Notícias

Crítica: Livro "O Zero e o Infinito" compõe retrato agudo do totalitarismo
17/06/2013

 

15/06/2013 - 03h43



JOÃO PEREIRA COUTINHO
COLUNISTA DA FOLHA


O escritor russo Alexander Soljenítsin (1918-2008) escreveu um dia que os piores vilões de Shakespeare já não metiam medo aos homens do século 20. Motivo?

A consciência, claro. Nas peças do bardo, eles podem conspirar, atraiçoar, matar. Mas a consciência acaba sempre por ajustar contas com eles no final.


Exatamente como ajustou contas com Raskólnikov, o personagem central de "Crime e Castigo", de Dostoiévski, que não aguenta dois cadáveres a boiar na consciência e se entrega às autoridades do czar. Raskólnikov é talvez o último vilão clássico a sentir ainda "o céu sobre ele e a lei moral dentro dele".












Pinn Hans/Reprodução/Wikimedia Commons
O autor húngaro Arthur Koestler
O autor húngaro Arthur Koestler


Depois de Raskólnikov, a ideologia substituiu a consciência. E quem tem uma ideologia pode conspirar, atraiçoar e matar à vontade. Nada é pessoal. É tudo em nome do partido, ou da história, ou da raça.


O século 20 é a prova dessa miséria moral: de como os homens deixaram de sentir "as compungidas visitas da natureza" que tanto assustavam Lady Macbeth enquanto matavam milhões em nome de um ideal.


Mas o que acontece a um desses ideólogos quando, confrontado com as ruínas tangíveis da sua ideologia, ele volta a sentir o peso da própria consciência?


Eis a perdição de Nicolas Rubashov, o prisioneiro de "O Zero e o Infinito". Sim, ele começou por acreditar na revolução e foi um dos mais importantes dirigentes bolcheviques. Até o dia em que deixou de usar a primeira pessoa do plural --"nós, o partido"; "nós, o Estado"; "nós, o povo"-- e começou a escutar a primeira pessoa do singular: o solitário e insubornável "eu".


O primeiro grande crime de Rubashov é, literalmente, um crime gramatical. Mas é mais do que isso: é um crime religioso. Rubashov deixou de ter "fé" na sua "religião secular". E, como diria o filósofo, para quem provou o fruto da árvore do conhecimento, o paraíso está perdido.


PURGAS SOVIÉTICAS


"O Zero e o Infinito" é a obra-prima do húngaro Arthur Koestler (1905-1983). Críticos vários afirmam que o livro, ao denunciar as purgas soviéticas na década de 1930, serviu para que Koestler se despedisse do comunismo da sua juventude, desiludido com as aberrações de Stálin.


Talvez. Mas isso não é uma fraqueza. Pelo contrário, é a principal virtude do livro: publicado em 1940, quando muitos "idiotas úteis" ainda desculpavam o indesculpável, Koestler analisava os dois lados do comunismo com conhecimento de causa. O lado dos que deixaram de acreditar, como Rubashov. E o lado dos que ainda acreditavam (como o inquisidor Ivanov e, sobretudo, o sinistro Gletkin).


Comecei com Raskólnikov, o vilão de Dostoiévski. Termino com ele. Porque Raskólnikov é citado como exemplo por um dos inquisidores de "O Zero e o Infinito".


Para mostrar ao herético Rubashov como a consciência só atrapalha. "A consciência se alimenta do cérebro como um câncer", afirma gelidamente Ivanov, "até que toda a matéria cinzenta seja devorada". Não conheço melhor retrato sobre a mentalidade totalitária.


O ZERO E O INFINITO
AUTOR Arthur Koestler
EDITORA Amarilys
TRADUÇÃO André Pereira da Costa
QUANTO R$ 38 (304 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo


Folha de São Paulo - http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/06/1295218-critica-livro-o-zero-e-o-infinito-compoe-retrato-agudo-do-totalitarismo.shtml