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'Palavras são como caramelos', diz escritora Lya Luft
26/11/2012

 

De volta ao romance, autora constrói trama delicada em linguagem simples

 




25 de novembro de 2012 | 2h 12







UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo





Divulgação

Lya Luft

Lya Luft não escrevia um romance desde O Ponto Cego, lançado em
1999. Ao longo desses 13 anos, ela lançou um livro de contos (O Silêncio dos
Amantes
, de 2008) e se consolidou como uma autora de imensa notoriedade,
especialmente por criar pequenos ensaios que, graças à sua forma predileta de se
dirigir ao leitor (direta e coloquial), não apenas revelam suas perplexidades,
como também focam o drama existencial humano - o fruto mais célebre é Perdas
e Ganhos
, de 2003, que encabeçou a lista dos mais vendidos durante 113
semanas.

Agora, Lya retoma a escrita de fôlego com O Tigre na
Sombra
(Record), delicado romance sobre Dolores, conhecida como Dôda, que,
ao nascer com uma perna mais curta, luta para vencer as barreiras sentimentais e
pessoais impostas por essa deficiência. Ao seu redor, circulam a irmã Dália,
bela mas com um destino desastroso; a mãe, que vive a exaltar os defeitos de
Dôda; o pai, carinhoso com ela mas um homem atormentado, que dorme com um
revólver debaixo do travesseiro; e a avó, Vovinha, que oferece tranquilidade nos
momentos mais atribulados.

Tímida, Dôda projeta na imagem que vê no
espelho a mulher perfeita que gostaria de ser. Acredita também na presença de um
misterioso tigre de olhos azuis. Sobre o livro, Lya respondeu, por e-mail, às
seguintes questões.

Como nasceu seu
romance?


Lya Luft - Todos os meus livros de
ficção gestam por longo e confuso tempo. Aparecem e somem dessas turvas águas do
meu inconsciente várias vezes, misturados, a maioria morre na praia, um e outro
se firma, e me chama e me seduz, e construo uma história de enigmas que nem eu
entendo bem e, por isso, é tão lúdico e desafiador escrever. Porém, depois que
se afirma, leva uns 6 meses para ser escrito. O Silêncio dos Amantes
começou como romance, mas acabou em contos. Não sei explicar, nem precisa.
Importa o leitor.

É interessante a relação de Dôda com a Dolores
que vê no espelho - você se lembrou de Borges quando criava essa relação que
retrata um estilo de consciência?


Lya Luft -
Nunca me lembro de coisas que li ou vi quando escrevo, mas devem estar
naquelas águas turvas onde fica tudo. Como contos de fadas, por exemplo, coisas
tão remotas da infância, os medos, as invenções. Muito depois de pronto meu
Tigre, alguém falou e lembrei que Borges tratava de tigres. No começo,
o meu animal era um polvo que de noite, no fundo mais escuro do mar, abria um
enorme olho azul e fitava a menina, depois a mulher, as pessoas. Mas um dia
achei o polvo meio repulsivo quando saía da água e sacolejava na areia. Matei o
polvo. Tempos depois apareceu um tigrezinho no quintal e adorei. E, depois,
ainda pensei, que seria muito legal se ele tivesse olhos azuis.


O livro revela seu cuidado com a escrita. Como foi o
processo?


Lya Luft - Raramente escrevo em ordem
cronológica, mas em espirais ou fragmentos que componho depois. Reescrevo
interminavelmente porque busco a linguagem simples e sofisticada, clara mas não
banal, essa fala íntima com meu amigo imaginário, o leitor, e comigo mesma.
Gosto de palavras, frases: são como caramelos, flores, borboletas para mim.
Escrever é um estado de felicidade, harmonia, alegria. Meus personagens sofrem:
eu não, ao contrário, preparo armadilhas, até para mim mesma, rondo o mistério,
o Tigre é o enigma enfim: morte? No fundo, importa saborear frases, palavras,
história, vida e morte e conflito e ternura e claridade e noite. Importa talvez
só a última frase do livro: "Nenhum tigre tem olhos azuis".

Fonte: Estadão.com.br/Cultura