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Chuvas mais fracas em 43 anos em represas pressionam custo da energia
26/01/2014

 

Represas baixas. As tempestades que transtornam os centros urbanos são inapropriadas para encher os reservatórios das hidrelétricas; no Sudeste, onde se concentram grandes usinas, o volume de água nas barragens para gerar energia caiu em janeiro

 

Alexa Salomão - O Estado de S.Paulo

Neste início de ano, as trombas d'água, como é de costume, têm alagado ruas, invadido casas e até feito vítimas fatais em vários centros urbanos do País. Para as cidades, tem sido, em muitos momentos, um caos. Para o setor de energia elétrica, porém, o volume de chuvas de janeiro frustrou expectativas.

Tecnicamente, o que se diz no setor é que a quantidade de chuva capaz de ser convertida em energia elétrica nos rios e nas barragens ficou muito abaixo do ideal. Na verdade, essa chuva teve um comportamento oposto ao esperado. Ao invés de aumentar, como é o normal para esta época do ano, ela caiu.

As chuvas foram especialmente ruins no Sudeste, justamente a região onde se concentram as hidrelétricas mais importantes para o abastecimento do País. O indicador que mede o impacto das chuvas sobre os reservatórios - e funciona como importante sinalizador para o nível de abastecimento - é chamado de ENA, a Energia Natural Afluente (leia quadro). Segundo levantamento realizado pela comercializadora de energia Compass, o indicador tende a terminar o mês com o menor valor dos últimos 43 anos: seria o pior janeiro para o setor elétrico no Sudeste desde 1971.

"Existe uma anomalia climática que não é apenas nacional, mas global", diz Patricia Madeira, analista da área de energia da Climatempo, empresa especializada em mapeamento climático. Segundo Patrícia, a seca na Austrália, o frio polar nos Estados Unidos e o calor em cidades como São Paulo fazem parte dessa mesma anomalia.

Na capital paulista, a temperatura média nas três primeiras semanas de janeiro ficou em 31,1 graus, bem acima da média histórica de 27,3 graus. Mantida a tendência, este será o janeiro mais quente da história da cidade, desde que as medições foram iniciadas, em 1943.

Preço alto. O calor aumenta a evaporação nos reservatórios e deixa a terra seca, propensa a reter a água. Para complicar, o nível das barragens está baixo há quase dois anos, o que demanda mais água para voltar ao normal. "Até temos chuvas, mas são temporais que não valem nada para os reservatórios de usinas: eles precisam de dias consecutivos de chuvas para encher", diz Patricia.

Pelas análises da Climatempo, as atuais condições climáticas devem perdurar até o final de primeira quinzena de fevereiro. A chuva deve aumentar em março, já no final do período úmido. Assim, há risco de os reservatórios não serem devidamente recompostos neste ano. Para que os reservatórios pudessem encher, seria preciso chover em março seis vezes mais que a média histórica - e não é isso que está previsto. "A tendência é que será mais um ano de térmicas ligadas e de pressão sobre a geração - e também sobre o preço da energia", diz Marcelo Parodi, sócio da Compass.

De acordo com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o preço da energia no chamado mercado à vista subiu 18% em uma semana: passou de R$ 410/MWh na semana passada para R$ 484,83/MWh nesta semana.

Na avaliação do presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, é cedo para fechar previsões. "É fato que o ano começou ruim, mas não podemos dizer se a situação vai ou não se reverter." O mais importante, segundo ele, é que, apesar de os reservatórios estarem baixos, não há risco de racionamento.