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A flor rompe o asfalto
18/01/2013

 





18/01/2013 às 00h00



 



Por Joselia Aguiar | Para o Valor, de São Paulo



 



A livraria, ainda fora do espaço definitivo: nas
prateleiras, poetas de mais de 50 idiomas, nascidos em épocas e culturas
distintas, do guarani ao barroco espanhol, do persa antigo ao inglês atual.



 



O estabelecimento recebeu certa vez, por seu
propósito e formato, a designação certeira: tratava-se da "última aventura
surrealista de Lisboa". Trazido por avião para o Brasil, dentro de caixas
que pesavam uma tonelada, não precisará perder o epíteto. O destino continua
tão lisboeta quanto surrealista e aventuroso, a se cumprir agora na Lapa,
centro antigo do Rio. O avesso do que seria um empreendimento tipicamente
mercantil, a Livraria Poesia Incompleta vende apenas livros de poesia - gênero
anticomercial - e do mundo inteiro, pois "pequenina nos gastos, não na
ambição", declara seu dono e único funcionário, o português Mário Guerra,
o Changuito. O endereço mudou, não o lema: "O maior esforço para qualquer
lucro".



 



Não foi por insucesso que se deu a transferência
para o país além-mar. Antes da decisão, seu contabilista lhe atestou um
crescimento de 20% em um ano, com o país inteiro em crise pesada. Estava sem
dívidas, algo incomum para uma livraria, as compras a prazo e as consignações
são usuais nessa modalidade de varejo. "Pagava as minhas contas, tinha
dinheiro para tabaco, mas há um lado que é poder ou não poder respirar nos
lugares", diz Changuito, que encerrou o expediente em Lisboa em março,
deixando os clientes em certo suspense, notícia que teve cobertura pesarosa da
imprensa local. Só em agosto anunciou seu paradeiro. A loja por fim foi aberta
há um mês, porém "ainda manca".



 



Para funcionar por cá, tem encontrado uma
burocracia que lhe parece bastante familiar. As repartições daqui reproduzem um
modelo "absolutamente português, mas com uma infantilidade que Portugal já
perdeu", o que resulta, como constata Changuito, numa mistura de
"Kafka com Monty Python". Afora o trâmite para se instituir como loja
brasileira, uma providência urgente, ainda não resolvida, é dispor de um lugar
de fato, uma casa térrea para ocupar e, quem sabe, arriscar uma programação de
récitas. No pequeno escritório que ora ocupa no alto de um edifício, as vendas,
para ocorrer in loco, têm de ser combinadas antes ou se realizam por e-mail. O
blog (poesia-incompleta.blogspot.com/) e as duas páginas no Facebook servem
como vitrine - em seu conhecido humor, o Livreirito, alcunha com que se
apresenta não bastasse já o cálido apelido, publica capas e comentários
diversos, vaticina e até pragueja. "Raios partam a ligação à internet que
está hoje com uma velocidade, digamos, quinhentista", reclamou um dia.
"Já há uns tempos que o Livreirito não tem um momento Stálin. Talvez agora
seja boa altura", ameaçou noutro.



 



O que seria um serviço se torna uma obsessão,
relata Changuinto: pedido feito, corre até o correio a tempo de enviá-lo no
mesmo dia. Nas prateleiras, enfileiram-se poetas de mais de 50 idiomas,
nascidos em épocas e culturas distintas, do guarani ao barroco espanhol, do
persa antigo ao inglês moderno. Se não tiver o título, encomenda de qualquer
país. "O capitalismo quer padronizar", observa. "Quando as
pessoas percebem que aquela experiência não é padronizável, se sentem um bocado
melhor." Sempre há um cliente que, para elogiar, lhe fala: "Procurei
em todos os lugares e, como não encontrei, vim aqui." Soa como ofensa.
"Respondo, orgulhoso: 'Isso, perca bastante tempo antes de vir ver se tem
aqui." Tal esmero o fez conquistar um público fiel nos três anos e meio em
que existiu em Lisboa. Por dia, tinha de vender uma média de nove livros para
não fechar. No Rio, calcula número um pouco maior, só que num país também
maior: 11, para ficar aberto. "Um português diz 'para não fechar', um brasileiro
diz 'para ficar aberto', é a diferença de perspectiva."



 



Qual flor que rompe o asfalto, seu empreendimento
surrealista desperta "simpatia imediata", admite seu dono.
"Mesmo que isso não necessariamente se concretize em negócios",
completa. Ainda com a loja a claudicar, aberta fazia poucos dias, Changuito foi
convidado para participar de uma das mesas da Balada Literária, em São Paulo,
em fins de novembro - é na área livre do hotel onde está hospedado, em
Pinheiros, que responde às perguntas do Valor. Conta que deve se ampliar o selo
editorial - poetas brasileiros vão incrementar a pequena coleção, que já
existe, leva o nome da livraria e é publicada em edições numeradas e seriadas,
de 250 exemplares. Sobre a boa fase que a ficção portuguesa atravessa aqui - no
dia anterior, conterrâneo seu levou um grande prêmio -, é voz dissonante.
"O motorista de táxi que me trouxe do aeroporto tem mais coisa a dizer que
muito autor português a fazer sucesso no Brasil." O juízo é duro. "Há
uns equívocos que essa época gera, a mistura da pós-modernidade com a indústria
é muito propícia ao aparecimento de vigaristas." O número de impostores
por sorte lhe parece menor na literatura que, por exemplo, na música. "A
única vantagem da poesia é que não dá lucro. Por isso não tem muito mais
vigaristas."



 



Pelas contas que faz, a Poesia Incompleta é uma
entre as cinco especializadas no gênero em todo o mundo - há duas nos Estados
Unidos, uma na França, outra na Suécia. A empresa exige do dono que tenha prumo
e diligência de samurai: "Não aconselho esse tipo de comércio. A não ser
que seja rico e queira perder, ou que seja rico e não queira ganhar, ou que
tenha imenso amor aos livros".



 



Changuito se enquadra na terceira categoria: filho
de um pintor e cenógrafo com uma atriz, é "um tipo que teve a sorte de
descobrir a poesia" ainda que tardiamente, aí pelos 17 ou 18 anos. Entre
os preferidos, Alexandre O'Neill, Mário Cesariny, Herberto Helder, Lorca,
Drummond e João Cabral. Foi com a dificuldade de achar o que queria nas livrarias
de Lisboa que decidiu montar a sua. As quatro principais redes livreiras de lá
- Almedina, Bertrand, Bulhosa e Fnac - são, como define, "assustadoramente
más": não é possível encontrar títulos se não são recentíssimos. "Um
livro tem em média vida de seis ou sete semanas e olhe lá. Um livro de 2005 é
considerado antigo." Poucas exceções são a Letra Livre, sua preferida, e a
Ler Devagar. Até se lançar no ramo, sua experiência até ali não era como
livreiro: por mais de uma década, fora o faz-tudo no bar de um teatro, sob seus
auspícios incluía-se da programação musical à compra de uísque.



 



Primeiro leitor de poesia, depois como dono da
Poesia Incompleta, compreendeu que "o mau capitalismo é o que não
funciona". Encomendava livros que chegavam da Inglaterra em dois dias;
aqueles que pedia a uma editora situada a 20 km demoravam três semanas. Isso
quando o e-mail era aberto.



 



Duas semanas depois da conversa, Amazon e Kobo
iniciam as operações brasileiras. Novas perguntas se encaminham para o e-mail
da Poesia Incompleta: como as coisas se alteram agora? Changuito não se abala.
"Como leitor, sinto que um bom livreiro me pode ajudar muito mais do que
uma combinação de algoritmos, gerados por vendas ou por gêneros, que é como é
feito o aconselhamento das livrarias virtuais." As grandes é que têm a
perder, avalia: "Creio que mais rapidamente sofrem as cadeias de
livrarias, que durante os últimos anos descuraram o leitor que não quer
best-sellers - bestas céleres, como dizia O'Neill -, por serem elas que ocupam
o espaço das grandes vendas, das megafaturações, das hiperpromoções e de outros
nomes assustadores". As pequenas estão no extremo oposto: "Livrarias
especializadas, parece-me, se forem honestas e não cobrarem preços
exorbitantes, vão conservar sempre, e creio que a tendência será crescer, um
público fiel."



 



 



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