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Um constante recomeçar
14/01/2013

 





Por Diego Viana | De
São Paulo



A história dos países latino-americanos, em particular o
Brasil, pode ser interpretada a partir de um espírito que mescla violência,
ganância e religiosidade. Esse espírito, que faz das descobertas uma etapa do
esforço de conquistas pelos espanhóis e portugueses medievais, é examinado por
Francisco Weffort em "Espada, Cobiça e Fé" (Civilização Brasileira,
240 págs., R$ 39,90). O próprio título do livro explicita as três vertentes do
espírito que guiou a formação dos Estados do Novo Mundo.



 



Weffort saúda a democratização social: "Nada é
irreversível na história. O Brasil já mudou muito, já chegamos longe à
beça".



 



Inspirado nos grandes intérpretes do Brasil nas décadas de
30 e 40 e motivado por suas andanças através do país, como ministro da Cultura
do governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), Weffort compõe uma leitura
de forças que motivaram a conquista do território brasileiro e a formação de
uma sociedade personalista, desigual e escravocrata, mas culturalmente diversa
e cujo desenvolvimento histórico aponta para uma crescente democratização
social.



 



O ex-ministro, hoje professor na Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ) - a maior parte de sua carreira acadêmica foi passada na
Universidade de São Paulo (USP) -, recolheu-se, ao longo de sete anos, para
escrever o livro, a ponto de não acompanhar, como diz, as discussões sobre a
gestão da cultura em Brasília. Afirma desconhecer o assunto e recusa-se a
comentar a criação do Vale-Cultura e o projeto do Procultura, que visa alterar
procedimentos da lei Rouanet.



 



Ao longo desse período, Weffort escreveu sobre as origens
históricas de uma terra em que o discurso expressa, a cada momento, a impressão
de se estar vivendo, de novo, a origem de tudo. O livro é introduzido com essa
afirmação instigante: "É frequente em nós a sensação de que estamos no
começo dos tempos". Para sustentar sua interpretação, Weffort cita Joaquim
Nabuco, Stefan Zweig e Carlos Fuentes - este último, considerando as
referências que faz ao México e aos latino-americanos em geral.



 



"O Brasil é fruto de um renascimento voltado para a
conquista, não para o avanço das artes e das ciências", diz o cientista
político



 



O autor associa esse mito do recomeço constante à linhagem
dos países latino-americanos, descobertos e povoados na esteira da
"Reconquista", em que os exércitos cristãos, ao longo de quase 800
anos, tomaram a Península Ibérica dos árabes. Somos, portanto, "herdeiros
da última Idade Média" e "fruto de um dinamismo renascentista
ibérico"; esse dinamismo é caracterizado, segundo Weffort, não pelo avanço
das artes e das ciências, mas pela conquista do mundo.



 



"O sentido dos descobrimentos foi fazer irromper um
novo mundo. Havia aí a promessa de uma nova civilização", afirma o autor.
"O problema é que não conseguimos ainda divisar um horizonte de
modernidade prometido naquele começo." Como consequência, cada momento de
transformação do país é tratado como recomeço por seus agentes principais.
"É como se estivéssemos retomando o começo, e dizemos: 'Não fizemos até
agora, mas faremos'".



 



Weffort conta que buscou se espelhar em grandes intérpretes
clássicos do Brasil, como Sergio Buarque de Holanda, Roberto Simonsen, Gilberto
Freyre e Caio Prado Júnior, que escreveram nos anos 30 e 40 do século passado,
mas não deixaram herdeiros, propriamente. Ele se queixa do fato de que muito se
aprendeu sobre o país desde então, em muitas áreas, mas somente de forma
"pontual, setorial, fragmentária". De lá para cá, jamais foi feita a
síntese entre, de um lado, os avanços nos estudos sobre a política, a cultura e
a história do Brasil e, de outro, a ambição de realizar uma leitura global
dessas dimensões da realidade do país.



 



O livro é destinado primordialmente a um público de
graduação em ciências humanas, cujas principais fontes de estudo estão
divididas entre grandes textos interpretativos de oitenta anos atrás e os
estudos de escopo mais limitado, ainda que profundo, publicados nas décadas
subsequentes. "É por isso que viso o público mais jovem, que está na
universidade. Eles têm contato com esta literatura básica, que é fundamental,
mas não teve a continuidade que merecia."



 



 



 



Weffort foi buscar em Sergio Buarque de Holanda e outros
intérpretes clássicos da vida brasileira o exemplo de um modo de pensar
abrangente, não fragmentário.



 



Weffort considera que o abandono da ambição ensaística e
generalista dos grandes intérpretes do Brasil foi uma perda considerável.
"Deixamos de pensar como eles pensavam, o que não significa que tenhamos
vindo a pensar melhor", afirma. "Houve uma perda em favor da
setorização, da especialização, da pesquisa empírica. Isso deveria vir
acompanhado de uma tentativa de interpretação geral, que não aconteceu."



 



Nesse intervalo, porém, o país como um todo mudou muito,
tanto em termos sociais, empíricos, quanto conceituais. Weffort observa um
processo de modernização e de democratização social que avança, ainda que a
passos lentos e permeado por obstáculos e retrocessos. "Há um 'cultural
lag', como se diz nas ciências sociais", diz. "As condições materiais
da vida mudam mais rápido do que a cabeça. A cultura e o pensamento mudam mais
lentamente."



 



Tamanhas transformações dão a impressão de que os estudantes
que imergem na leitura desses intérpretes clássicos estão aprendendo sobre um
país que já não é mais o país deles. Weffort, porém, não sustenta essa leitura.
"Não é o país deles, mas foi. Esses autores nunca ficaram para trás e
ainda são indispensáveis para entender o Brasil. Mas defendo que tenhamos a
coragem que eles tiveram, para fazer tentativas de interpretação mais
geral."



 



Ainda que o livro trate de um princípio de formação que
inclui genocídios, exclusão e extrativismo, Weffort se declara francamente
otimista com os rumos do país. Referindo-se ao processo de democratização
social, observa que "nada é irreversível na história, o Brasil já mudou
muito. Vindo de onde viemos, já chegamos longe à beça".



 



"As condições materiais da vida mudam mais rápido do
que a cabeça. A cultura e o pensamento mudam mais lentamente"



 



Weffort cita as etapas mais recentes: a transição para a
democracia no governo de José Sarney, com seu "tudo pelo social"; a
racionalização da atuação do Estado, com instrumentos como a Lei de
Responsabilidade Fiscal, no governo de que fez parte; o combate direto e
efetivo à miséria a partir da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. "Mas
isso não é tão recente. Já em Getúlio Vargas encontramos declarações como 'não
estou falando para as elites, estou falando para o povo'. Depois ele se
matou..."



 



Em paralelo com as transformações de fato no país, Weffort
identifica mudanças fundamentais na forma de pensar o país, que refletem, aos
poucos, o que acontece empiricamente na sociedade. "Houve uma época, na
história do pensamento brasileiro, em que não se via o povo. O povo era
invisível." Weffort cita o médico francês Louis Couty, autor de um dos
primeiros estudos sociológicos sobre o Brasil, "A Escravidão no
Brasil" (1881). Segundo Couty, "o Brasil é um país sem povo": o
brasileiro tinha de si próprio uma imagem limitada à minúscula classe de
proprietários rurais.



 



A descoberta de que o povo brasileiro existia começou,
segundo Weffort, com o sucesso de vendas de "Os Sertões", de Euclides
da Cunha, em 1902. Um impulso maior, porém, foi o processo que resultou na
ascensão de Getúlio Vargas ao poder, em 1930. "A primeira manifestação de
massas do povo brasileiro foi a campanha de 1930, quando os operários do Brás
[em São Paulo] se juntaram à classe média e subiram a rua Tabatinguera."



 



Ao falar de sua experiência como ministro, o próprio Weffort
faz uma pergunta: "Por que alguém que, num determinado período, trabalha
com a cultura brasileira busca depois pensar a origem dessa cultura?" Ele
mesmo responde. "Porque é inevitável fazer esse esforço."



 



Natural de Quatá e crescido em Assis, quando essas cidades
do Estado de São Paulo eram "a boca do sertão", Weffort declara sua
surpresa com a diversidade das manifestações culturais no Brasil, seja a
presença de passistas de samba no interior de Mato Grosso, seja a influência
peruana na festa do boi de Parintins.



 



"Por mais que eu soubesse disso por leituras, é preciso
ver pessoalmente. Chega um ponto em que os livros não dão mais conta dessa
diversidade", afirma. É possível verificar, então, que a imensidão do
território e a diversidade cultural não impediram que o país mantivesse uma
verdadeira unidade cultural e social. "Só para dar um exemplo, mesmo que o
catolicismo não seja mais a religião plenamente dominante, uma certa forma de
pensar de origem católica está disseminada por todo o Brasil. E o idioma é o
português. Parece pouco, mas não é: até o século XVIII, em São Paulo falava-se
guarani."



 



O olhar ambivalente, cindido entre "o compromisso com a
modernidade e o respeito à tradição", é uma constante na gestão cultural
brasileira, segundo o ex-ministro. Com todas as mudanças de regime, persistiu
uma atitude cujas origens podem ser encontradas nos esforços musicológicos de
Mario de Andrade. "É notável como o governo de Getúlio Vargas foi ao mesmo
tempo o governo do desenvolvimentismo e a época do ministro Gustavo Capanema, durante
a qual se criou o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional].".



 



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