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Ideias, interesses e as mudanças inevitáveis
12/03/2012

 

Williams: historiadores não podem deixar que “os verdadeiros interesses” continuem numa “névoa de confusão”

 








As ideias políticas e morais de uma época devem ser examinadas na relação mais próxima possível com a atualidade econômica de então. Aquilo de que se fala mal ou bem, se ataca ou se defende, é sempre alguma coisa que se pode ver, tocar, medir em quilos, metros, dólares, libras esterlinas. Para aquele momento, essa simbiose de ideias e interesses materiais pode ser compreensível. Mas o embaralhamento deverá ser desfeito. Mesmo que seja cem anos depois. Será essa, escreveu Eric Eustace Williams, a responsabilidade dos historiadores, que, como ele próprio, não terão desculpas para continuar a envolver "os verdadeiros interesses numa névoa de confusão [porque] mesmo os grandes movimentos de massa mostram uma curiosa afinidade com o surgimento e o desenvolvimento de novos interesses e a necessidade de destruição dos antigos". Williams tomou a escravidão e o movimento abolicionista, dos maiores entre aqueles processos de mudança, para desanuviar aspectos fundamentais da história do capitalismo. Sua análise está no livro de 1944, agora reeditado pela Companhia das Letras.

Aquela "névoa de confusão" é desfeita, em "Capitalismo e Escravidão", segundo um itinerário de "estudo econômico do papel da escravidão negra e do tráfico negreiro como fornecedores do capital que financiou a Revolução Industrial na Inglaterra, e do papel do capitalismo industrial maduro na destruição do sistema escravista", nas palavras do autor. Embora trate especificamente da Inglaterra, e assim talvez devesse estar especificado no título, Williams preferiu generalizar, porque "o que foi característico do capitalismo britânico também foi típico do capitalismo na França".


Em qualquer lugar do mundo, "os homens, ao buscar seus interesses, raramente têm consciência dos resultados finais de suas ações. O capitalismo mercantil do século XVII desenvolveu a riqueza da Europa por meio da escravidão e do monopólio. Mas, com isso, ajudou a criar o capitalismo industrial do século XIX, que destruiu a força motriz do capitalismo mercantil, a escravidão e todo seu funcionamento".


Williams também observa, nas páginas finais do livro, que ideias construídas pela influência de um setor econômico ultrapassado "perduram por muito tempo após a destruição de tais interesses e continuam a causar seus velhos danos, que são ainda mais danosos porque os interesses a que correspondiam não existem mais". E cita os exemplos da suposta inadequação do branco ao trabalho nos trópicos, assim como a da inferioridade do negro, que o condenava à escravidão. "Temos de nos precaver não só contra esses velhos preconceitos, mas também contra os novos, que são criados constantemente. Nenhuma época está isenta deles." Fica aí convalidada a relevância de saber a história para compreender e viver o presente.


Williams, nascido na colônia britânica de Trinidad e Tobago, tinha 33 anos, em 1944, quando publicou seu livro. Lecionava ciências sociais e política em Howard, universidade fundada em Washington logo depois do fim da Guerra Civil, para servir à educação de afrodescendentes recém-saídos da escravidão. Seu corpo docente era na maior parte formado por professores negros. Williams havia chegado lá em 1939, um ano após obter seu doutorado pela Universidade de Oxford com uma tese intitulada "The Economic Aspect f the Abolition of West Indian Slave Trade and Slavery".


"'Capitalismo e Escravidão' batia de frente com o 'establishment' de Oxford e, por extensão, com toda a ideologia imperial britânica", diz no prefácio o historiador e professor da Universidade de São Paulo Rafael de Bivar Marquese. "O estilo irônico e a organização esquemática, não necessariamente cronológica, dos capítulos do livro demonstravam que Williams abandonara os padrões de uma tese acadêmica em busca de uma forma que atingisse diretamente os leitores caribenhos, auxiliando-os a fundar politicamente o nacionalismo. Atacar a interpretação humanitarista da abolição consagrada pelos atores do século XIX significava atacar as justificativas ideológicas do imperialismo britânico na conjuntura crítica da Segunda Guerra Mundial."


Em meados dos anos 1950, Williams, afastado da vida acadêmica, dedicava-se por inteiro ao movimento pela emancipação de Trinidad e Tobago, do qual se tornaria o principal líder e primeiro-ministro do país independente.


A primeira edição em inglês de "Capitalismo e Escravidão", diz também Marquese, foi contemporânea ao aparecimento de uma obra canônica para a compreensão do passado brasileiro: apenas dois anos antes da publicação do livro de Williams, aparecia aqui "Formação do Brasil Contemporâneo", de Caio Prado Jr. "Não obstante suas diferenças, ambos os livros apresentavam vários pontos em comum: a importância conferida às economias das regiões tropicais do Novo Mundo para a formação do capitalismo europeu, o peso decisivo da escravidão negra nelas, os impactos negativos da herança colonial escravista para as formações nacionais no Caribe e na América Latina".


Marquese menciona a recepção positiva que a obra de Williams encontrou nas ciências sociais brasileiras a partir de fins da década de 1950, impacto que se prolongou por duas décadas. "'Capitalismo e Escravidão' foi relevante tanto para Celso Furtado, como para o grupo de sociólogos da USP associados a Florestan Fernandes e Roger Bastide, que dele se utilizaram para reavaliar e criticar teses consagradas sobre a democracia racial brasileira.


Segundo Marquese, "a atualidade do livro de Williams decorre em grande parte da qualidade das questões que ele apresentou, muito pertinentes a um mundo marcado pelo crescente avanço da degradação do trabalho, da natureza e da financeirização do capital. 'Capitalismo e Escravidão', não obstante estar datado em certos aspectos, permanece como uma obra capaz de suscitar novas e surpreendentes leituras - e, assim, de nos ajudar a compreender melhor o nosso passado escravista." É a permanência de um clássico.


"Capitalismo e Escravidão"


Eric Williams. Tradução de Denise Bottmann. Companhia das Letras 373 páginas, R$ 45,00