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Mar fica 3°C mais quente no Sul e Sudeste
14/02/2014

 

Onda de calor causou proliferação de micro-organismos marinhos, o que deixou mancha escura no oceano

 

Falta de nuvens levou ao hiperaquecimento das águas de superfície; cientistas avaliam risco de desequilíbrio ecológico

RAFAEL GARCIA
DE SÃO PAULO

As águas que banham a costa do Sudeste e do Sul do Brasil estão até 3°C mais quentes do que o normal para o mês de fevereiro.

Um período prolongado sem cobertura de nuvens fez a superfície do oceano se superaquecer, e cientistas avaliam se as perturbações ecológicas do calor podem afetar o ecossistema marinho.

O calor do mar neste início de ano foi constatado também por banhistas, que relataram temperatura fora do normal em praias do Rio e do litoral paulista. A água chegou a 28°C na costa. Cientistas investigam se o fenômeno está relacionado ao aquecimento global e se pode causar desequilíbrio ecológico.

A consequência visível mais notável da onda de calor para as águas costeiras foi a floração de algas e outros organismos marinhos fotossintéticos, que deixou uma gigante mancha escura no oceano. Essa formação se estendeu do mar do Rio de Janeiro até Santa Catarina.

"Uma mancha como essa pode reduzir o teor de oxigênio das águas de superfície, e isso pode espantar os peixes que ficam nessa região", explica Sonia Gianesella, professora do Instituto Oceanográfico da USP. "Pode ser que peixes busquem águas mais profundas ou busquem horizontalmente outras áreas que não estão tão aquecidas."

A pesquisadora diz já ter estudado outras manchas semelhantes no litoral, mas não se lembra de uma que tenha sido tão grande.

O Centro de Biologia Marinha da USP, em São Sebastião, enviou na semana passada uma equipe de pesquisadores até algumas áreas do mar onde a mancha estava presente. O barco de pesquisa Alpha Delphini, o mais ágil do instituto, já retornou e os cientistas analisam material orgânico coletado para entender melhor o fenômeno.

Cláudio Golçalves Tiago, biólogo da instituição, afirma que o calor excessivo em janeiro e no início de fevereiro também afeta animais à beira do mar, como as cracas.

"As cracas podem parecer insignificantes, mas elas são um organismo indicador daquilo que outros organismos estão sentindo", afirma Gonçalves. "Sob calor intenso, elas ficam fervendo dentro da carapaça e podem ter uma mortandade muito grande."

Outra preocupação trazida pelo calor é a mortalidade de corais, que são centros importantes de alimentação de peixes. O branqueamento de corais, sintoma típico de sua deterioração, porém, ainda não foi verificado como consequência desta onda de calor, afirma Gonçalves.

No início desta semana, pesquisadores da Marinha brasileira registraram a chegada da ressurgência --o afloramento de águas profundas, mais frias, perto da costa. Esse fluxo levou algum alívio às praias do Rio, mas ele vem do leste e dificilmente chega ao litoral norte de São Paulo.

Entre os cientistas que trabalham com oceanografia física e climatologia, a preocupação maior é a de que a atual onda de calor não seja apenas um fenômeno de variação natural do clima, mas sim algo alimentado pelas mudanças climáticas globais.

"O que é atípico nessa onda de calor é que ela é não só muito intensa mas também muito prolongada", diz Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina.

A cientista diz ter visto padrões climáticos muito incomuns para o Sudeste/Sul nos últimos anos. "Eu acredito que possa haver um efeito da mudança climática aí, mas isso ainda está em estudo."

Folha de S. Paulo