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‘O Brasil não é conhecido por sua literatura no resto do mundo’
19/06/2013

 

17.junho.2013 | 1:00


Fundadora da Flip, a inglesa Liz Calder levará um pouco do País para sua terra natal. Além de escritores, também música, capoeira e culinária farão parte da FlipSide, em outubro.



Liz Calder (Foto: Fabio Motta/Estadão)


Liz Calder tem uma nova missão: fazer com que os ingleses se interessem pela literatura brasileira. Idealizadora da Flip, esta elegante senhora acha que chegou a hora de o mundo olhar para a nossa produção literária e não apenas para “outras coisas pelas quais o Brasil é conhecido”. Para tanto, formulou a FlipSide, que reunirá, em outubro, representantes brasileiros da escrita e da música em Snape Maltings, na Inglaterra. A versão pocket da Flip contará com homenagem a Vinicius de Moraes e Tom Jobim.
Liz sabe que tem um grande desafio pela frente. “Este será o primeiro festival de literatura dedicado a um país fora do Reino Unido, com cultura e idioma diferentes”, destacou, em entrevista por telefone à coluna.
Entre os convidados a participar do evento estão Ana Maria Machado, Adriana Lisboa, José Miguel Wisnik e Bernardo Carvalho – cujo romance Nove Noites ela acaba de ler. “Achei a narrativa muito intrigante, misteriosa e maravilhosa”, analisa. Indagada sobre seu escritor brasileiro favorito, Liz não titubeia: “Machado de Assis”.
A história de admiração pelo Brasil é de longa data. Desde os anos 60, ela cultiva particular paixão pela atmosfera tropical, à qual atribui as bem-sucedidas experiências dos escritores que participam da Flip: “Neste ano, convidamos, entre muitos, um norueguês. E tenho certeza que irá se divertir muito – afinal, ele vem do hemisfério norte, que é cheio de neve”, diz.
Fundadora da Bloomsbury, editora que lançou sucessos como Harry Potter, afirma que a crise das livrarias inglesas não a assusta: “Sempre haverá mercado para livros impressos. Não creio que eles desaparecerão. São muito fortes e difíceis de se reproduzir a sensação, entende? A experiência é diferente”, destaca.
A seguir, os principais trechos da conversa.


Este ano haverá a primeira Flip na Inglaterra. Como a senhora chegou a essa ideia?
Liz Calder: Não foi imediatamente. Aqui em nossa editora fazemos muitos eventos, como oficinas e leituras. Então, pensamos: por que não tentar fazer isso com literatura brasileira? Por causa dos interesses no relacionamento entre o Reino Unido e o Brasil, devido aos Jogos Olímpicos, pareceu um momento propício para continuarmos a tentar espalhar as grandes riquezas da cultura brasileira. O Brasil não é conhecido por sua literatura no resto do mundo, mas por outras coisas.


Como o futebol?
Liz Calder: Exatamente. E sabemos que há muito mais do que futebol acontecendo no País. Dessa forma, temos muita sorte de morar perto de um lugar maravilhoso, com um auditório muito bom e locais e instalações incríveis que abrigarão a FlipSide.


A ideia é levar escritores brasileiros e fazer uma homenagem a Vinicius de Moraes, certo?
Liz Calder: Sim. Queremos músicos também. A Flip sempre teve uma relação forte com a música. Queríamos a mesma coisa. Então, teremos um tributo a Vinicius de Moraes e Tom Jobim, com José Miguel Wisnik. Estou muito empolgada, mesmo sabendo que é um grande desafio. É algo bem incomum no Reino Unido. Temos, como você sabe, realmente muitos festivais de literatura. Mas este será o primeiro dedicado a um país de fora do Reino Unido, com cultura e idioma diferentes. É inédito. Por isso, também teremos comida brasileira, capoeira…


Muitas livrarias estão sendo fechadas na Inglaterra. Esse fenômeno está afetando as editoras? A senhora planeja publicar no formato para tablets? Como vê a questão dos livros digitais?
Liz Calder: A publicação que fazemos é completamente não-digital. Nós nos especializamos em papel de alta qualidade, em design qualificado e em produção. Provavelmente, não trabalharemos com o formato digital, mas, pelo que sei, as pessoas continuarão a ler no papel. Se elas leem em tablets, isso é bom também. Acho que sempre haverá mercado para livros impressos. Não creio que eles desaparecerão. Os livros impressos são muito fortes e é difícil de se replicar essa sensação, entende?


Quais as expectativas da senhora para a Flip deste ano?
Liz Calder: Estou muito feliz. Há escritores que nunca encontrei, mas, como já li, anseio por encontrá-los. Como Alejandra Ramon e Lydia Davis. E alguns dos meus velhos amigos, como Tobias Wolff e Geoff Dyer.


No ano passado, a Flip cresceu, e os organizadores disseram que não pode ser maior. A senhora concorda com isso?
Liz Calder: Seria um desastre tornar a Flip grande, a ponto de perder o encanto. O Hay-on-Wye Festival, que inspirou a Flip e tantos outros festivais, tornou-se tão grande que se mudou da cidade pequena e não é mais o que era. Claro que tem sucesso, mas não é mais o mesmo, e eu não gostaria que isso acontecesse à Flip de maneira alguma.


E tem Paraty…
Liz Calder: Claro. A cidade é essencial. As pessoas se encontram nas ruas, nos bares, nos restaurantes e, depois, vão ver os mesmos shows e os mesmos eventos. E isso acaba criando um ar de intimidade, o que é muito importante para nós.


Uma das críticas à Flip é a escolha dos mediadores. Qual a dificuldade de encontrar alguém que possa conduzir a conversa com humor e, ao mesmo tempo, com curiosidade?
Liz Calder: Sim, houve críticas. Entretanto, acho que isso melhorou atualmente. Existem, agora, mediadores fantásticos, como Angel Gurría. Foi um problema, mas está melhor agora. O pior é quando o mediador fala demais. O público não está lá para ouvir o mediador. Mediar é uma arte. E, como você diz, é preciso um pouco de humor e flexibilidade.


Este ano a programação está menos política. Por quê?
Liz Calder: Algumas pessoas disseram que esta edição é a mais séria de todas. Não entendo muito bem o que querem dizer com isso. Na verdade, acho que a Flip é particularmente popular. E fico satisfeita de conseguirmos manter a qualidade sem nunca precisar recorrer à participação de celebridades. No Reino Unido, nós temos muito disso.


Explique melhor.
Liz Calder: São políticos, astros pop, atores ou atrizes que escreveram livros e começam a ir aos festivais de literatura. Não acho que isso aconteça de forma alguma na Flip. É uma festa muito mais intelectual e séria, sem ser pesada por causa disso – não é acadêmica. Desde a primeira edição, o público é bem atento e receptivo. São interessados, o que, novamente, nem sempre acontece aqui no Reino Unido.


Na sua opinião, quais foram os melhores momentos nesses anos de Flip?
Liz Calder: Houve muitos (risos). O encontro de Nadine Gordimer e Amós Oz foi muito especial. Uma das coisas que achei mais maravilhosas foi Colm Tóibín durante a palestra sobre James Joyce. Fantástico. E David Grossman, que sempre que aparece faz com que as coisas mais incríveis aconteçam. Ele é um homem incrível. E, para finalizar, claro, devo dizer que a participação de Chico Buarque foi inesquecível.


A maioria dos escritores que participam da Flip afirma ter uma experiência positiva. O que a senhora acha que faz do festival tão especial?
Liz Calder: Eles são todos muito bem cuidados. A organização da festa é impecável. Os escritores têm a oportunidade de conhecer um lugar maravilhoso, podem passear em barcos, ir à praia, comer bem, encontrar outros autores. Quer dizer, o que não apreciar?


É uma experiência que explora muito o apelo tropical.
Liz Calder: Exatamente. Paraty é exótica para um visitante do hemisfério norte. Este ano, haverá um norueguês. E tenho certeza que ele irá se divertir muito – afinal, vem lá de cima, onde é cheio de neve.


Que livro a senhora está lendo neste momento?
Liz Calder: Terminei Nove Noites, romance de Bernardo Carvalho. Devia ter lido há muito tempo, porque foi lançado no Reino Unido em 2007, mas só li agora. Adorei. Achei a narrativa intrigante, misteriosa e maravilhosa. Li porque ele virá para cá. Mas já li Nelson Rodrigues, Patrícia Melo e Chico Buarque.


A senhora tem um escritor brasileiro favorito? Só por curiosidade.
Liz Calder: Machado de Assis.


MARILIA NEUSTEIN


Estado de São Paulo - http://blogs.estadao.com.br/sonia-racy/o-brasil-nao-e-conhecido-por-sua-literatura-no-resto-do-mundo/