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O 'velho Braga' chega aos cem
11/01/2013

 





11/01/2013 às 00h00



 



 Por Ricardo Viel |
Para o Valor, de Madri



 



Figura grande e desajeitada, Rubem Braga dizia que escrevia
de palpite, como algumas pessoas tocam piano de ouvido.



 



"Sou um homem quieto, o que eu gosto é ficar num banco
sentado, entre moitas, calado, anoitecendo devagar, meio triste, lembrando umas
coisas, umas coisas que nem valiam a pena lembrar." Assim se descrevia
Rubem Braga, considerado por muitos um dos maiores cronistas do Brasil, cujo
centenário de nascimento é celebrado neste sábado.



 



O escritor morreu aos 77 anos, em 1990, vítima de um tumor
na laringe que preferiu não operar, não sem antes encomendar a própria cremação
e se despedir dos amigos.



 



Ainda moço passou a se denominar "o velho Braga" e
ajudou a construir a imagem de Casmurro. O ar taciturno e a figura grande e
desajeitada pareciam incompatíveis com os escritos delicados e cheios de poesia
que diariamente traziam seu nome nas páginas dos jornais. "Ele era
extremamente reservado. Nunca vi o Rubem se referir a alguma coisa que tivesse
escrito. Era, desde cedo, por natureza, assim", conta o engenheiro Álvaro
Abreu, de 65 anos, sobrinho do escritor.



 



Segundo Abreu, o tio era uma pessoa que falava pouquíssimo,
mas observava muito. "Era muito afável, curioso e prezava muito as
amizades. Cultuava o convívio, embora fosse reservado. E, isso sim, era uma
pessoa que nunca sorria, uma pessoa sem graça. E nunca falava mal de
ninguém."



 



Além de ensimesmado, o "velho Braga" tinha também
fama de boêmio e mulherengo. "Ele se transformava quando via uma
mulher", recorda o sobrinho.



 



Sobre a boemia, um dos episódios que ajudam a reforçar a
imagem é a anedota da BMW que foi "bebida" por Rubem e os amigos que
frequentavam sua lendária cobertura em Ipanema. Funcionário diplomático em
Marrocos no começo dos anos 60, o cronista recebeu do governo o privilégio de
trazer um carro que tinha comprado no país africano. Assim que o automóvel
chegou ao Rio, foi vendido. Conta a lenda que em um ano o carro foi consumido
pelo grupo. "Eles chegavam à casa do meu tio e diziam: 'Hoje vamos beber o
para-choque'. No outro dia, abriam uma garrafa e tomavam a lanterna. E assim
foi", diverte-se.



 



Os mais de 20 livros de Rubem Braga, todos compilações de
crônicas, ajudaram a consolidar seu nome entre os maiores literatos
brasileiros, embora ele mesmo, por pura humildade, não se considerasse
escritor. "Confesso que escrevo de palpite, como algumas pessoas tocam
piano de ouvido."



 



Foram cerca de 15 mil crônicas, sobre os temas mais diversos
e muitas vezes sobre tema algum. O amigo Manuel Bandeira disse certa vez que
Braga era sempre bom, mas quando não tinha assunto era ótimo.



 



Durante 62 anos, Rubem Braga escreveu crônicas e fez do
gênero considerado menor sua marca. "Tenho para mim que ele é muito mais
importante para a literatura brasileira do que se pensa. Tinha muito claro o
lugar que a crônica ocupa dentro do mundo da literatura e, apesar da pressão
dos amigos - como se escrever romance fosse o passo seguinte -, sempre disse
que estava realizado fazendo o que fazia: escrevendo crônicas", diz o
escritor e crítico literário José Castello.



 



Autor do livro "Na Cobertura de Rubem Braga", que
será reeditado pela Record para o centenário do cronista capixaba, Castello
defende a importância de uma volta à crônica: "Não sei se é por falta de
espaço nos jornais, por falta de novos cronistas, ou por uma decisão editorial,
mas o fato é que há pouco espaço na imprensa para a crônica. E é preciso lê-las
e pensar nessa figura do cronista, pensar no Braga. Retomar contato com isso é
fundamental. As pessoas estão precisando disso".



 



Se em seus textos, mesmo em sua fase jovem, Braga esbanjava
nostalgia e se apresentava como uma alma velha, parece que hoje, com a
velocidade do mundo, essa sensação se estende a seus leitores: narra um mundo
que não existe mais.



 



"A crônica, um gênero tipicamente brasileiro, é, antes
de tudo, um tema contemplativo e íntimo. No mundo ansioso em que vivemos,
parece que não há tempo para a observação, não há tempo nem para escrever nem
para ler crônicas", opina Castello.



 



Mas, além do cronista que escreveu sobre a beleza das
mulheres, do mar e dos passarinhos, há outro Rubem Braga ainda a ser explorado,
defende a jornalista e pesquisadora Ana Karla Dubiela, de 58 anos, autora de
três livros sobre o escritor. "Há um período de crítica social,
principalmente nos primeiros anos de seus escritos, que ainda não foi explorado
devidamente."



 



Para Ana Karla, há um desconhecimento de passagens da vida
de Braga que as diversas homenagens programadas para comemorar o centenário
podem ajudar a esclarecer. "Dizem que ele foi correspondente de guerra,
mas isso está errado. Ele foi cronista na Itália, não deu nenhum furo de
reportagem, mas retratou com extrema poesia o que via."



 



Como sempre fez em outros cenários, o que fez durante a
Segunda Guerra, no front, foi observar. Preferiu retratar o cotidiano dos
soldados (as cartas às namoradas, a procura por saber o resultado do Fla x Flu)
a narrar grandes acontecimentos. Em um de seus textos, intitulado "A
Menina Suzana", descreveu com maestria a dor de ver uma garota de 10 anos
atingida por uma granada: "A cabeça de Silvana descansava de lado, entre
cobertores. A explosão estúpida poupara aquela pequena cabeça castanha, aquele
perfil suave e firme que Da Vinci amaria desenhar".



 



Na fase mais lírica ou mais crítica, o fato é que Braga foi
capaz de construir, a partir do banal, um mundo poético e encantador. Retratou
um universo muito distante do atual.



 



Agora centenário, o "Fazendeiro do ar" - apelido
que ganhou por causa do jardim, transformado em horta, que cultivou em sua
cobertura - receberá diversas homenagens, não só em sua terra natal, mas em
todo o país. A pompa com que cercam o centenário provavelmente o incomodaria.
"O Braga não tinha dengo, detestava puxar o saco, era muito
autônomo", conta Abreu.



 



É possível que de sua cobertura em Ipanema assistisse calado
às comemorações, cheio de nostalgia, e repetisse uma de suas geniais frases:
"Ultimamente têm passado muitos anos".



 



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