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Ruth Rocha: a encantadora de crianças
21/01/2013

 





18/01/2013 às 00h001



 



Por Adriana Abujamra | Para o Valor, de São Paulo



Era um domingo quente de 1969. Ruth Rocha vestiu seu maiô
e chapéu e foi nadar na casa de Sonia Robatto. A amiga abriu a porta, segurou-a
pelo braço e a levou até uma salinha. Lá, tinha uma máquina de escrever e uma
pilha de papel em branco. "Senta aí e escreve uma história", disse
Sonia, que precisava urgentemente de algo para publicar na revista
"Recreio", da qual era diretora. Para que Ruth não escapulisse,
trancou-a lá.



 



Trancou é modo de dizer, não? "Nada, trancou mesmo!
Girou a chave e me deixou lá." Sem chance de fuga, Ruth pegou como mote
uma pergunta da filha - "por que preto é pobre?" - e escreveu sua
primeira história numa sentada só: "Romeu e Julieta, a Borboleta",
sobre uma borboleta amarela e outra azul, que juntas enfrentam preconceitos.



 



Quarenta e quatro anos, 130 livros, 12 milhões de
exemplares vendidos, histórias traduzidas em 20 línguas e 29 prêmios depois -
entre eles o da Academia Brasileira de Letras e 5 Jabutis -, Ruth Rocha é hoje
um dos nomes de maior destaque na literatura infantil.



 



Mas números não são o forte da escritora. No almoço no
Mori, Ruth anuncia que comerá apenas seis sushis. "Gente, nós vamos para o
inferno de tanto comer", dirá, depois de traçar bem mais do que a meia
dúzia prometida. Mas isso já é o fim de uma história que começou às 13 horas de
uma segunda-feira de sol com um táxi parando na porta do restaurante japonês em
Perdizes, São Paulo.



 



Dele desce Ruth Rocha, toda de branco, apoiada numa
bengala. Assim que nos vê, a boca pintada de batom bem vermelho se abre num
sorriso largo. A mesa que nos reservaram fica no piso superior e a escritora,
que aos 81 anos está com visão limitada - "um olho nada e o outro muito
pouco" -, prefere aguardar que vague lugar no térreo para evitar subir
tantos degraus. Mas, como disse sua secretária ao telefone "fora isso, ela
está melhor que todos nós".



 



'A Cidade e as Serras', de Eça de Queiroz, foi meu
encontro, ou melhor, trombada com a literatura. Foi decisivo para que me
tornasse escritora



 



Assim que nos sentamos num banco de madeira na entrada,
Ruth engata uma prosa, com voz rouca. "Eu era meio-soprano, fiquei com voz
grossa depois de velha", vai logo esclarecendo a mulher que durante anos
cantou em bares de jazz da noite paulistana. Seu aprendizado foi feito com a
avó Neném e com uma tia, que lhe ensinava as marchinhas de Carnaval. E, sem
aviso prévio, solta a voz, para deleite da moça do caixa, que larga a papelada
que tem na mão para ouvi-la. "Loirinha, loirinha, dos olhos claros de
quintal/ Desta vez em vez da moreninha/ Serás a rainha/ Do meu
carnaval..."



 



Faz uma pausa com um sorriso, como se o restante da
música continuasse a tocar em sua cabeça, e diz que sempre foi otimista e de
bem com a vida. "Tive uma infância divertida, repleta de cantigas e
histórias." Histórias, como ela gosta de dizer, que entraram em sua vida
"pelo caminho mais efetivo, o afetivo". A mãe, Esther, lia Monteiro
Lobato para os cinco filhos. Já o avô Ioiô era "um narrador profissional,
sabia tudo de cor" e prescindia dos livros para narrar. O homem era filho
de baiano com sergipana e nascido no Pará. "Mas, como diz o ditado, gato
que nasce em forno não é biscoito... Ele era baiano de jeitão" e adaptava
todas as histórias para Salvador.



 



Apoia as duas mãos na bengala, descansa o queixo sobre
elas e imita o avô. "A princesa casou-se com o príncipe, fizeram uma
grande festa, peguei uma bandeja apinhada de doces pra trazer para vocês - aí
ele elencava todos aqueles doces baianos: tinha bom- bocado, papo de anjo,
alfenim, que é um doce de açúcar feito bala de coco -, mas passei na ladeira do
Escorrega, escorreguei e quebrou-se tudo."



 



A diversão era do lado materno; já o avô paterno "era
um ranzinza...", diz numa careta. Um dia, quando eram pequenos, Álvaro, o
pai de Ruth, e seus irmãos estavam almoçando quando ouviram uma banda passar. A
molecada se alvoroçou e correu para ver de perto. Fim da história? O patriarca
tirou a comida da mesa e deixou a prole passar fome para aprender bons modos.
Adulto, o maior temor do pai de Ruth era herdar a ranhetice do próprio pai.
"Ah, bem, você não vai fazer isso pra mim?", provocava a mulher.
"Logo vi, tal pai tal filho." Bastava a ameaça para ele fazer tudo o
que Esther queria. "Olho a vida dos meus pais e vejo que eles viveram para
a gente." O casal já morreu, mas Ruth e seus quatro irmãos até hoje fazem
uma grande festa em 28 de junho, data de aniversário de casamento de Esther e
Álvaro, para celebrar a "fundação da família".



 



Essas coisas de tristeza - ela diz - não são de seu
feitio, e evita escrever sobre temas mais delicados para as crianças, como
fazem outros autores que falam de morte e doença. "O máximo que escrevi
foi 'E Se de Repente dá Certo', sobre pais separados." E basta.



 



Ruth: “Tive uma infância divertida, repleta de cantigas e
histórias”, que entraram em sua vida, como gosta de dizer, “pelo caminho mais
efetivo, o afetivo”.



 



Nos livros quem manda é ela, mas na vida é impossível
suprimir os capítulos mais duros. "Sinto uma falta do meu
companheiro...", diz referindo-se ao marido, o empresário Eduardo Rocha,
que morreu em janeiro do ano passado. "Estou pensando uma coisa e já quero
contar para ele. Foram 54 anos de casados e 60 de convivência, e nunca
brigamos." Nunca? Qual é o segredo? Ruth diz que tinham lá suas
desavenças, mas em hipótese alguma dormiam brigados. Ele perguntava: "E
aí, vamos fazer as pazes antes ou depois do almoço?"



 



Nossa mesa, enfim, está vaga, anuncia o gerente, para
nossa alegria e tristeza da moça do caixa, que até então se distraía com nossa
conversa. Ruth senta-se de costas para a janela e logo retoma a conversa.



 



Quando o marido se aposentou - era dono de uma fábrica de
bolsas -, passou a dedicar-se ao desenho. Ruth, na época, escrevia uma série de
histórias contada por uma família de tatus, inspirada nos netos Miguel e Pedro,
e convidou o companheiro para criar os bichos. O trabalho ficou tão bom que a
parceria se repetiu em "Odisseia" de Homero, adaptada por Ruth para a
Companhia das Letras, e em outras histórias. "Ele ganhou o prêmio maior de
ilustração da Fundação Nacional para o Livro Infantil e Juvenil e o da Academia
Brasileira de Letras", propagandeia de boca cheia, mas estômago ainda
vazio. "Vamos pedir?"



 



Sem nem olhar o cardápio, anuncia que comerá apenas os
tais seis sushis, mas aceita, sem a menor resistência, nossa sugestão: um
combinado para três e suco de tangerina. "Sabe, o Eduardo me amou até a
morte", diz, com os olhos marejados, assim que o garçom se afasta.
"Do primeiro ao último dia. Ele me amava tanto, mas tanto, nunca tive
dúvidas disso."



 



Eles não têm ideia do que é criança, do que é brincar.
Dizer anão agora é pecado, tem que ser verticalmente prejudicado



 



Depois de dobrar e desdobrar o guardanapo em silêncio,
volta à conversa. Os dois se conheceram na faculdade de ciências sociais da
Escola de Sociologia e Política da USP. Assim que o viu "lá longe, alto,
disse: ah, é ele" - e novamente a boca vermelha sorri. O garçom chega com os
sucos e uma entrada. "Gente, está uma delícia", ela diz, assim que
prova a berinjela.



 



Ruth nunca sonhou em ser escritora. Seu plano era cursar
psicologia, mas acabou fazendo sociologia. Por quê? "De tantã",
afirma, caindo numa risada de sacudir o corpo. A razão da escolha foi o livro
"Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre. Mas quando saiu da
faculdade não conseguiu emprego na área e foi trabalhar na biblioteca do
Colégio Rio Branco.



 



"Nessa história de falar com os pequenos, ganhei uma
corte, eles viviam em volta de mim." O diretor não tardou a convidá-la
para ser orientadora educacional, posto em que, entre outros encargos, tinha de
lidar com os alunos-problema. Tinha um moleque, "vadio, mas uma graça,
inteligente que só", que se recusava a estudar. Um dia ele enfiou a cabeça
dentro de sua sala e anunciou todo contente - "Dona" - era assim que
eles a chamavam. "Ô, dona, tirei 10 em inglês." Ruth parabenizou-o.
"Viu que bacana? É só você estudar que tira notas boas." Ao que o moleque
retrucou: "Nada, dona, colei tudo."



 



Foi conhecendo de perto as artimanhas das crianças que
Ruth achou um canal certeiro para falar com elas, o que mais tarde lhe seria
muito útil como escritora. "Hum, é hoje", diz, quando o garçom coloca
nosso prato colorido sobre a mesa. Enche o potinho de shoyu, pesca um sushi de
salmão e mastiga bem devagar, saboreando em silêncio. "Que coisa
boa", elogia, já de olho no sashimi de atum que atacará em segundos.



 



Mas restringir seu sucesso à sua experiência de 15 anos
em escola seria um erro, pois, se isso bastasse, o mundo estaria abarrotado de
bons escritores. Outros fatores contribuíram para que ela se tornasse a
escritora que é: seu otimismo e riso fácil, as histórias ouvidas na infância e
também o fato de Ruth ser uma leitora voraz. Começou com os gibis - ela e seus
irmãos tinham conta no jornaleiro e podiam pegá-los à vontade e pagar só
depois. Aos 13 anos, descobriu a Biblioteca Circulante no centro da cidade e
deparou com aquela quantidade enorme de livros. Por onde começar? Já sei, pensou,
pegaria do primeiro ao último livro de cada estante até dar cabo de todos.



 



"O segredo é escrever como eu penso, não sou
moralista, mas tenho um senso de justiça e ética", diz a escritora.



 



Um livro que a marcou foi "A Cidade e as
Serras", de Eça de Queiroz. "Foi meu encontro, ou melhor, trombada
com a literatura. Fiquei impressionadíssima e foi decisivo para que eu me
tornasse escritora." De repente, Ruth para de falar, olha para a
fotógrafa, sorri e permanece imóvel, encarando a câmera. Ana Paula Paiva
aconselha que ela fique à vontade, fará seu trabalho enquanto a gente conversa.
"Mas você não para de me espiar, resolvi te dar um sorriso", explica
num sorriso ainda mais largo.



 



A vista ruim não a impede de ler e reler seus escritores
prediletos, Guimarães Rosa, Hemingway, Faulkner, Saramago, e os poetas Manuel
Bandeira e Fernando Pessoa. "Mando o que eu quero ler para ampliar no
xerox e ler depois, facilita. Mas com isso leio e trabalho menos",
lamenta. Interrompe a fala para pegar um sushi "Este aqui é de alguma
coisa que eu não imagino o que seja." Prova e aprova. "Hum, gente, é
bom demais."



 



Foi mais ou menos assim que iniciou sua carreira de
escritora: no início não fazia ideia do que era, mas, assim que experimentou,
gostou tanto que não parou. Ruth tinha 37 anos na ocasião de sua primeira
história e 46 quando "Palavras Muitas Palavras..." - seu primeiro
livro - foi publicado. Antes disso, era orientadora educacional, escrevia
artigos sobre educação para a revista "Claudia" e criava brincadeiras
para a "Recreio".



 



Os estudiosos da literatura para crianças são unânimes em
dizer que Ruth Rocha - ao lado de Ana Maria Machado, Ziraldo, João Carlos
Marinho, entre outros - revolucionou o universo de leituras disponíveis na
época, que desde Monteiro Lobato andava à míngua. Entre Lobato e essa geração
que despontou nos anos 1970, boa parte dos textos postos nas mãos de crianças
vinculavam ideias moralistas desprovidas de humor, nada ao gosto dos pequenos.



 



Sonho não uso para criar, de sonho não se aproveita nada,
sonho é uma droga, né?



 



Eram histórias selecionadas pelo que tinham de
"mensagem", com o intuito de passar valores e ensinar gramática. Como
bem dizia Lobato, "capaz de vacinar a criança contra a leitura para
sempre". Ruth admira profundamente Lobato, que botou na boca de Emília o
que ela considera a síntese da rebeldia. "Quem é você?", perguntaram
para a boneca. "Eu sou a Independência ou Morte!", respondeu ela. Por
isso a escritora diz "ter uma bronca" com a mania do politicamente
correto.



 



Uma editora, ela conta, aconselhou-a a tirar o cachimbo
da boca do Saci-Pererê. "Falei: quem são vocês para mudar o folclore
brasileiro?" Em outra ocasião, queriam que ela ensinasse todo o abecedário
para crianças de 3 anos, que, como está claro nas Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação Infantil, ainda não estão aptas para isso. O que a
senhora fez, argumentou? "Não, briguei mesmo", relata, arrancando
risadas da audiência. "Eles não têm ideia do que é criança, do que é
brincar. Dizer anão agora é pecado, tem que ser verticalmente prejudicado."
Pois é, logo mais a Branca de Neve estará acompanhada pelos Sete Verticalmente
Prejudicados.



 



Mas ser contra a patrulha do politicamente correto não
significa abrir mão do bom senso e do respeito humano. "O segredo é
escrever como eu penso, não sou moralista, mas tenho um senso de justiça e
ética." Encara o prato e come mais um sushi antes de prosseguir. Ruth
recorda que reescreveu metade de "O Mistério do Caderninho Preto"
(Ática, 1991) depois que o marido apontou o que achava ser uma injustiça no
texto. O personagem que roubava o tal caderno do título chantageava os amigos,
mas acabava impune. Ruth, sem discurso moralista, mudou metade da história.



 



"O personagem continuava a chantagear os colegas,
mas dava tudo errado. Ele mandava uma menina fazer o trabalho para ele, mas
tirava nota baixa. Proibia um menino de namorar a menina em que ele estava de
olho, mas a menina escolhia um outro."



 



O garçom recolhe os pratos e pergunta se queremos
sobremesa. "Não, não", responde, categórica, com a mão na frente da
boca. "Mas tem um tempura de sorvete que é muito bom", provoca o
garçom. "Hum, ah, eu quero!", diz, sucumbindo aos prazeres da gula
numa gargalhada. Quando o garçom se afasta, peço que conte um pouco sobre seu
processo de criação.



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