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São Paulo - 460 anos
21/01/2014

 

Antônio Sérgio Ribeiro*

A divisão das terras do além-mar, pelo Tratado de Tordesilhas, assinado em 7/6/1494, pelos reis de Portugal, D. João 2º, e o da Espanha, D. Fernando 2º de Aragão, prova que a existência do continente americano já era de conhecimento dos navegadores daquela época. Mesmo o Brasil não foi descoberto em 1500, sabendo-se, portanto, de sua existência anos antes dessa data.

O tratado definia como linha de demarcação o meridiano de 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão, no arquipélago de Cabo Verde, localizado no oceano Atlântico, nas costas da África. Os territórios a leste deste meridiano pertenceriam a Portugal e os territórios a oeste, à Espanha.

A Coroa portuguesa não teve nenhuma pressa efetivamente em demarcar as suas novas terras do outro lado do Atlântico. Somente 30 anos depois, com chegada de uma esquadra exploradora sob o comando de Martim Afonso de Souza, teve inÍcio a colonização territorial, com a fundação, no dia 22/1/1832, do primeiro povoamento no Brasil, São Vicente, em São Paulo. Apesar da controvérsia com Cananeia, que na opinião de alguns historiadores teria sido criada antes, também por Martim Afonso. Mas não se tem dúvida que das 15 primeiras povoações criadas no Brasil sete foram em São Paulo, incluindo a primeira situada no interior do território, então fora do litoral.

Para melhor administrar suas terras de além-mar, o rei de Portugal D. João 3º resolveu dividir em 15 capitanias hereditárias, entre 1534 e 1536, e doá-las para fidalgos de sua confiança. Assim teve início efetivamente a conquista territorial. Em 1549, foi determinada a vinda de um governador geral, diretamente subordinado ao rei; finalmente o Brasil começa a ser povoado de modo mais sistemático. Nessa esquadra sob o comando de Tomé de Souza, vieram os primeiros jesuítas, chefiados pelo padre Manoel de Nóbrega, como missionários para catequizar os indígenas e trazer a palavra da Igreja Católica para os portugueses residentes na colônia.

A Companhia de Jesus, uma congregação religiosa, mais conhecida como jesuítas, foi fundada por um grupo de estudantes na Universidade de Paris em 1534, liderados pelo basco Inácio de Loyola, como ficou conhecido posteriormente, sendo essa entidade reconhecida por uma bula papal de 1540. Os jesuítas ficaram notórios principalmente por seu trabalho missionário e educacional, e o seu maior representante na atualidade é o papa Francisco.

Foi o padre Manoel da Nóbrega, o único e verdadeiro fundador da cidade de São Paulo, sendo o responsável pela criação da Aldeia de Piratininga, que segundo pesquisas se deu em 29/8/1553 e pela instalação do Colégio dos Jesuítas, que ocorreu somente em 25/1/1554. Sua determinação conseguiu preservar a povoação e torná-la vila, com a instalação da Câmara Municipal e do Pelourinho em 1560. Sem dúvida nenhuma, foi o primeiro bandeirante em terras brasileiras, homem de visão, com sua coragem ajudou a desbravar e colonizar o interior brasileiro. Estabeleceu os primeiros colégios, ajudando a ensinar não só os filhos dos portugueses como também os curumins a ler e escreve; além de ser o grande defensor dos indígenas. Por diversas vezes solicitou diretamente aos reis de Portugal que ajudassem o Brasil, pois sempre acreditou no futuro dessa grande nação.

Em homenagem aos 460 anos de fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga, que marcou o início da grande metrópole de São Paulo, apresentamos a biografia dos participantes desse fato histórico, e ao final da série, um pouco da história da cidade.

João Ramalho

Nasceu em Vouzela, distrito de Viseu, em Portugal, entre 1485 e 1493 e faleceu em São Paulo, por volta de 1580.

Segundo suas palavras, teria chegado ao Brasil aproximadamente em 1512, não se sabendo se foi um náufrago ou um degredado. Porém, alguns estudiosos acreditam que poderia fazer parte das expedições de João Dias Solis ou de Fernando de Magalhães.

Foi o primeiro europeu a subir a serra, então chamada de Paranapiacaba (lugar de onde se vê o mar) , em direção ao planalto, onde estabeleceu contato com os índios guaianases, sendo aceito pelo cacique dessa tribo, Tibiriçá, que, simpatizando com ele, oferece sua filha M´Bicy (Flor de Árvore), também conhecida por Bartira ou Portira, como esposa, presumivelmente em 1515, com quem teve inúmeros filhos.

Em 1532, sabedor da chegada de uma expedição estrangeira ao litoral, e de que os indígenas poderiam hostilizá-la, resolveu ir, juntamente com outro habitante português, Antonio Rodrigues, morador em Tumiaru (perto de Bertioga), casado com uma filha de Piquerobi (irmão de Tibiriçá), ao encontro dos recém- chegados, para assegurar o desembarque em paz e amizade.

A surpresa de serem recebidos por dois homens brancos foi enorme para os recém-chegados, que estavam sob o comando de Martim Afonso de Souza, mandado pelo rei de Portugal, D. João 3º, para averiguar as terras do sul, até os limites fixados pelo Tratado de Tordesilhas.

João Ramalho foi um grande colaborador de Martim Afonso, tendo auxiliado na fundação da Vila de São Vicente no dia 22/1/1532. Sua relação com o cacique Tibiriçá facilitou bastante o relacionamento entre colonos e indígenas. De porte agigantado, era respeitado por todos. Sobre ele escreveu Tomé de Souza ao rei de Portugal D. João 3°: “tinha tantos filhos, netos e bisnetos que não ouso dizer a Vossa Alteza, ele tem mais de 70 anos, mas caminha nove léguas (a légua portuguesa equivalia a cinco quilômetros) antes de jantar e não tem um só fio branco na cabeça nem no rosto”. Sua prole foi numerosa, contando com inúmeros filhos legítimos e bastardos; talvez desse fato provenha a designação de “povoador”. Apesar de sua vida de polígamo, era religioso. Todos os seus filhos, legítimos ou não, foram batizados.

Em conversa com o padre Manoel da Nóbrega, afirmou que fora casado em Portugal com Catarina Fernandes das Vacas, a quem jamais tornou a ver e que desconhecia se ainda vivia. Por esse motivo, em 1550 foi excomungado pelo jesuíta Simão de Lucena, por viver “amancebado” com Bartira. Nóbrega escreveu ao reino para saber da existência de Catarina e posteriormente efetuou o casamento de João Ramalho com Bartira, após uma vida em comum de 40 anos, já com o nome de Izabel Dias, depois de convertida à religião católica.

João Ramalho acompanhou Martim Afonso de Souza ao planalto de Piratininga, recebendo uma sesmaria, em 1534, na qual fundou a povoação de Santo André da Borda do Campo (hoje São Bernardo do Campo), elevada a vila em 8/4/1553, pelo governador-geral Tomé de Sousa, sendo nomeado seu alcaide e guarda-mor do campo e, mais tarde, capitão (1/7/1553). Foi também vereador (1553 e 1558). Às suas custas fortificou a vila, com trincheira e quatro baluartes. Apesar de sua dedicação a Santo André, esta estava em franca decadência, e não chegava a contar com 30 moradores brancos. Assim, em 1560 não teve como evitar a ordem de Mem de Sá, novo governador-geral do Brasil, de transferir todos os moradores para São Paulo, e o Pelourinho para defronte do Colégio de São Paulo e, por consequência, extinguir Santo André.

Contrariado, foi obrigado a vir morar em São Paulo, onde serviu como vereador de 1562 a 1566. Ainda em 1562 foi nomeado pela Câmara Municipal e povo de São Paulo para o cargo de Capitão da Gente, a fim de combater os índios carijós, no Vale do Paraíba, que tinham feito cerco e atacado a vila em 9/7/1562. Nesse combate, a vila foi salva por ele e por Tibiriçá. Em 1564, recusou-se a ser mais uma vez vereador, por contar com mais de 70 anos, mas em 1576 seu nome constava em ata da Câmara paulistana.

Já velho e cansado, foi viver no Vale do Paraíba entre os tupiniquins. Morreu por volta de 1580 em São Paulo, onde deixou diversos descendentes legítimos e ilegítimos. Era avô de quase toda a população nascida na Vila de São Paulo de Piratininga, sendo considerado o principal tronco das famílias paulistas. Tem uma rua com seu nome no bairro paulistano das Perdizes, e em 14 cidades da grande São Paulo.

Bartira

Filha do cacique Tibiriçá. M´bicy (Flor de Árvore), também conhecida por Bartira ou Potira. Casou-se com João Ramalho, presumivelmente em 1515, com quem viveu por mais de 40 anos. Seu nome foi mudado para Izabel Dias, depois de batizada na religião católica pelos jesuítas, no planalto de Piratininga. Tiveram nove filhos, e dessa união descendem inúmeras das mais tradicionais famílias paulistas. Também é nome de rua no bairro das Perdizes, e em diversas cidades da região metropolitana da capital.

Tibiriçá

Nasceu na Aldeia dos Piratiningas (hoje cidade de Santo André) e faleceu em São Paulo em 15-12-1562.

Teberyça, na língua tupi é Maioral ou Vigilância da Terra. Cacique da tribo dos índios guaianases, era irmão dos caciques Caiubi, Piquerobi e Araraí. Convertido ao catolicismo e batizado pelo padre Leonardo Nunes, com a colaboração do irmão José de Anchieta, adotou o nome de Martim Afonso Tibiriçá, em homenagem ao fundador da Vila de São Vicente, de quem era dedicado amigo. Era o chefe de enorme parte da nação indígena estabelecida nos campos de Piratininga, com sede na aldeia de Inhapuambuçu, então localizada em uma colina entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, no atual centro antigo da capital paulista. Sua filha M´bicy, também conhecida como Bartira, casou-se com João Ramalho.

Tibiriçá colaborou na fundação da Aldeia de Piratininga, em 29/8/1553, e com o Colégio dos Jesuítas, em 25/1/1554, estabelecendo-se no local onde se ergue hoje o Mosteiro de São Bento. Participou eficazmente da defesa da vila, que, em 9/7/1562, foi atacada pelos índios tupis, guaianás e carijós, chefiados por seu sobrinho Jagoanharo, filho de Araraí, que havia, pouco antes, como emissário dos tamoios, conversado para que reconsiderasse sua posição a favor dos portugueses e se aliasse aos seus irmãos indígenas. Tibiriçá, no confessionário, contou o fato a Anchieta, e este levou a informação aos chefes portugueses. No combate que se seguiu, matou o sobrinho com uma espada, quando este vacilou em matá-lo no entrevero. Faleceu a 25/12/1562, depois de longa enfermidade que se complicou após o ataque a São Paulo. Seu corpo foi sepultado na igreja dos jesuítas e o funeral revestido de toda a pompa compatível com os recursos daquela época.

Em carta escrita em 16/4/1563, o irmão José de Anchieta assim se expressou: “Foi enterrado em nossa igreja com muita honra, acompanhando-o todos os cristãos portugueses com a cera de sua confraria. Ficou toda a capitania com grande sentimento de sua morte pela falta que sentem, porque este era o que sustentava todos os outros, conhecendo-se-lhes muito obrigados pelo trabalho que tomou de defender a terra, mais que todos creio que lhe devemos nós os da companhia e por isso determinou dar-lhe em conta não só de benfeitor, mas ainda de fundador e conservador da Casa de Piratininga e de nossas vidas. Fez testamento e faleceu com grandes sinais de piedade e de fé, recomendando a sua mulher e filhos que não deixassem de honrar sempre a verdadeira religião que abraçaram”.

Seus restos mortais repousam hoje na cripta da Catedral Metropolitana de São Paulo, na praça da Sé. Em sua homenagem, a rodovia estadual SP-031, ligando Ribeirão Pires a Suzano, foi denominada Índio Tibiriçá, além de ter seu nome em duas ruas da capital, uma na Luz e ao outra no Brooklin Paulista.

Affonso Braz

Nascido em Anadia, Portugal, em 1524, e faleceu no Brasil, em 1610.

Padre Jesuíta. Como membro da Companhia de Jesus pregava nas vilas e aldeias da região do Minho e Douro, em Portugal, no ano de 1547. Foi enviado pelo próprio padre Inácio de Loyola para coadjuvar os padres que estavam no Brasil. Chegou no ano de 1550 chefiando a missão religiosa vinda na armada do fidalgo português Simão da Gama de Andrade. Em 1551, foi servir no Espírito Santo, juntamente com o irmão Simão Gonçalves, onde não havia nenhum evangelizador, sendo bem recebido pelos indígenas, que ajudaram a edificar casa e igreja, sendo o primeiro superior da Casa dos Jesuítas na vila de Vitória. Esteve em Porto Seguro em 1552, retornando logo ao Espírito Santo. Foi transferido pelo padre Manoel de Nóbrega para São Vicente em 1553, acompanhando o padre Leonardo Nunes, que voltava da Bahia com um grupo de religiosos, entre eles José de Anchieta, ficando no seu lugar, em terras capixabas, o irmão Braz Lourenço. Tomou parte na fundação do Colégio São Paulo de Piratininga em 25/1/1554, onde dirigiu a construção de igreja e da casa dos padres, trabalhando como pedreiro e carpinteiro, ofícios que exerceu, também, em São Vicente. Com o provincial Inácio de Tolosa, seguiu em 1573 para o Rio de Janeiro, onde foi encarregado das obras do novo colégio, “por ser um grande carpinteiro”. A cidade que ajudou a fundar o homenageou com uma rua com o seu nome no bairro da Vila Nova Conceição.

José de Anchieta

Nascido em Tenerife no Arquipélago das Canárias (Espanha) em 19/3/1534, e falecido em 9/6/1597, em Reritiba (hoje município de Anchieta), Espírito Santo.

Irmão e depois padre jesuíta, José de Anchieta ingressou na Companhia de Jesus em 1/5/1551. Depois de um grave acidente, quando uma pesada escada caiu sobre suas costas, afetando sua coluna e deformando-o permanentemente, foi aconselhado a viajar para o Brasil, tendo embarcado em 8/5/1553, juntamente com mais seis missionários, chefiado pelo padre Luiz da Grã, na frota que transportava o novo governador-geral D. Duarte da Costa. Chegou a Bahia em 13 de julho e lá pouco se demorou, seguindo, com outros, para São Vicente, onde desembarcou as vésperas do Natal. Aguardava-os o padre Manoel de Nóbrega, então empenhado na construção de um colégio no alto da serra em Piratininga.

Em princípios de janeiro, para a execução da mesma, enviou ao planalto 13 religiosos, entre os quais o irmão Anchieta. Na manhã de 25/1/1554, por designação de Nóbrega, o padre Manoel de Paiva celebrou, a primeira missa, na inauguração do Colégio de São Paulo de Piratininga. José de Anchieta, então um noviço de 19 anos, participou da missa como sacristão.

Na humilde choupana onde se instalara ao mesmo tempo escola e casa dos jesuítas, Anchieta foi o primeiro mestre de latim, por indicação do padre Nóbrega e também seu amanuense; ensinando os seus colegas noviços da Companhia de Jesus e somente depois na catequese e das primeiras letras aos aborígines, além dos filhos dos colonos e aos noviços. Dos índios aprendia a língua tupi, da qual, após seis meses, compôs uma gramática, impressa em Coimbra, Portugal, em 1595, sob o titulo Arte da Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil.

Exerceu também as funções de enfermeiro, no lugar do irmão Gregório Serrão e como barbeiro. Curou muitos índios que estavam à beira de morte, vítimas de enfermidades que assolavam a povoação. A seguir escreveu os Diálogos da Fé, em tupi, método novo para a aplicação da doutrina.

Em 1555, voltou a São Vicente e, em 1556, viajando o padre Manoel de Nóbrega para a Bahia, deixou-lhe a cargo escrever cartas de edificação e de notícias para a Companhia de Jesus na Europa. Após seis anos de permanência em São Vicente, Anchieta enviou ao Prepósito Geral Diego Laynes em Roma, em 31/5/1560, um extraordinário estudo sobre a fauna e a flora, o que lhe fora dado ver na “parte do Brasil que se chama São Vicente”.

Em 11/4/1563, acompanhou o padre Nóbrega em sua jornada pacificadora junto aos índios Tamoios de Iperoig (entre São Sebastião e Ubatuba), ficando na desejada paz. Durante sua estada no local, entre ameaças, lutas e tentações, compôs 5.786 versos, que formam o célebre Poema em Louvor da Virgem Nossa Senhora. Posteriormente embarcou para o Rio de Janeiro e, a seguir, para a Bahia onde, em 1566, foram-lhe conferidas as ordens sacras (padre) pelo bispo D. Pedro Leitão. Regressando para o sul, auxiliou Estácio de Sá na expulsão dos franceses do Rio de Janeiro. Permanecendo até 1569, quando foi nomeado reitor do Colégio de São Vicente, e das casas anexas, missão que se prolongou até 1578, ano em que foi elevado a Provincial do Brasil, o mais importante cargo entre os jesuítas.

Na Bahia desenvolveu grande atividade, fundou o Colégio dos Jesuítas e, no Rio de Janeiro, a igreja e o Hospital da Misericórdia. Ao iniciar-se o ano de 1586, sentindo-se muito enfermo, entregou nas mãos do visitador Cristóvão Gouveia o cargo de provincial. Em 1593, recebeu ordens para que assumisse a direção da Casa de Espírito Santo, a que se subordinavam as aldeias de Reritiba, Guarapari, São João e Reis Magos.

Faleceu em Reritiba, hoje Anchieta, no Espírito Santo. Seu corpo foi transladado para Vitória onde foi sepultado. Cognominado Apóstolo do Novo Mundo, são-lhe atribuídos inúmeros milagres. Escreveu grande número de hinos e canções sacras para os meninos indígenas, diversos autos, nas línguas tupi, castelhana e portuguesa, escreveu a Vida dos Religiosos da Companhia dos Missionários do Brasil e uma Dissertação sobre a História Natural do Brasil, o que lhe valeu ser considerado o fundador da Literatura Brasileira. Foi beatificado solenemente no Vaticano pelo Papa João Paulo 2º no dia 22/6/1980, e a igreja existente no Pátio do Colégio, em São Paulo, é em sua homenagem.

Gaspar Lourenço

Nascido em Vila Real - Portugal em 1529, e falecido na Bahia em 1581.

Irmão e depois padre jesuíta, ingressou na Companhia de Jesus em 1553. Estudante e intérprete, aprendeu a língua tupi. Participou em 25/1/1554, da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga. Em 1560, acompanhou juntamente com o padre Fernão Luís, por determinação do Provincial Luís da Grã, os índios de Piratininga que foram dar combate aos franceses no Rio de Janeiro, por solicitação de ajuda do governador-geral Mem de Sá. Em 1575, com o padre João Salônio, foi o responsável pela primeira tentativa de colonização em Sergipe, quando percorreram algumas aldeias, notadamente a dos índios Kiriris na confluência dos rios Piauí e Jacaré que tinham o comando do cacique Surubi. Por onde passaram, fundaram missões e ergueram igrejas dedicadas a São Tomé, Santo Inácio e a São Paulo, esta última provavelmente em território que hoje pertence ao município de Aracajú, localizadas em terras dominadas pelos caciques tupinambás Surubi, Serigi e Aperipê. A principio os jesuítas conseguiram atrair os índios para a catequese, mas os soldados que vieram proteger os religiosos começaram a praticar violência nas aldeias, roubando produtos e raptando as mulheres. Os indígenas, revoltados, expulsaram os padres e os soldados de suas aldeias. Posteriormente o padre Gaspar Lourenço foi transferido para a Bahia, onde veio a falecer.

Manoel de Chaves

Nascido em Porto (Portugal) em 1514 e falecido em 19/1/1590.

Irmão e depois padre jesuíta. Já estava no Brasil antes da vinda dos primeiros jesuítas. No ano de 1549 foi para São Vicente, ingressando na Companhia de Jesus no ano seguinte. Em companhia do padre Manoel de Nóbrega e outros religiosos, subiu a serra até o planalto, participando em 29/8/1553, da fundação da aldeia de Piratininga. Em 25/1/1554, estava presente na fundação do colégio de São Paulo de Piratininga. Por ter aprendido, por convivência a língua tupi, era em 1557, na opinião do padre Manoel de Nóbrega, o que melhor sabia a língua dos índios. Depois de ordenado, foi coadjutor espiritual.

Antonio Rodrigues

Nascido em Lisboa (Portugal), em 1516, e falecido em 19/1/1568, no Rio de Janeiro.

Irmão e, depois, padre jesuíta, Antonio Rodrigues era órfão, assentou praça e com apenas 19 anos embarcou na Espanha, em 1535, com destino ao rio da Prata, na armada de D. Pedro de Mendoza. Tomou parte na primeira fundação de Buenos Aires, com Mendoza, em 1536; e na de Assunção (Paraguai), com João de Salazar, em 1537. Com Fernando Ribera foi do Mato Grosso até perto do Maranhão e Amazonas. Acompanhou Domingos de Irala através do Chaco, no Paraguai, aprendeu a língua guarani. Como militar conviveu durante algum tempo com os índios carijós, aprendendo a língua tupi e os costumes. Em 1553, foi do Paraguai para São Vicente a pé, onde foi admitido na Companhia de Jesus, como noviço. Subiu a serra e converteu ao cristianismo muitos índios, entre os quais conquistou grande prestigio devido ao conhecimento que tinha da língua tupi-guarani.

Acompanhou o padre Manoel de Nóbrega na fundação da Aldeia de Piratininga, em 29/8/1553. E foi com ele para Maniçoba (aldeia que se situava às margens do rio Anhembi, hoje Tietê, na região de Itu, e que teve curta existência). Foi o primeiro mestre-escola, por determinação do próprio padre Nóbrega, quando da fundação em 25/1/1554 do colégio de São Paulo de Piratininga para os meninos índios, aos quais ensinava na própria língua, e aprendiam a ler, escrever, cantar e tocar instrumentos.

Era cantor e músico. Em São Paulo os curumins aprenderam a tocar flauta. Quando algum dos seus alunos não ia a aula por preguiça, mandava os outros ir buscá-lo, e o traziam preso para a alegria dos demais e a satisfação dos pais. Intérprete de Nóbrega, pois sabia a língua dos indígenas, ao mesmo tempo estudava e aperfeiçoava o latim.

Posteriormente, em 1556, esteve no sertão chegando até o Peru e depois, indo até o Paraguai, de onde retornou em 1557. Foi com Nóbrega para a Bahia, onde também ministrou aulas. Segundo carta do governador-geral Mem de Sá para o rei de Portugal D. João 4º, datada de 31/3/1560, havia escolas de 360 moços que sabiam ler e escrever, graças ao trabalho de Antonio Rodrigues.

Foi ordenado padre em 1562, na Bahia. Acompanhou o padre Manoel de Nóbrega quando se transferiu para o Rio de Janeiro, onde ajudou a fundar o Colégio Jesuíta e foi o responsável pela Aldeia de Arariboia, chefe indígena dos timiminós e fundador da cidade de Niterói.

Diogo Jácome

Nascido em Portugal e falecido em 10/4/1565, no Espírito Santo.

Irmão leigo e depois padre jesuíta, Diogo Jácome entrou para a Companhia de Jesus em 12/11/1548, sendo coadjutor espiritual quando veio para o Brasil com o padre Manoel de Nóbrega em 1549, na comitiva do governador-geral Tomé de Souza, em companhia de mais quatro religiosos. Estudante aprendeu a língua tupi. Ainda nesse ano é enviado para Ilhéus e Porto Seguro, com o padre Leonardo Nunes, sendo o seu primeiro companheiro na catequese dos indígenas. Veio para São Vicente, subindo com este a serra. Participou, em 25/1/1554, da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga. Aprendeu a arte de torneiro, tornou-se mestre. Fazia coroas e rosários de madeira, com o auxilio de um torno de pé, por ele mesmo fabricado. Introduziu o serviço de obras manuais entre os companheiros religiosos e entre os habitantes onde servia; era também pedreiro e sapateiro.

Acompanhou o padre Leonardo Nunes em viagem missionária para Ilhéus e Porto Seguro, retornando a capitania de São Vicente em 1557. Foi ordenado padre na Bahia em 1562. No ano seguinte, residiu em Ilhéus. No ano de 1564, acompanhou o padre Manoel de Paiva, nomeado Superior dos Jesuítas no Espírito Santo, sendo designado substituto do padre Fabiano de Lucena, que se encontrava enfermo, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, de Serra, incumbindo-se também de visitar as aldeias, próximas, inclusive a Aldeia Velha (Santa Cruz), assumindo o trabalho de catequese e evangelização. Nesse mesmo ano surge uma epidemia de varíola (então chamada de doença das bexigas), que quase devastou a Capitania; exerceu as funções de sangrador, cirurgião, médico, pároco e de coveiro.

Com o padre Pedro Gonçalves (este faleceria em novembro de 1564), cuidou das vítimas, e por segurança transferiram a aldeia de local. Consumido pelo exaustivo trabalho, faleceu na Casa Colegial do Espírito Santo, vítima de impaludismo.

Escreveu a Carta do Brasil em 1551, em que trata dos costumes dos índios, e trabalhos dos padres da Companhia na conversão; o manuscrito foi dado à casa da professa de São Roque; e uma versão italiana desta Carta foi publicada em Veneza, no ano de 1559.

Gonçalo de Oliveira

Nascido em Aveiro (Portugal), em 1534, e falecido em 1620.

Irmão e depois padre jesuíta, Gonçalo Oliveira, enquanto estudante aprendeu a língua tupi, e tornou-se intérprete. Era bem-quisto pelos indígenas pela dedicação, seu interesse pela língua e por sua cultura. Em missão de catequese, visitava diversas aldeias, fazendo longas caminhadas, quando ensinava e batizava os silvícolas. Chegou ao Brasil antes dos jesuítas, entrando para ordem em São Vicente. Participou, em 25/1/1554, da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga. Intervinha sempre nas questões entre os portugueses e os índios, ouvindo-os e resolvendo problemas, evitando conflitos entre as partes, o que acabou ocorrendo quando de sua única ausência do planalto de Piratininga. Ao retornar, sua presença bastou para cessar de imediato o embate. Participou ativamente na luta pela expulsão dos franceses no Rio de Janeiro, em 1565. Companheiro fiel do padre Manoel de Nóbrega, foi seu confessor e lhe deu a Santa Unção quando expirava em 18/10/1570, no Colégio do Rio de Janeiro, do qual foi procurador no ano de 1573.

Vicente Rijo Rodrigues

Nascido em São João da Talha (Sacavém), Portugal, em 1528, e falecido em 9-6-1600.

Irmão e depois padre jesuíta. Ingressou na Companhia de Jesus em Coimbra, em 16/11/1545, para auxiliar leigo e irmão coadjutor. Veio para o Brasil com o padre Manoel de Nóbrega, em 1549, na comitiva do governador-geral Tomé de Souza, sendo ordenado padre logo depois de sua chegada na Bahia. Quinze dias depois de desembarcar, já tinha aberto uma escola para ler e escrever, ensinando aos mamelucos (filhos de portugueses com índias). Foi o primeiro mestre-escola em terras brasileiras. Ao mesmo tempo era o responsável por todos os batizados e dedicou-se também a trabalhos no campo, com o emprego de sementes enviadas de Portugal. Praticou com um tecelão da armada para ensinar os índios a tecer. Fez construir uma igreja junto da casa em que ensinava a ler e a escrever. Por motivo de saúde, no inicio de 1550 foi enviado pelo padre Manoel da Nóbrega a Porto Seguro, acompanhado pelo padre João Navarro, depois substituído pelo padre Francisco Pires. Entre a vila e a aldeia empreendeu a fundação da igreja de Nossa Senhora da Ajuda e, ao lado, a construção de uma casa onde, com ajuda do irmão Simão Gonçalves, ensinava aos meninos. A água, porém, ficava distante e todos a queriam perto. Padre Rodrigues desejou-a num monte vizinho, que logo desmoronou e no seu lugar surgiu uma fonte. O povo passou a venerar o lugar e a água passou a servir os doentes e a ser também enviada para outras terras do Brasil e para Portugal.

Em meados de 1551 encontrava-se na Bahia, atacado de febres palustres, e só interrompeu a sua atividade por ordem de Nóbrega, também atacado. Logo que se restabeleceu, o que não demorou muito recomeçou a ensinar às crianças índias e a desenvolver um combate eficaz à antropofagia entre os índios, aos quais procurava fixar no povoamento. Um ano depois estabelecia outra escola de meninos, numa aldeia que tomou o nome de São Tomé, em Paripe. Não sem algum risco para suas vidas, Nóbrega e Vicente Rodrigues internavam-se entre os índios e arrancavam-lhes os cadáveres humanos trazidos para o bárbaro festim. A esta ação dos missionários jesuítas se deve a repressão da antropofagia, desenvolvida por Mem de Sá. Fez parte da missão chegada na Bahia em 13-7-1553 e foi Superior dos Jesuítas em Salvador, por ausência do padre Manoel de Nóbrega. Estudando latim e casos de consciência, recebeu a ordenação sacerdotal, acreditando-se ser a primeira realizada no Brasil. Seguiu para o Sul, mas sofreu um naufrágio na altura de Abrolhos e com os outros religiosos conseguiu chegar a São Vicente, na véspera do natal de 1553. Foi residir em Maniçoba (aldeia de curta existência, então localizada as margens do rio Anhembi, hoje Tietê, na região de Itu. Expulsos os jesuítas pelos mamelucos da família de João Ramalho, seguiu para o planalto, onde participou da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga, em 25/1/1554. Foi para a Bahia logo depois. Fez os últimos votos como coadjutor espiritual em 1560. Foi superior do Colégio de São Paulo de Piratininga e estava no acampamento do Rio de Janeiro quando se deu o ataque dos índios Tamoios, em 9/7/1562. Durante a luta, ajoelhou-se entre os combatentes e impetrou do céu a vitória, que os portugueses obtiveram. Em 1570 seguia pelo rio Anhembi, com o padre José de Anchieta, superior da capitania, e outros padres, mas a canoa afundou e todos, salvos, seguiram pelas margens. No dia 28/4/1573 naufragou mais uma vez, perto da foz do rio Doce, quando se dirigia com outros missionários para a Bahia. Em Salvador tomou posse, em 1574, do cargo de prefeito da igreja. Dez anos depois era prefeito dos doentes e padre espiritual da comunidade, em que revelou suas mais notáveis qualidades religiosas. Os últimos anos de sua vida passou no colégio do Rio de Janeiro, onde teve os cargos de padre espiritual, prefeito e consultor. É hoje considerado o primeiro professor do Brasil, como o padre Alexandre Gusmão na ordem pedagógica. Foi o ultimo sobrevivente do grupo de missionários de Manoel de Nóbrega. Os seus 55 anos de vida religiosa podem dividir-se em três fases distintas: a da Bahia, antes do sacerdócio; a da superioridade em residências e, por fim, a de diretor espiritual. A primeira, que se fechou com a sua ordenação sacerdotal, foi à fase heroica da sua existência e coincidiu com a sua juventude. As outras duas fases decorreram em plena tranquilidade. Algumas cartas suas saíram nas coleções Nuovi Avvisi dell´ll Indie (Roma) e Diversi Avvisi (Veneza, 1559 e 1565), e nas Cartas Jesuíticas, II (Cartas Avulsas, 1550-1568), Rio de Janeiro, 1931, p. 108-114, 116-119, 134-136. A. Franco, Imagem da Virtude em o Noviciado de Lisboa, na biografia de Vicente Rodrigues, transcreve excertos de uma relação da “Entrada ao sertão e naufrágio dos Padres Vicente Rodrigues e José de Anchieta escrita por V.R.”.

Pero Correia

Nasceu em Portugal e faleceu em 1554, na região de Cananeia, então Capitania de São Vicente.

Irmão jesuíta, presumivelmente chegou ao Brasil em 1534, tendo estado no Rio de Janeiro, antes da vinda do francês Villegagnon, que invadiu o território. Levou a vida de aventuras como conquistador e aprisionando índios para vendê-los como escravos.

Em 1549, deixou a vida bárbara que levava e se converteu e foi recebido como irmão pelo padre Leonardo Nunes. Entrou na Companhia de Jesus, em São Vicente, sendo o primeiro irmão recebido no Brasil, e, então, doou todos os seus bens e as terras que possuía ao Colégio de São Vicente, do qual foi um dos fundadores.

Falando fluentemente a língua tupi evangelizou índios de diversas nações e participou, em 25/1/1554, da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga. Em fins de 1554, com seu companheiro irmão João de Sousa, foi morto a flechadas pelos índios Carijós, na região de Cananeia, quando em missão de catequese. Juntamente com João de Sousa é considerado o protomártir da Companhia de Jesus no Brasil.

Pero Correia era descendente de família nobre portuguesa e escreveu: Suma da Doutrina Cristã vertida em língua brasílica; Carta escrita aos irmãos de Portugal em 1551; Carta aos irmãos que assistiam em África em 1551, onde trata dos costumes dos bárbaros do Brasil; Carta escrita da Capitania de São Vicente ao Padre Belchior Nunes, a 8 de junho de 1554, por ordem superior, em que relata o fruto das suas missões. Estas cartas foram traduzidas para o italiano e publicadas em Veneza, no ano de 1659.

João de Sousa

Nascido em Portugal, faleceu em fins de 1554, na região de Cananeia - então Capitania de São Vicente.

Irmão jesuíta e coadjutor. Servindo a carreira das armas - soldado - embarcou para o Brasil, onde serviu na casa do governador-geral Tomé de Sousa em Salvador, na Bahia. Foi um dos primeiros povoadores de São Vicente. Antes de ingressar na vida religiosa já era considerada uma pessoa santa, conforme testemunho do padre José de Anchieta, jejuava todas as semanas, a quarta-feira, a sexta e o sábado, e não consentia diante de si que se fizesse ofensa a Deus Nosso Senhor (Cartas, Informações, Fragmentos históricos e sermões, Rio de Janeiro 1933, p. 83). Entrou como noviço na Companhia de Jesus, em 1550, e na casa religiosa foi exemplo de penitência, humildade, simplicidade e caridade.

Participou da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga em 25/1/1554. Por ordem do padre Manoel de Nóbrega, em março de 1554, e em companhia dos irmãos Pero Correia e Fabiano de Lucena foram incumbidos de iniciar a catequese dos índios ibirajaras, estabelecer a paz entre os tupis e os carijós e assegurar a livre passagem para o rio da Prata a alguns castelhanos que o padre Leonardo Nunes, anos antes, encontrara no Porto dos Patos e trouxera para São Vicente. Eles foram bem recebidos em Cananeia, porto principal dos tupis, com os quais ficou Fabiano de Lucena. A 6 de outubro, juntamente com Pero Correia, seguiram para as terras dos carijós, pelas quais se internaram muitos dias, passando muitos trabalhos, as mais das vezes fome, não tendo que comer e estando enfermo João de Sousa.

Pelo mês de novembro apareceram nessas terras dois intérpretes, um português e um espanhol. Este era já conhecido dos jesuítas, que o haviam libertado de morte certa quando estava prisioneiro dos índios, mas que contra os seus benfeitores alimentava sentimentos de vingança por não terem, os jesuítas, dado uma sua concubina índia, como afirmou Anchieta depois. A felonia deste aventureiro foi a causa da morte dos dois missionários, cuja missão contrariava fazendo crer aos carijós, que o nosso irmão Pero Correia abria a estrada pela qual haviam de vir os inimigos para matá-los. No Natal, ao que parece ter sido a data marcada por Nóbrega para deixarem a terra dos carijós e procurarem a dos ibirajaras, os dois irmãos acompanhados de 10 ou 12 principais carijós até os limites da região que ocupavam, apareceu uma canoa dos mesmos carijós, que mataram dois dos índios que vinham com os missionários e investiram a seguir contra João de Sousa, o qual caindo de joelhos foi morto a flechadas. Tentou ainda Pero Correia conversar com os agressores; vendo porém a inutilidade das suas palavras, as quais respondiam setas, ajoelhou-se encomendando sua alma a Deus e assim acabaram de matá-lo. Juntamente com Pero Correia é considerado o protomártir da Companhia de Jesus no Brasil.

Leonardo do Valle (Antonio Gonçalves do Valle)

Nascido em Bragança, Portugal, em 1538. Faleceu em 2/5/1591

Irmão e depois padre jesuíta, ingressou, em 1553, na Companhia de Jesus, com apenas 15 anos de idade, sendo o segundo noviço recebido pelo padre Leonardo Nunes, em São Vicente. Em fins de 1553, acompanhando os jesuítas subiu a serra em direção ao planalto e participou em 25/1/1554, da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga. Peregrinou pelos sertões, convertendo muitas almas, a pé, quase descalço, ensinando aos índios pelas ruas e pedindo esmola de casa em casa, para o sustento. Dedicando-se a língua tupi, escreveu um trabalho, que seria reunido e editado no ano de 1938, intitulado Vocabulário na Língua Brasílica, edição coordenada e prefaciada por Plínio Ayrosa.

Leonardo Nunes

Nascido em São Vicente de Beira - Portugal e falecido em 30/6/1554, na costa brasileira.

Padre jesuíta, entrou para Companhia de Jesus no Colégio de Coimbra em 1/11/1548 e veio para o Brasil com o padre Manoel de Nóbrega, em 1549, na comitiva do governador-geral Tomé de Souza. Logo após a chegada a Salvador, foi em companhia do irmão Diogo Jácome para Ilhéus e Porto Seguro, onde ensinavam os meninos a ler e a escrever. Logo depois foi encarregado de uma missão especial na capitania de São Vicente, onde não havia nenhum missionário e, nas palavras do padre Manoel de Nóbrega, “os portugueses que lá viviam eram piores que os índios, completamente entregues a devassidão e a todos os vícios e exercendo sobre os pobres indígenas uma crueldade revoltante e fazendo-os escravos”.

Seguiu com 12 meninos - juntamente com o padre Afonso Braz e o irmão Diogo Jácome - e a maioria dos portugueses aceitaram os seus conselhos. Mas, vendo os interesses atacados, outros começaram a maldizer a interferência do religioso, que segundo eles se devia ocupar só das almas. Procurou persuadi-los, mas em vão. A sua palavra era, porém, bem recebida pelos índios, entre os quais gozava de grande prestígio. Foi de grande utilidade o conhecimento da língua dos nativos. Tendo os índios tamoios, em guerra com os portugueses, aprisionado algumas mulheres lusitanas, reservavam-lhes tristíssima e dolorosa sorte. E, sabendo do fato, partiu para resgatar as pobres vítimas sem outra arma que não fosse a sua palavra, e a vitória foi completa.

Outra feita foi a sua visita aos índios dos Patos, a cem léguas de distância e, só pelo prestígio da sua palavra conseguiu a liberdade para algumas famílias de fidalgos castelhanos que se dirigiam ao Rio da Prata.

Na capitania de São Vicente conseguiu que os moradores lhe confiassem seus filhos, com estes e com muitos órfãos portugueses fundou o Colégio de São Vicente, onde os missionários lhes ensinavam a língua portuguesa e o latim, ao mesmo tempo em que os instruíram na doutrina cristã. Antes de qualquer outro, deu aos índios as primeiras noções da religião cristã, catequizando-os e edificando, com o auxílio de colonos portugueses, a igreja do seminário.

Recebeu como irmãos leigos vários europeus e mestiços, dentre os quais Mateus Nogueira do Espírito Santo, Pero Correia, Manuel de Chaves, Leonardo do Valle e Gaspar Lourenço. Da capela onde ia dizer missa intimou João Ramalho a retirar-se, por julgá-lo excomungado, por ser casado em Portugal e viver maritalmente no Brasil com uma índia, a filha do cacique Tibiriçá, Bartira. Pouco tempo depois, andando pelo campo, aconselhou o mesmo a fundar Santo André da Borda do Campo, antecedendo a Manoel de Nóbrega no conhecimento dos campos (planalto de São Paulo) de Piratininga. Era chamado, pelos indígenas, o Abarebebê - padre voador, em virtude da excepcional velocidade com que se locomovia.

Foi quem, por determinação de Nóbrega, viajou à Bahia para trazer José de Anchieta e os outros jesuítas a São Vicente. Ficou como responsável pela Casa de São Vicente, não participando da fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga, em 1554, mas foi o grande desbravador da região onde hoje está a capital paulista.

O padre Leonardo Nunes faleceu vítima de um naufrágio, em 30/6/1554, quando, em viagem à Europa, a pedido do padre Manoel de Nóbrega, iria relatar ao rei D. João 3º e a Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, e futuro Santo, os progressos obtidos a favor da doutrina cristã no Brasil.

Em 1551, de São Vicente deixou duas cartas escritas dirigidas aos padres da província - Companhia de Jesus – em Portugal, uma das quais se imprimiu em Veneza, em 1559, juntamente com outras, traduzidas em língua italiana. A outra teria ficado inédita.

Manoel de Paiva

Nascido em Aveiro (Portugal), em 1521, e falecido em 21/12/1584, em Vitória (Espírito Santo).

Padre jesuíta ingressou em 18/1/1548 na Companhia de Jesus e veio para o Brasil, em 1550, na armada do fidalgo português Simão da Gama de Andrade com mais três religiosos e alguns órfãos, no segundo grupo de jesuítas. Exerceu a função de superior do Colégio da Bahia quando da viagem de Nóbrega a Pernambuco.

Em 1552 acompanhou um grupo de meninos em visita ao padre Leonardo Nunes e ao irmão Diogo Jácome, em São Vicente, para onde foi logo transferido. Todos os moradores o respeitavam, sendo indicado como superior dos irmãos pelo padre Manoel de Nóbrega. No ano de 1553, em companhia do padre Nóbrega e de outros religiosos, subiu a serra até o planalto, onde participou, em 29/8, da fundação da aldeia de Piratininga. Manoel Paiva foi designado pelo superior dos jesuítas, Nóbrega, para oficiar a missa celebrada na manhã de 25 de janeiro de 1554, no planalto, ao ser fundado o Colégio dos Jesuítas, que recebeu o nome de São Paulo de Piratininga, sendo o primeiro diretor do Colégio de São Paulo. Em 1564, foi nomeado superior dos jesuítas no Espírito Santo, substituindo o padre Braz Lourenço. Manoel Paiva também foi reitor da Casa de Espírito Santo e primeiro capelão militar do Brasil. Era parente de João Ramalho.

*Antônio Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador. É funcionário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

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