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Em busca de uma nova vida
15/01/2014

 

Conheci o paraíso e o inferno das drogas. Usei cocaína, maconha e crack. Tive diversas mulheres, amei demais, mas ‘queimei’ literalmente casas, carros, casamentos, tudo pelo vício. Espero sair daqui limpo e viver perto de meu filho”. A confissão é de João Antonio(*), 65 anos, usuário de drogas há 30. Ex-morador da cracolândia, ele é um dos beneficiários do Programa Recomeço – Programa Estadual de Enfrentamento ao Crack, que atua com o trabalho integrado entre o Poder Judiciário e o Executivo, com ações coordenadas das secretarias estaduais da Saúde, da Justiça e Defesa da Cidadania e do Desenvolvimento Social, para facilitar o acesso ao tratamento médico. Quando necessário, essas pessoas são internadas em centros de referência.

A iniciativa do Governo estadual propõe resgatar os dependentes de drogas, principalmente do crack. Oferece proteção e acompanhamento multiprofissional ao dependente químico e seus familiares. Ela propõe nova maneira de acolher esse público, incentivando a procura espontânea por ajuda e, principalmente, apresentando aos mais resistentes a oportunidade de um recomeço, de uma vida nova.
Acolhimento – Mário Sérgio Sobrinho, coordenador de Políticas Sobre Drogas, da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, explica que o plantão jurídico instalado no Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod) procura intermediar os casos de internação involuntária e compulsória, quando o dependente químico é levado ao serviço por parentes ou por grupos de resgate como o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

O Plantão Jurídico do Cratod funciona de segunda a sexta-feira, das 9 às 13 horas. Oferece advogados, promotores, defensores, juiz e uma equipe técnica que dá apoio ao juiz.
“As famílias acreditam que todos os casos são para internação, mas os médicos e assistentes sociais têm a capacidade de avaliar a real necessidade de internação do paciente”, diz Sobrinho.
A equipe assistencial faz o primeiro contato e procura constituir vínculo com o dependente. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) espalhados por todo o Estado estão preparados para receber e tratar os dependentes químicos e contam com médicos especialistas, profissionais de enfermagem e assistentes sociais, que avaliam cada caso e indicam a melhor forma de tratamento.
Grande parte dos usuários que procuram o Cratod ou que são encaminhados ao serviço é composta por homems com idade entre 25 e 40 anos, de baixa escolaridade e são poliusuários (álcool, crack, maconha, cocaína, etc.). O 2º Levantamento Nacional de Famílias de Dependentes Químicos (2º Lenad) revela que a maioria dos pacientes em tratamento é poliusuária (73%). Mais da metade consome maconha (68%) em combinação com outras substâncias. Quase metade (42%) dos pacientes em tratamento relatou usar crack regulamente. O tempo médio de uso de substâncias foi de 13 anos.
No entanto, as mulheres já estão entrando para o ranking das estatísticas. André Luís(*), 38 anos, trouxe a ex-mulher, de 35, para tratamento. Durante bom tempo, o casal foi usuário de maconha e cocaína. Ele conseguiu largar as drogas, ela abandonou o lar e, com o novo companheiro, passou a usar crack. “Vamos interná-la porque ela já tentou o suicídio duas vezes. Estou esperançoso que a situação possa ser controlada,” desabafa o ex-marido.

Responsabilidade – De acordo com Ronaldo Laranjeiras, coordenador do Programa Recomeço, “há a necessidade, também, da reciclagem por parte dos profissionais de saúde para o conhecimento das novas drogas e seus efeitos sobre o organismo.”
Odilon Castro, coordenador do Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (Cieds), vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Social, afirma que as famílias devem passar por acompanhamento psicossocial. “Elas acreditam que a internação é uma solução mágica. E que daqui a alguns meses a situação estará normalizada, mas a realidade não é essa”, salienta.

O levantamento do Lenad apontou, ainda, que as mulheres (80%) sofrem mais com o impacto negativo causado pela dependência de álcool ou de substâncias ilícitas. As mães (66%) também são chefes de família que têm a sobrecarga de cuidar do filho dependente e também são responsáveis pelos cuidados do lar.

Dona Ana(*), 53 anos, levou a filha Vitória(*), de 27, ao Cratod para tentar uma internação. “Ela estava há três dias fora de casa. Trabalho como diarista e ainda tomo conta da minha neta, de 3 anos, fruto de um relacionamento rápido de Vitória(*) com um usuário de drogas”.

No Espaço de Acolhida e Vínculos Familiares, localizado na Rua Francisca Miquelina, 118, Bela Vista, o atendimento às famílias dos dependentes químicos é realizado por psicólogas e assistentes sociais. “Acreditamos que oferecer cuidados a essas famílias repercute e influencia positivamente no tratamento e no acompanhamento dos usuários de drogas”. Em funcionamento desde abril de 2013, o espaço tem como meta de atendimento média de 500 famílias por mês. “Hoje, 260 famílias utilizam o serviço”, diz Odilon.

Os profissionais também realizam plantão de acolhimento, fazem visitas domiciliares às comunidades terapêuticas. “Além disso, telefonamos aos familiares e enviamos cartas convidando-os para vir aqui e dar continuidade ao tratamento”.
Benefícios – Os pacientes que precisam de benefícios sociais são diretamente encaminhados aos serviços especializados. Os que precisarem de atendimento médico passam por atendimento ambulatorial e, se necessário, iniciam o processo terapêutico.

Enquanto mergulha no tratamento, João Antonio(*) espera pela sua aposentadoria. “Conversei com as assistentes sociais e elas estão verificando no INSS quando poderei receber o benefício, já que trabalhei anos com registro em carteira”.

Gleuda Apolinário, coordenadora do Programa Recomeço, explica que o Cartão Recomeço é uma ação coordenada pela Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania e operacionalizada em conjunto com as secretaria de Desenvolvimento Social e da Saúde. “O cartão é para o custeio das despesas de acolhimento voluntário do usuário de substâncias psicoativas em entidades de acolhimento social no valor de R$ 1.350 mensal, com duração de até 180 dias.

As entidades serão credenciadas pela Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania por meio de edital de chamamento, e após terem suas vagas autorizadas irão atender aos beneficiários avaliados e encaminhados pelo serviço de saúde mental do município.

(*) Nomes fictícios

Maria Lúcia Zanelli
Imprensa Oficial – Conteúdo Editorial

DOE, Executivo I, 15/01/2014, p. IV