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Biblioteca Pública Digital da América, uma nova Alexandria
02/05/2013

 

A biblioteca reunirá documentos de museus, universidades e outras instituições americanas. É mais um passo rumo à universalização do acesso ao conhecimento

 



CULTURA DIGITAL - 02/05/2013 07h00 - Atualizado em 02/05/2013 10h32


AMANDA POLATO


 

PRÓXIMA PÁGINA  Ilustração com um livro de papel e um leitor digital. A conversão de obras ao novo formato é o maior desafio para a criação de uma biblioteca universal (Foto: Yagi Studio/Getty Images)

 

Reunir todo o conhecimento já produzido pelo ser humano, em placas de argila, papiros ou bits, é uma das ambições mais nobres e difíceis da história da humanidade. Dos idealizadores da Biblioteca de Alexandria, no século III a.C., aos tecnófilos do Vale do Silício, passando pelos iluministas do século XVIII e por políticos de todas as eras, muitos já se dedicaram a esse sonho. Com os esforços de grandes instituições para converter seus arquivos ao formato digital, surgiram novas tentativas de concretizá-lo. A recém-inaugurada Biblioteca Pública Digital da América é a mais recente delas – e uma das mais ambiciosas.




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Pôsteres da Segunda Guerra Mundial, a Declaração da Independência escrita à mão por Thomas Jefferson e poesias originais de Emily Dickinson são alguns dos destaques do acervo de 2,4 milhões de itens, disponíveis gratuitamente para internautas de todo o mundo no site www.dp.la. Não é preciso fazer nenhum cadastro para acessar o conteúdo. A base de dados reúne arquivos digitalizados de museus, bibliotecas e outras instituições dos Estados Unidos. A expectativa é que essa coleção aumente muito nos próximos meses, à medida que outras bibliotecas do país se juntem à nova Biblioteca Pública Digital da América e que as antigas continuem a digitalizar seus acervos.


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A página surge como uma reação ao Google Book Search, um ambicioso projeto do Google para digitalizar todos os livros do mundo. Até agora, 30 milhões de obras saíram de prateleiras e foram para o acervo digital. Apenas obras de domínio público ou sem restrições legais podem ser lidas na íntegra. É possível acessar apenas alguns trechos de obras protegidas por direitos autorais. Por oferecer aos leitores a possibilidade de comprar as obras, e definir o preço com seus parceiros comerciais, o Google foi alvo de críticas. As motivações comerciais também fizeram com que outras instituições impedissem o uso de seus dados pelo Google. Para evitar essa armadilha, os idealizadores da Biblioteca Pública Digital da América afirmam que o conhecimento deve ser gratuito para todos e defendem a superioridade técnica do projeto. “Teremos melhores descrições e materiais que não aparecem numa busca no Google. Será uma experiência muito superior”, diz Dan Cohen, diretor executivo da Biblioteca Pública Digital da América.


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a mensagem 778 biblioteca (Foto: reprodução/Revista ÉPOCA)

O projeto foi criado sob a liderança da Universidade Harvard, sem a ajuda do governo americano. Embora alguns técnicos da Biblioteca do Congresso tenham participado, o financiamento coube a fundações sem fins lucrativos, como Soros, Knight e Sloan, além do Instituto de Museus e Bibliotecas, uma agência independente. “Nos Estados Unidos, estamos céticos quanto à habilidade do governo de fazer qualquer coisa. Este é um período de desconfiança e desilusão”, disse a ÉPOCA Robert Darnton, diretor da biblioteca de Harvard e um dos idealizadores da Biblioteca Pública Digital da América. “Mas temos a força das fundações privadas voltadas ao bem comum.”

O maior desafio não foi financiar a biblioteca, e sim superar as barreiras legais para digitalizar os acervos. Problemas semelhantes foram enfrentados pelo Google, quando a empreitada de digitalizar milhões de livros foi limitada após decisões judiciais favoráveis a escritores. Em diversos países, a Justiça entendeu que o projeto não tinha respaldo legal. Com o trabalho de professores de Direito e especialistas, a Biblioteca Pública Digital da América pretende evitar os erros cometidos pelo Google. Até 2014, seus organizadores querem firmar uma aliança com autores de livros fora de circulação, para fazer com que suas obras ressurjam na internet. “A vida comercial de um livro é muito limitada”, diz Darnton.

A inspiração para o projeto veio da Europeana, uma biblioteca digital europeia criada em 2008, que atualmente agrega 20 milhões de itens de 20 mil organizações da União Europeia. Com o estabelecimento da Biblioteca Pública Digital da América, baseada nos mesmos padrões tecnológicos, os organizadores das duas bibliotecas já sonham com a fusão das coleções para criar um grande acervo mundial. “No futuro próximo, imagino que teremos um sistema de biblioteca transatlântico. Reuniremos recursos de toda a Europa e dos Estados Unidos para torná-los disponíveis a todo o mundo”, afirma Darnton. “Também espero a participação da América Central e da América do Sul. Desejo que um dia as bibliotecas públicas do Brasil também façam parte disso.”

No Brasil, há poucos acervos digitais. Esforços públicos e privados têm sido somados para mudar isso. Uma das iniciativas foi a formação, em 2011, da Rede Memorial. Ela reúne bibliotecas, museus, arquivos e outros institutos para discutir o acesso aberto ao conhecimento, padrões de tecnologias de digitalização e formas de obter investimentos. Uma das principais articuladoras é a recém-inaugurada Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP), que desenvolveu um sistema para implantação e gerenciamento de bibliotecas digitais. “Esperamos que, nos próximos dois anos, o país tenha um volume considerável de materiais digitalizados para criar um site semelhante ao da Europea­na”, afirma Pedro Puntoni, diretor da Brasiliana USP. A biblioteca tem mais de 3 mil títulos digitalizados. A meta é fazer isso com a maior parte do acervo de 32 mil títulos, dentro dos limites legais. Formar uma aliança com escritores e seus herdeiros, seguindo o exemplo da Biblioteca Pública Digital da América, pode ser uma maneira de contornar essas barreiras. “Tanto pela lei americana quanto pela brasileira, que seguem os mesmos princípios internacionais, o autor decide sobre o uso de sua obra, a não ser que haja restrições no contrato com a editora”, afirma José Carlos Costa Netto, presidente da Associação Brasileira de Direito Autoral. Respeitar o direito dos autores é uma forma de acelerar a contribuição do país para a grande biblioteca mundial.


Dos papiros aos bits (Foto: Alex Wong/Getty Images, Stringer/Getty Images, Herbert Felton/ Getty, Images, Ralph Orlowski/Getty Images, Shutterstock e reprodução)