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Proposta busca evitar distorção no Enade
05/03/2012

 

Plano que cria porcentual mínimo de participação no exame será sugerido ao Inep

 

SERGIO POMPEU, ESTADÃO. EDU - O Estado de S.Paulo


A denúncia de que a Universidade Paulista (Unip) seleciona alunos para melhorar sua nota no Exame Nacional de Desempenho dos Estudante (Enade) abriu um debate entre especialistas do ensino superior sobre meios de impedir distorções na avaliação, termômetro da qualidade dos cursos universitários.



Uma proposta que será levada este mês ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) é a de criar um porcentual mínimo de participação no exame.


Nesse caso, as universidades seriam obrigadas a inscrever no Enade o equivalente a 70% ou 80% do número de alunos formados no ano anterior. "Quem não fizesse isso não teria as notas divulgadas ou sofreria um redutor na pontuação", disse o autor da proposta, que pediu para não ser identificado até encaminhar a sugestão formalmente ao Inep.


A medida visa a evitar variações bruscas no volume de inscritos causadas, por exemplo, por uma política de aumentar a reprovação de alunos na véspera do exame. O Estado mostrou ontem que em cinco cursos de saúde da Unip a queda do número de formandos em 2010, ano do Enade, variou de 45% a 62%. A universidade admitiu que tem "apertado" a avaliação no ano que antecede o Enade, mas afirmou que isso é parte de um programa abrangente de melhoria da qualidade dos seus cursos.


Calibragem. Apesar de reconhecer méritos na medida que será proposta ao Inep, um ex-dirigente do Ministério da Educação acha difícil calibrar a porcentagem que será exigida das universidades. "Acho 80% alto demais. Você tem situações de evasão alta, até nas universidades públicas", disse. "E o redutor na nota é ruim, arbitrário. Prefiro a não divulgação das notas."


O ex-dirigente do MEC acha necessário separar as coisas na denúncia feita sobre a Unip. Para ele é preciso analisar se houve fraude ou gaming, termo derivado de game, jogo em inglês. No gaming, a universidade procura meios de melhorar seu desempenho "jogando" de acordo com as regras. Medidas como dar prêmios a estudantes que se saem bem no Enade são exemplo típico de gaming.


Segundo o especialista, aumentar a reprovação para melhorar a nota no Enade pode ser eticamente condenável. Especialmente se isso só ocorre na época do exame, aplicado em cada área a intervalos de três anos, e os controles são relaxados depois. Mas ainda não caracteriza fraude. "Outra coisa é formar alunos não inscritos no Enade. Isso é fraude e, se comprovada, a instituição precisa ser punida."


Para o autor da proposta, o órgão precisa agir rápido. "Teremos Enade no segundo semestre e a agressividade do marketing da Unip sobre suas notas pode ter estimulado outras universidades a adotarem modelos parecidos. Se nada mudar, haverá cada vez mais distorção."