanos. Aparentemente, só com alguns o experimento
parece funcionar, com outros o resultado não é o mesmo. Com Lully, cachorra
filósofa, funciona. Não com Benjy, seu filho e companheiro, incapaz da
concentração necessária, muito menos raciocínio organizado para ter o
pensamento capturado ou decodificado. Benjy é, por assim dizer, um cão atávico
- uma de suas raras preocupações é impedir que Lully brinque com uma bolinha,
enquanto ele mesmo não parece saber o motivo de cultivar tal hábito, já que
nunca aproveita o objeto furtado.



O grau de autoconsciência de Lully é evidente desde o
título, retirado da primeira frase que diz à máquina, "Me chamo", e
não "Me chamam". Lully sobretudo compreende que os fios que a
conectam da cabeça ao computador transmitem seu "auês", a língua que
domina. A seu jeito canino - filosófico, mas ainda canino -, ela narra dos
primeiros dias no canil até os oito anos na casa de Pedro, Joana e o filho,
Dani. Lully pensa não só sobre as coisas que observa como também as coisas que
sente: medo, um tipo de afeição que não sabe dar nome (seria amor? paixão?
decerto não é cio), a maternidade e a finitude. O que ela nunca consegue
compreender é a passagem do tempo - o que são mesmo os dias, semanas, passado e
futuro - e a divisão de classe social - o que se nota pela dificuldade de
entender o que é uma princesa, título que lhe atribuem, e o que são os mendigos
catadores no pós-Carnaval do Rio.



Cachorrinha que inspirou o crítico é "faceira e
sedutora como uma teenager", apesar de já ter oito anos; sugestão para
livro foi da mulher dele



As perguntas ao crítico se encaminham com a devida vênia.
Das fábulas de La Fontaine às de Orwell, os livros protagonizados por bichos, o
"Flush" de Virginia Woolf ou o "Timbuktu" de Paul Auster, o
que um crítico conhecido pelo rigor e exigência pensou em fazer ao publicar um
livro fofo? Algum experimento? "Não pensei em coisa alguma, senão em dar
alguma verossimilhança à história que queria fosse de minha querida
Lully."



Eis que Lully existe mesmo. É a shitzu de oito anos da
família. "Não pense que é brincadeira ou fingimento. Embora saiba de
ficções sobre animais de estimação, nunca li nenhuma delas", prossegue
Costa Lima. "Só lhe garanto que não quis brincar com Lully. Ela nos é
muito querida para sujeitá-la a uma brincadeira. Seria explorar sua admirável
ingenuidade canina."



O campo dos estudos animais, da animalidade, dos limites do
humano tem crescido nas universidades: trata-se de área multidisciplinar, que
combina filosofia, literatura, ciências sociais. Uma nova pergunta quer
identificar se houve, da parte do professor emérito da PUC-SP, uma tentativa de
se aproximar desse tipo de reflexão a partir da própria experiência. "Sei
disso, de livros escritos há décadas por Günter Lorenz. Mas lhe confesso que
nunca li nada a respeito." O processo da escrita? A resposta não dá mais
margem para teorizações previsíveis: "Simplesmente não houve".



A sugestão veio da mulher, a psicanalista Rebeca Schwartz.
Então ele se sentou à mesa e, como diz, escreveu como sempre faz: primeiro à
mão, depois no computador. "Creio que as emendas foram mínimas. Era como
se a história estivesse amadurecida dentro de mim." De que modo o crítico
agiu no escritor, desmontando e remontando a maquinaria ficcional? "Alguém
já disse que a crítica que se limite a ser o julgamento de um livro é algo
bastante chato. O crítico seria uma espécie semelhante aos juízes do nosso STF
que têm seu instante de glória à custa do que outros fizeram", pondera.
Temos algo diferente, portanto. "Embora a crítica não seja e não deva ser
ficção, ela só presta quando traz consigo um 'impulso ficcional'. No "Me
chamo Lully", a máquina ficcional pôde se mostrar explicitamente, sem
disfarces ou transformações."



É aqui, leitor, nessa parte da conversa, que você se lembra
que o tal aparelho recém-inventado nos Estados Unidos, aquele que captura e
decodifica as reflexões filosófico-caninas de Lully, é pura ficção. Não por
outra, críticos costumam ser vistos pelos leitores como
"desmancha-prazeres", como nota Costa Lima. As engrenagens se expõem
para quem quiser ver.



A perspectiva de atrair um leitor quase oposto ao seu parece
animadora, horrorosa ou engraçada? "Alguns por certo me dizem que o livro
atrairá muitos leitores, algo bem diferente do que conheço com meus livros de
teoria e crítica literária. Se isso se der, ficarei muito contente. Em vez de
engraçada, a hipótese me parece surpreendente. Mas não creio que seja
possível."



Lully tem longuíssimos pelos lisos - por sua pelagem, a raça
é identificada no nome original em chinês como o "cão leão" -, é
pequenina - a espécie nunca ultrapassa os 25 cm - e, na descrição de seu dono,
"faceira e sedutora como uma teenager", apesar dos oito anos, idade
da maturidade em sua categoria. "Melhor, mais do que a maioria das que
vejo frequentar a PUC."



 Benjy, que também
existe, tem no livro um nome falso. O verdadeiro é Billy. O cão é "meio
bobão, manhoso e longe do charme de Lully", descreve-o o dono bastante
crítico (a palavra "crítico" no sentido comezinho), para mais à
frente reconhecer a possibilidade de ter sido injusto no relato que faz do cão
macho por uma inconsciente competição pela fêmea.



 Se escrever o
primeiro manuscrito lhe custou duas horas, foi só depois da leitura de Rebeca,
mais minuciosa e atenta aos acréscimos, que vicissitudes da vidinha de cachorro
puderam ser registradas - desde a ração antialergênica às bolinhas homeopáticas
- e muitos episódios, recordados com exatidão, do treinamento avançado de artes
marciais para cachorro às crises de pânico de Billy ao entrar num carro, o que
fez o casal ter de se desfazer de uma casa de praia. Quase tudo o que é contado
Lully de fato viveu, à exceção de um sequestro, este completamente fictício. E
há mais uma coisa ou outra recriada. "A cena da paixão pelo vira-lata tem
um fundo de verdade, mas é um tanto estilizada", diz Costa Lima. De fato,
esta já dava para notar.



 Resta saber por que
escolheu o nome de Bruno Negri. "Eu mesmo não sei!", diz.
"Talvez porque de imediato pensei o título como 'Me Chiamo Lully'. Sei
apenas que tanto Bruno como Negri pretendiam acentuar, direta ou indiretamente,
a cor da 'autobiografada': branca com manchas negras. Mas, no fundo, o nome não
tem maiores razões." Existe razão, essa sim, para adotar um pseudônimo,
como explica: "Temia que o nome do crítico prejudicasse a circulação do
livro".



 A trajetória de
crítico não se interrompe. Meses atrás, saiu o recente "A Ficção e o
Poema", pela Companhia das Letras, desdobramento de dois anteriores,
"História. Ficção. Literatura" e "O Controle do Imaginário e o
Romance". Costa Lima conclui agora um novo volume, que se chamará
"Frestas" e deve sair apenas em 2014. Outra notícia recente vem de
fora: um dos seus livros clássicos, "Mímesis: Desafio ao Pensamento",
acaba de ter tradução para o mercado de língua alemã. E para Bruno Negri, há
futuro literário? John Grogan fez vários na linha do "Marley &
Eu". "Não, não creio. Pode parecer louco. Mas tenho muitos projetos
de livros longos e trabalhosos. 'Me Chamo Lully' foi um felicíssimo acidente.
Ainda que não fosse difícil continuar a aventura ficcional, suponho que minha
opção de vida é outra."



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