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Uma das nações mais antigas por um fio
18/03/2013

 

Victoria: seu romance é épico, com grandes personagens e dramaticidade intensa.

 





15/03/2013 às 00h00



 



Por Gonçalo Junior | De São Paulo



  



O primeiro ponto positivo do ótimo
"O Fio", novo romance da escritora inglesa Victoria Hislop - autora
do best-seller "A Ilha", também ambientado em território grego -, é o
seu oportunismo nos sentidos de atualidade e interesse. Ao narrar 90 anos da
história de duas famílias que se unem por meio de um casamento, o livro se
revela um achado para quem quer saber por que um dos países mais antigos do
Ocidente - e importantes -, a Grécia, se tornou, desde 2007, o epicentro da
maior crise econômica mundial em quase um século.



 



Diluída num texto fluente e
sedutor, e a partir de extensa pesquisa histórica para estruturar sua trama,
Victoria parte de um encontro para um chá entre o neto Mitsos e seus avós
Dimitri e Katerina Komninos. No momento em que os gregos afundavam numa
recessão e todos pensavam em deixar seu país, os avós decidiram contar-lhe a
história de suas trágicas e incansáveis vidas para justificar por que jamais
abandonariam sua terra natal - no caso, a Tessalônica, a segunda maior cidade
grega. E eles querem algo mais: convencer o rapaz também a ficar.



 



"O Fio" é uma história
monumental, que se constrói a partir da noção da fragilidade de seu título, mas
se revela de uma força indestrutível ante a capacidade de luta de seus
protagonistas diante da trajetória de um país que passou por grandes tragédias,
mas teima em continuar a existir, crente na sua importância para a civilização
do lado de cá do globo terrestre. Um arco que começa nove décadas antes, em
1917, ano do nascimento de Dimitri e quando aconteceu um grande incêndio que
destruiu Tessalônica. A Grécia estava envolvida na Primeira Guerra Mundial
(1914-1918), mas tudo parecia dentro da normalidade, uma vez que seus exércitos
não se envolveram diretamente e muitos empresários ganharam dinheiro com o
conflito.



 



Ninguém podia imaginar que em pouco
tempo a convivência harmoniosa entre cristãos, judeus e mulçumanos estava
prestes a ser rompida. A tragédia maior só veio, porém, 20 anos depois, quando
o país foi tomado pela Alemanha nazista de Hitler e a perseguição aos judeus
custou em vidas um quinto da população da cidade - traumas que a aterrorizaram
e dividiram. Nessa época, o país foi arrastado para o fascismo pelo ditador
Ioánnis Metaxás. Depois da guerra contra os turcos, encerrada em 1949, se seguiu
a carnificina da guerra civil entre anticomunistas e o Exército Nacional de
Libertação Popular (Elas). O país só chegou a algum progresso econômico a
partir da década de 1980.



 



A narrativa de Victoria pode ser
descrita como um romance épico, com elementos de um clássico no sentido
convencional - ou seja, é composto de grandes personagens, dramaticidade
intensa, epopeia de privação e superação, tragédia etc. Tudo contado com refinamento
literário de primeira linha. Uma história sobre os mais importantes
acontecimentos do século XX, a partir do ponto de vista da Grécia, estruturada
com a ambição de ser um romance inesquecível e revelar a grandiosidade de seu
povo para o resto do mundo.



 



Isso pode ser sintetizado assim:
"Sinto as pessoas ao meu redor. Não só as que, como você, estão no
presente. Mas outras também", diz um cego ao jovem Mitsos, enquanto este o
ajuda a atravessar a rua. "Aqui é lotado de passado, infestado de gente, e
é gente tão real quanto você. Vejo todo mundo com a mesma clareza. Será que
isso faz sentido?" Sim, claro que faz. É o que responde o interlocutor.



 



"O Fio"



 



Victoria Hislop. Trad.: Adalgisa
Campos da Silva. Intrínseca, 368 págs., R$ 29,90 AA+



 



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