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Em livro, historiadora esmiúça a intimidade solitária de Stálin
29/04/2013

 

Foto de Josef Stálin durante onde retrata a juventude do ditador que ficou no poder da extinta União Soviética de 1928 a 1953

 


28/04/2013-02h01

IRINEU FRANCO PERPETUO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Um dos ditadores mais sanguinários do século 20 era um homem simples e solitário, amigo da leitura e avesso ao luxo --e paranoico o suficiente para submeter membros de sua própria família a expurgos com os quais aterrorizou o maior país do mundo ao longo de três décadas.

Um retrato complexo e contraditório, não destituído de toques de simpatia, é o que emerge em "A Vida Privada de Stálin", que a sovietóloga francesa de origem romena Lilly Marcou, 77, publicou em 1996, e que está saindo agora no Brasil, pela Zahar.

Em entrevista à Folha, por telefone, de Paris, ela conta que foi ensinada pelo pai a reverenciar os russos. Não custa lembrar que, na Segunda Guerra Mundial, a Romênia era aliada da Alemanha nazista contra a URSS.

"Ele me dizia que os russos iam nos libertar", conta. "Depois, na Romênia comunista, fui educada no culto a Stálin, e cheguei até a lhe escrever uma carta, aos 12 anos."

Radicada na França há mais de 30 anos e doutora em história pela Universidade de Paris 4 - Sorbonne, Marcou tem vários livros publicados sobre a URSS.

Para fuçar a vida privada do sucessor de Lênin, ela visitou a Rússia no começo dos anos 1990. Teve acesso a arquivos até então fechados e entrevistou parentes do ditador, cujos depoimentos são um diferencial do livro.

"Tive sorte. Eles não confiam muito em ocidentais, mas acho que confiaram em mim pela origem romena e por causa da idade", conta Marcou, que agora está envolvida num projeto para transformar o livro em documentário para a TV francesa.

Ela esquadrinha a vida doméstica de Stálin, seus dois casamentos, os casos amorosos, a relação conturbada com os filhos e os expurgos que atingiram até membros de seu círculo familiar.

Enquanto não poupa o Stálin do círculo privado, Marcou parece simpatizar com sua faceta pública.

Justifica o pacto com Hitler, relativiza os horrores da coletivização forçada, absolve-o do assassinato de Kírov, demonstra antipatia para com Trótski e Khruschov e louva avanços industriais obtidos pela URSS em seu tempo.

Ela nega, porém, que seu intento seja reabilitar o ditador. "Um trotskista chegou a escrever isso. Mas meu livro não tem nada de reabilitação. Todos os crimes de Stálin estão lá. Só que não com aquelas cifras de milhões de vítimas, que são um exagero."

Embora defenda que a cidade de Volgogrado volte a ter o nome que a celebrizou na Segunda Guerra --Stalingrado--, Marcou nega vínculos ideológicos com o ditador.

"Eu nem sou comunista", afirma. "O que busco é a verdade --pelo menos, a verdade como ela apareceu para mim em depoimentos e documentos a que tive acesso", diz, equiparando Stálin a déspotas russos do passado, como Ivan, o Terrível, e Pedro, o Grande.

A VIDA PRIVADA DE STÁLIN
AUTORA Lilly Marcou
EDITORA Zahar
TRADUÇÃO André Telles
QUANTO R$ 54,90 (248 págs.)