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Crianças proibidas de ver
01/04/2013

 



21 de março de 2013 | 2h 05







Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo

Muito
otimistas, os seres humanos associam a palavra novo à palavra melhor. Gostamos
de descrever as mudanças na nossa vida como "o progresso da
humanidade".

Mas o novo não é sempre melhor. A redescoberta dessa
afirmação óbvia é uma das novidades deste início de século e tem aumentado nosso
interesse pelo modo de vida nas sociedades ditas primitivas. Você segue a dieta
do caçador ou é vegetariano? Que tal corrermos descalços? Educar em casa ou na
escola? E o colchão, não deveria ser mais duro?

Nosso passado é longo. Os
ancestrais do Homo sapiens surgiram 1 milhão de anos atrás. Durante os primeiros
800 mil anos viveram coletando o alimento de cada dia, todo dia, o dia todo.
Vagavam pelas estepes e florestas africanas, fugindo dos predadores. Nós, os
Homo sapiens, surgimos faz aproximadamente 200 mil anos e somos descendentes dos
indivíduos que sobreviveram a esta intensa seleção natural que durou 800 mil
anos.

Nestes últimos 200 mil anos, ainda passamos 185 mil deles vivendo
em pequenos grupos, coletando raízes, caçando, pescando, nos espalhando por
diversos continentes. Os nossos antepassados que sobreviveram a esse tipo de
vida descobriram a agricultura e domesticaram os animais faz 15 mil anos. Neste
período, passamos 10 mil anos em pequenas vilas. Faz talvez 5 mil anos que nos
organizamos em cidades maiores e somente há 200 anos ocorreu a Revolução
Industrial.

Nesta história de 1 milhão de anos, o passado recente não é a
Revolução Francesa ou a locomotiva a vapor, como insistem os currículos
escolares. O ontem é o fim da Idade da Pedra, a organização social de tribos
nômades e o modo de vida dos primeiros agricultores. O carro e a internet
surgiram faz alguns segundos.

O novo livro de Jared Diamond, The World
Until Yesterday (O Mundo Até Ontem, em tradução livre), é sobre esse ontem e
sobre o que ele pode nos ensinar. São 500 páginas de observações fascinantes.
Aqui vai um aperitivo para aguçar seu apetite.

Nas sociedades
tradicionais, as crianças, antes de aprenderem a andar, são carregadas pelas
mães. Em todas as culturas tradicionais, logo que a criança consegue firmar o
pescoço, ela é transportada na posição vertical. Pode ser nas costas ou na
frente da mãe, seja com o auxílio dos braços ou utilizando dobras das roupas ou
artefatos construídos para esse fim.

Nessa posição, o campo visual da
criança é aproximadamente o mesmo da mãe. Ela olha para a frente e pode observar
todo o ambiente em sua volta praticamente do mesmo ângulo e da mesma altura da
mãe. O horizonte, as árvores, os animais e seus movimentos são observados pela
criança da mesma maneira que a mãe observa seu ambiente. Quando um pássaro canta
e a mãe vira a cabeça para observar, a criança também tem uma chance de associar
o canto do pássaro à sua plumagem. A criança observa o trabalho de coleta de
alimento da mãe, como ela prepara a comida, o que a assusta, o que provoca o
riso ou a tristeza na mãe. Carregar uma criança na posição vertical faz parte do
processo de educação.

Isso era ontem. E como é hoje? Inventamos o
carrinho de bebê. As crianças menores são transportadas deitadas de costas,
olhando para o céu (ou para a face da mãe). A criança não compartilha a
experiência visual da mãe, não consegue associar as expressões faciais da mãe a
objetos e sentimentos. Os sons ouvidos pela criança dificilmente podem ser
associados a experiências visuais, atividades ou sentimentos. Deitadas, as
crianças modernas só observam o teto (dentro de edifícios) ou o céu (ao ar
livre).

Como o céu é claro e incomoda a vista, muitos desses carrinhos
possuem uma coberturas de pano, o que restringe ainda mais o campo de visão e
empobrece a experiência visual da criança. Não é de espantar que um bebê, cujos
ancestrais foram selecionados para aprender a observar o meio ambiente desde o
início de sua vida, fique entediado. Mas para isso temos uma solução moderna:
uma chupeta que simula o bico do seio da mãe. Hoje, carregar uma criança é
considerado um estorvo, mas nossa nova solução distancia fisicamente a criança
da mãe e não permite que elas compartilhem experiências sensoriais. Transportar
uma criança deixou de fazer parte do processo educacional.

Hoje sabemos
que o desenvolvimento do córtex visual, a parte do cérebro que processa imagens,
não termina durante a vida fetal, mas continua após o nascimento e depende do
estímulo visual constante para amadurecer. Os carrinhos de bebê de hoje são mais
novos, mas será que são melhores?

É incrível, mas hoje, numa época em que
educar para o futuro é o lema de toda escola, numa época em que tentamos
alfabetizar as crianças cada vez mais cedo, abandonamos o hábito milenar de
permitir que as crianças olhem para a frente e compartilhem as experiências
vividas por suas mães.

* Fernando
Reinach é biólogo.


MAIS
INFORMAÇÕES: JARED DIAMOND, "THE WORLD UNTIL YESTERDAY. WHAT CAN WE LEARN FROM
TRADITIONAL SOCIETIES". VIKING 2012
 
Fonte: Estadao.com.br