Notícias

23 de outubro – Dia do Aviador
23/10/2013

 

Em 23 de outubro, comemora­se o Dia do Aviador, instituído pela Lei 218, de 4 de julho de 1936, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Getúlio Vargas, em homenagem ao voo do 14­Bis realizado por Santos­Dumont no Campo de Bagatelle, na França, em 1906.

Alberto Santos­Dumont nasceu no lugar denominado Cabangu, no distrito de João Aires, município de Palmira, hoje Santos­Dumont, em Minas Gerais, em 20 de julho de 1873, por coincidência data natalícia de seu pai, Henrique Dumont, que era descendente de franceses, mineiro de Diamantina, e engenheiro formado pela Escola Central de Artes e Manufaturas de Paris (hoje Faculdade de Engenharia). Sua mãe, Francisca de Paula Santos, tinha origem portuguesa. Seus antecedentes chegaram ao Brasil com D. João, em 1808. Alberto foi o sexto filho de oito irmãos: Henrique, Maria Rosalina, Virgínia, Luís, Gabriela, Sofia e Francisca. Curiosamente, suas três irmãs mais velhas casaram com três irmãos da família Villares.

Quando Alberto nasceu, seu pai era responsável pela construção de um trecho da Estrada de Ferro D. Pedro 2º (posteriormente Central do Brasil), que ligaria a então capital do Império, Rio de Janeiro, a Minas Gerais. Em 1874, a família se mudou de Cabangu, para a cidade de Valença, no Estado do Rio de Janeiro, adquirindo a Fazenda do Casal, junto à estação ferroviária de mesmo nome. Foi nesse lugar que Santos­Dumont começou a demonstrar seu interesse em trabalhos aeronáuticos que tanto destaque lhe trariam, pois, conforme declarações dos seus pais, com apenas um ano de idade ele costumava furar balõezinhos de borracha para ver o que tinham dentro e nas festas juninas surpreendia a todos quando fazia pequenos balões voarem apenas colocando­os sobre a fogueira.

E foi em Valença que ocorreu o batismo de Santos­Dumont, na Matriz de Santa Teresa, em 20 de fevereiro de 1877, pelo padre Teodoro Teotônio da Silva Carolina.

Gosto pela aventura e queda pela mecânica

Em 1879, a família Dumont vendeu a Fazenda do Casal e se estabeleceu no Sítio do Cascavel, em Ribeirão Preto, São Paulo, onde comprou a Fazenda Arindeúva, de José Bento Junqueira, de 1.200 alqueires. A propriedade, que logo ganhou o nome de Fazenda Dumont, em poucos anos se transformaria no maior estabelecimento agrícola do Brasil, com mais de cinco milhões de pés de cafés. Santos­Dumont lembraria com saudosismo os tempos passados na fazenda paterna, onde desfrutava da mais ampla liberdade:

“Vivi ali uma vida livre, indispensável para formar o temperamento e o gosto pela aventura. Desde a infância eu tinha uma grande queda por coisas mecânicas e, como todos os que possuem ou pensam possuir uma vocação, eu cultivava a minha com cuidado e paixão. Eu sempre brincava de imaginar e construir pequenos engenhos mecânicos, que me distraíam e me valiam grande consideração na família. Minha maior alegria era me ocupar das instalações mecânicas de meu pai. Esse era o meu departamento, o que me deixava muito orgulhoso.”

Com apenas 12 anos de idade, Santos­Dumont se divertia como maquinista das locomotivas Baldwin pelos 60 quilômetros da estrada de ferro na fazenda de seu pai, transportando vagões carregados de café. Se esse trabalho era capaz de cansar um homem com o triplo da sua idade, para ele a velocidade em terra não lhe bastava. Sua paixão era a mecânica, gostava de ver o funcionamento das máquinas da usina, e ajudava a repará­las quando apresentavam defeito.

Concluiu a instrução elementar em sua própria casa e posteriormente freqüentou ­ de 1883 a 1885 ­ o colégio Culto à Ciência, em Campinas­SP, e depois foi aluno do Instituto Kopke e do Colégio Morton, ambos na capital de São Paulo. Após realizar o curso preparatório, chegou a matricular­se na Escola de Minas de Ouro Preto, mas acabou não cursando, bem como o de Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, para o qual chegou a fazer os exames de ingresso.

Ao ler as obras do famoso escritor francês Júlio Verne, autor de ”Cinco semanas em um balão”, “Da terra à Lua”, “Vinte mil léguas submarinas” e “A volta ao mundo em 80 dias”, nasceu em Santos­Dumont o desejo de conquistar o ar. Os balões, os submarinos, os transatlânticos e todos os outros meios de transporte que o grande romancista previu com tanta felicidade exerceram uma profunda impressão na mente do jovem. Anos depois, já adulto, ele ainda lembrava com emoção as aventuras vividas em imaginação:

“Com o Capitão Nemo e seus convidados explorei as profundidades do oceano, nesse precursor do submarino, o Nautilus. Com Fileas Fogg fiz em oitenta dias a volta ao mundo. Na Ilha a hélice e na Casa a vapor, minha credulidade de menino saudou com entusiástico acolhimento o triunfo definitivo do automobilismo, que nessa ocasião não tinha ainda nome. Com Heitor Servadoc naveguei pelo espaço.”

A tecnologia o fascinava, e começou a construir pipas e pequenos aeroplanos movidos por uma hélice acionada por molas de borracha torcida. E todos os anos, no dia 24 de junho, ele enchia frotas inteiras de diminutos balões de seda sobre as fogueiras de São João, para assistir em êxtase a sua ascensão aos céus.

Pelos livros do astrônomo francês Camille Flammarion e do jornalista e aeronauta Wilfrid de Fonvielle conheceu a história da navegação aérea. Em suas leituras tomou conhecimento de que foi na França que o balão a hidrogênio havia sido inventado, que os primeiros voos haviam sido efetuados e que as maiores aeronaves haviam sido construídas. Sentiu­se atraído por esse país de grandeza e progresso.

Quando, em 1888, visitava com seus pais uma exposição na capital paulista, ficou fascinado ao ver pela primeira vez subir um balão de ar quente com um solitário tripulante. Essa imagem jamais sairia de sua mente.

No inicio de 1891, com 17 anos, depois de seu pai ter vendido a fazenda por motivo de saúde, parte com sua família para uma viagem à Europa. Henrique havia sofrido um acidente com uma charrete em sua fazenda, e foi acometido com uma grave hemiplegia (um tipo de paralisia cerebral que atinge um dos lados do corpo, deixando­o paralisado e muito debilitado), resolveu tratar­se no velho continente. Na França, o jovem ficou maravilhado por Paris. Nessa viagem viu pela primeira vez, no Palácio das Indústrias, na capital francesa, um motor movido a petróleo funcionando. Após sete meses os Dumont retornaram ao país. Dentre os bens trazidos na viagem por Alberto estava um Peugeot, comprado na capital francesa, sendo um dos primeiros automóveis a chegar ao Brasil.

Doente, seu pai resolveu distribuir dois terços de sua fortuna entre seus filhos, e emancipar o jovem Alberto através de um documento público passado em um tabelião de São Paulo, incentivando­o a permanecer em uma longa estada na “cidade luz”. Em maio de 1892, a família realizou uma nova viagem a Europa, seus pais ficaram em Portugal e Alberto, com a grande quantia em dinheiro dada por seu pai, seguiu para Paris, onde passou a residir. No período de 1892 a 1896, com o conceituado professor Garcia, um francês de origem espanhola, fez seus estudos técnico­científicos em física, química, eletricidade e mecânica, matéria a que se dedicaria com grande interesse.

Seu pai, com a saúde seriamente comprometida, resolveu, em companhia de sua mãe, voltar em agosto de 1892 ao Brasil, mas apenas uma semana depois de sua chegada ao Rio de Janeiro Henrique Dumont morreu, aos 60 anos de idade. No mês de novembro, Alberto, abalado com a perda do pai, regressou ao Brasil para uma curta permanência, de apenas dois meses e meio.

Em 1893, visitou a Inglaterra pela primeira vez, e no ano seguinte retornou a esse país, passando alguns meses. Nesse período, matriculou­se como aluno ouvinte na Universidade de Bristol e aperfeiçoou o seu inglês. Retornando à França, escalou o Monte Branco. Essa aventura, a quase 5.000 metros de altitude, acostumou­o a alturas elevadas. No mesmo ano viajou para os Estados Unidos, visitando Nova York, Chicago e Boston.

“Meu primeiro balão”

Voltando à França, inicialmente ingressou no automobilismo, participando de diversos eventos, inclusive das primeiras corridas de triciclos­automóveis no velódromo de Parc des Princes, e até acompanhou uma parte da corrida de carros entre Paris e Amsterdã. Dedicou­se ao conhecimento dos motores, tendo adquirido em 1897 um automóvel Panhard. Após experimentar o prazer de uma ascensão, em Paris, em 23 de março de 1898, decidiu mandar construir um balão esférico, no qual foi utilizada pela primeira vez seda japonesa, tão pequeno que cabia em uma maleta. Esse projeto foi confiado à firma Lachambre & Machuron já contendo modificações resultantes de uma série de observações práticas que fizera. Assim nasceu o que descreveu como sendo “o meu primeiro balão, o menor, o mais lindo, o único que teve um nome: Brasil”.

Como a empresa francesa se ocupasse também de ascensões públicas para atrativos de festas e comemorações, entrou em acordo com esta para tomar parte nas subidas, a fim de adquirir prática no manejo de balões. De tamanho diminuto ­ tinha apenas 1,52 m de altura ­, esteve praticando o balonismo na França e na Bélgica, por mais de 20 vezes antes de receber o seu Brasil, que foi posto em voo, com sucesso, no dia 4 de julho de 1898, desmentindo as previsões de pessimistas. Suas experiências foram fatores inegáveis para a fundação do Aeroclube da França.

Ainda em 1897, ­ já independente e herdeiro de imensa fortuna ­ com apenas 24 anos, Santos­Dumont, depois de uma permanência no Brasil, partiu para a França, onde contratou aeronautas profissionais que lhe ensinaram a arte da pilotagem dos balões. De 1898 a 1909, planejou, construiu e experimentou mais de duas dezenas de invenções entre balões­livres, balões­dirigíveis e aviões biplanos e monoplanos. Simultaneamente ao balonismo, começou experiências de dirigibilidade. Ansiava por poder controlar o voo, e para isso desenhou uma série de balões alongados dotados de lemes e motores a gasolina. Dos nove balões por ele criados no fim do século 19, dois se tornaram famosos: o Brasil e o Amérique. O primeiro foi a menor das aeronaves até então construídas – inflado a hidrogênio, cubava apenas 118 metros –, e com o segundo obteve em 13 de junho de 1899 o quarto lugar num torneio aéreo, a Taça dos Aeronautas, destinada ao balonista que pousasse mais distante do ponto de partida, após 325 quilômetros percorridos em 22 horas de voo.

Não se conformando em navegar aos caprichos das correntes de ar, voltou­se para a dirigibilidade, ideia classificada de fantástica pelos aeronautas da época. Fechando os ouvidos às criticas e opiniões daqueles que divergiam dele e, após o insucesso sofrido, 48 horas antes, conseguiu em 20 de setembro de 1898 a dirigibilidade no seu nº 1, equipado com um motor de sua fabricação, com dois cilindros opostos, pesando 30 quilos e que tinha uma potência de 3,5 cavalos. Após o balão Brasil, resolveu numerar suas invenções ao invés de nomeá­las. No ano de 1900 inaugurou um hangar em Saint Cloud, para guardar os seus balões, idealizado por ele, sendo o primeiro no mundo.

Seguiram­se então os de números 2, 3, 4 e 5. Não foi sem sustos e com vários acidentes que os voos em seus balões e aeronaves foram realizados. Entre eles o de nº 5, que um defeito fez o motor parar e Alberto ficou à mercê do vento, e acabou caindo nos castanheiros do parque de propriedade de Edmond de Rothschild, ficando preso na barquinha do balão. Perto do local morava a princesa Isabel, a condessa d´Eu, que, sabedora do ocorrido, enviou um almoço enquanto seu conterrâneo tentava desvencilhar sua aeronave das árvores, e pelo portador também convidou Santos­Dumont para visitá­la em seu castelo, que posteriormente o fez. Dias mais tarde recebeu da princesa uma carta com uma medalha de São Bento, para protegê­lo de acidentes. Ainda em 1901, outro susto: após seu dirigível ter contornado a Torre Eiffel e estar se dirigindo para o local do pouso em Saint­Cloud, a mola de uma das válvulas automáticas enfraquecera e o balão perdeu hidrogênio e após perder altura acabou se chocando contra o Hotel Trocadero, sendo socorrido pelos bombeiros, após permanecer dependurado na barquinha de sua aeronave.

Com o nº 6, no dia 19 de outubro de 1901, ganhou o prêmio de 100 mil francos instituído por Deutsch de La Meurthe para ser entregue pelo Aeroclube da França ao piloto do primeiro balão dirigível que, partindo do Parque Saint­Cloud, contornasse a Torre Eiffel, e, fazendo um circuito fechado, sem tocar em terra, voltasse ao ponto de partida no tempo máximo de 30 minutos. Ganhador do prêmio, resolveu dividi­lo entre seus mecânicos e auxiliares, e a maior parte entregou ao chefe de Polícia de Paris, para que mandasse retirar do penhor qualquer ferramenta e a restituísse aos seus donos. Pediu ainda que, havendo saldo, fosse entregue a pessoas necessitadas a critério daquela autoridade. Por esse feito o governo da França concedeu­lhe a mais alta condecoração da República francesa, a Legião de Honra, mas por não ser francês declinou nessa ocasião a honraria, que foi­lhe concedida quatro anos depois.

Sabotagem

Partiu em abril de 1902 para os Estados Unidos, onde pretendia realizar suas experiências aeronáuticas. Nessa viagem visitou outro grande gênio mundial, o inventor Thomas Alva Edson, em seus laboratórios em West Orange, no Estado de Nova York, e em Washington foirecebido na Casa Branca pelo presidente Theodore Roosevelt. Seguiu para Saint Louis, onde foi examinar o local da futura Exposição Internacional Comemorativa do Centenário da Compra da Louisiana. Retornando à Europa, esteve novamente na Inglaterra, onde logo após sua chegada foi constatado que seu balão nº 6 havia sido maldosamente rasgado. Desistindo de fazer suas exibições em território britânico, regressou a Paris. Não foi essa a única vez que seria vítima de sabotagem.

No dia 22 de junho de 1902, receberia a triste noticia da morte de sua mãe, que, sofrendo de depressão, cometeu suicídio na cidade do Porto, em Portugal, aos 67 anos, quando residia na casa de uma de suas filhas. Seus restos mortais seriam transladados pelo próprio inventor em 1923 e colocados ao lado dos de seu pai, no Cemitério de São João Baptista no Rio de Janeiro.

Prosseguindo em suas experiências, surgiram outras criações que tiveram os números 7, 9, 10, 11, 12, 13 e 14. Em 5 de julho de 1903, quando retornava de um voo no balão dirigível nº 9, houve um princípio de incêndio no motor, Santos­Dumont conseguiu apagá­lo com seu chapéu; após o susto, quando pousou uma foto foi batida, e a imagem do inventor com seu chapéu amassado acabou virando moda e uma marca registrada do inventor. Em 7 de setembro do mesmo ano, regressou ao Brasil, onde foi muito homenageado pelas autoridades brasileiras, tendo ido ao Palácio do Catete cumprimentar o presidente da República, Rodrigues Alves, e visitado dois dias depois a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, e os ministros das Relações Exteriores, da Fazenda, da Marinha e da Guerra. Em São Paulo esteve com o presidente do Estado (hoje governador) Bernardino de Campos na sede do governo.

Leia na edição de amanhã a continuação da biografia de Alberto Santos­Dumont.

Antônio Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador. É diretor do Departamento de Documentação e Informação da ALESP.

DOE, Legislativo, 22/10/2013