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Rio menos 20
19/03/2012

 

A obstinada negação da realidade e brigar com os fatos conduz os governos a adiar o que deve ser feito

 

Rubens Ricupero


É possível que seja tarde demais para evitar que a reunião a realizar-se no Rio de Janeiro dentro de cem dias faça as deliberações ambientais retroceder ao ponto onde se encontravam em Estocolmo em 1972.


Marco zero da tomada de consciência do problema, deu-se início então a um processo que levaria à assinatura na Rio-92 das duas convenções da ONU para enfrentar as principais ameaças ao planeta: o aquecimento global da atmosfera e a acelerada extinção das espécies vegetais e animais.


O hábito posterior de convocar reuniões comemorativas como a Rio+20 tem o inconveniente de gerar expectativas exageradas, pois eventos capazes de atraírem os maiores líderes mundiais não se repetem facilmente.


Desde então, dar execução às convenções mostrou-se mais árduo do que negociá-las, embora, a cada ano, a ciência aporte elementos mais categóricos de que a ameaça do aquecimento global foi subestimada. Esse é um dos raros setores onde a realidade se tem revelado sempre pior do que as previsões.


Contudo, uma obstinada atitude de negar a realidade e brigar com os fatos conduz os governos a adiar o que deve ser feito. Para isso evita-se chamar a atenção para a gravidade das conclusões das pesquisas recentes.


Esse é um dos dois principais problemas que ameaçam fazer da Rio+20 um retrocesso: a recusa de lançar um honesto grito de alerta sobre os limites do planeta, dissimulando a falta de progresso. O segundo é o de incluir na agenda todos os problemas acumulados e não resolvidos em 50 anos de debate Norte-Sul. Dilui-se a agenda, perde-se o foco específico e, ao insistir que tudo é prioridade, acaba-se não tendo prioridade alguma.


Afirma-se que não se deve privilegiar nenhum dos três pilares do desenvolvimento sustentável: o econômico, o social e o ambiental. Há aí dois defeitos de raciocínio. O primeiro é o de ignorar o que em filosofia se chama condição da possibilidade. O ambiente é a condição da existência do econômico, social, cultural e de tudo o mais.


Se a temperatura média aumentar em cinco graus, não haverá mais condições para a civilização humana, tal como a conhecemos. Mesmo o social, mais importante do ponto de vista do valor humano, não sobrevive sem ambiente favorável.


O segundo erro é esquecer que não se trata apenas de qualquer econômico e social, mas da dimensão ambiental desses componentes do desenvolvimento sustentável. Uma política industrial como a nossa, que se resume em estimular a venda de automóveis, sem exigir contrapartidas de economia de combustível ou de poluição, agrava não só o problema ambiental, mas leva ao colapso do trânsito, como vemos em São Paulo.


O mesmo vale para o consumo: estimular a ampliação do consumismo para milhões e não o consumo racional é imitar o desperdício americano, que, generalizado, exigirá cinco planetas como a Terra! Um assentamento que destrói a Mata Atlântica ou a floresta amazônica é insustentável, ao contrário do que emprega os assentados para replantar matas ciliares ou para conservar a floresta.


O que falta ao Brasil não são boas políticas sociais, mas torná-las ainda melhores, dando-lhes conteúdo ambiental sustentável.


AMANHÃ EM MUNDO
Clóvis Rossi



Fonte: Folha de SPaulo/Mundo