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Bienal de Montevidéu conecta arte e campo
15/03/2012

 



O artista britânico Darren Almond, finalista do prêmio Turner em 2005, é um dos nomes confirmados para a primeira edição da Bienal de Montevidéu






A 30ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, programada para setembro, ainda é uma dúvida, mas a 2.055 km da capital paulista a 1ª Bienal de Montevidéu, prevista para acontecer entre 15 de outubro e 30 de novembro, é uma realidade que vem sendo construída com discrição.


Apesar de a lista oficial de artistas selecionados ter divulgação prevista somente para o final do mês, o Valor apurou que Darren Almond - multifacetado artista inglês que concorreu ao prestigiado prêmio Turner em 2005 - fará parte do evento. Ao todo serão mais de 50 nomes estrangeiros e uruguaios, que apresentarão suas obras em três pavilhões da Rural del Prado, centenário espaço de eventos e exposições, especialmente agrários, localizado em um bairro residencial de Montevidéu.


O trabalho de seleção continua. Representada pela paulistana galeria Vermelho, a portuguesa Gabriela Albergaria está entre os artistas sondados para fazer parte da mostra. Entre os uruguaios, alguns dos que foram convidados a enviar projetos à curadoria - ainda sem resposta sobre se farão parte da lista final ou não - são Pablo Uribe, Tamara Cubas, Yamandú Canosa, Marco Maggi, Javier Abreu e o coletivo alonso+craciun, além do mexicano Jorge Satorre e do francês Céleste Boursier-Mougenot.


A Bienal de Montevidéu também vai contar com a participação de realizadores de outras áreas, como as artes cênicas, que se apresentarão em circuitos paralelos ao evento, espalhados por diferentes regiões da cidade e sediados no Museu Nacional de Artes Visuais, o Centro de Exposições Subte, o Museu de Arte Pré-Colombiano e Indígena, o Museu Nacional de Arte Decorativa e o Espaço de Arte Contemporânea - além de galerias, do aeroporto internacional de Carrasco e das ruas da capital, todos cenários programados para receber intervenções culturais.


A convergência de datas da Bienal de Montevidéu com o evento de São Paulo não é coincidência: a exposição uruguaia foi planejada para ser uma "extensão" do tradicional evento paulistano, diz o artista Gustavo Tabares, um dos idealizadores da mostra e diretor artístico da Bienal. Tabares também é um dos criadores do Marte Upmarket, espaço expositivo de arte contemporânea na Ciudad Vieja de Montevidéu.


"Queríamos que ela acontecesse na mesma época (da Bienal de SP) para que as pessoas que viessem da Europa e dos Estados Unidos também pudessem vir até o Uruguai - e que assim se formasse um circuito na região. Que venham também dar uma olhada no que acontece por aqui", diz Tabares, de 43 anos, que morou durante dois anos em Porto Alegre. "A Bienal de Montevidéu é algo que vem para somar, não vem para fazer concorrência nem para ocupar o lugar de São Paulo. É algo impossível, dada sua trajetória e tradição. A Bienal de São Paulo [cuja primeira edição aconteceu em 1951] está totalmente estabelecida."


Fruto de uma ideia que nasceu há dois anos, ao projeto de Tabares e Jorge Srur - colecionador argentino radicado no Uruguai, dono de uma das mais populares redes de lojas especializadas na venda de artigos domésticos e de vestuário orientais do país - se uniu o alemão Alfons Hug, bem conhecido no Brasil por, entre outros projetos, ter sido curador de duas edições da Bienal de São Paulo, do Pavilhão Latino-Americano da Bienal de Veneza no ano passado e por ser o diretor do Instituto Goethe do Rio. Com Hug estão trabalhando Paz Guevara, curadora chilena radicada em Berlim, e a artista uruguaia Patricia Bentancur, curadora e diretora no Centro Cultural Espanha de Montevidéu.


Em princípio estimada em US$ 4 milhões, a Bienal de Montevidéu será realizada com os US$ 2 milhões captados entre um banco, uma empresa telefônica e uma petroleira, arregimentados graças ao trabalho da Fundação Laetitia D'Arenberg - encabeçada pela empresária francesa, presidente honorária da Fundação Bienal de Montevidéu e detentora de distintos negócios de êxito no país.


A primeira Bienal de Montevidéu tem como eixo o "Grande Sul", nas palavras de Alfons Hug, e sua relação com o resto do mundo. O ponto cardeal não é visto apenas como referência cartográfica senão como paradigma a partir do qual se desenvolvem visões, realidades e imaginários próprios.


"De acordo com a procedência dos artistas - do hemisfério Sul ou Norte, do Oriente ou do Ocidente -, as obras oferecerão diversas leituras do Sul. Algumas se orientarão por categorias geográficas, como as grandiosas paisagens do Sul, ao passo que outras incorporarão os aspectos políticos e sociais. Algumas explorarão o Sul como território real, outras, como alegoria e projeção metafórica", afirma Hug.


O fato de a exposição acontecer em um espaço eminentemente agropecuário não escapa às intenções do curador, para quem a proposta de refletir sobre a relação entre a arte e o campo é um nicho pouco explorado e que faltava ser contemplado pela criação contemporânea.


"Para a arte, que comumente trabalha com fenômenos urbanos, esse ambiente pouco comum é um belo desafio. E é justamente essa vizinhança pouco comum o que confere um selo inconfundível e atração à Bienal de Montevidéu. Porque, para a arte contemporânea, não existe nem lugar nem tema impossíveis. E, se no circuito das bienais ainda faltava um contexto, era justamente o da agricultura, que deve ser levado em conta no conceito curatorial", completa Hug.