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O olhar em 3D de Wenders
19/03/2012

 

Pina, filme homenagem analítico e emocionante sobre a grande bailarina e coreógrafa, estreia sexta

 

18 de março de 2012 | 3h 12




LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo


No ano passado, a Berlinale celebrou duplamente o 3D como arte. Em anos anteriores, o Festival de Cannes já forçara seu público a usar óculos especiais na sessão de Up - Altas Aventuras, mas a animação da Pixar não configurava o uso da tecnologia como uma nova ferramenta do cinema de arte. Existem outras animações que se valem do recurso, incluindo Os Contos da Noite, do francês Michel Ocelot, que Berlim também mostrou em 2011. Os casos de A Caverna dos Sonhos Esquecidos e Pina são especiais. E, curiosamente, os dois filmes exibidos em Berlim são obras de diretores alemães tradicionalmente ligados à experimentação, Werner Herzog e Wim Wenders.



Pina em 3D estreia na próxima sexta, dia 23. O filme foi indicado para o Oscar de documentário. Embora favorito, perdeu. É a sina de Wenders, como é a do cinema brasileiro, que nunca conseguiu cravar um Oscar de filme estrangeiro. Wenders também era favorito, anos atrás, por Buena Vista Social Club, e não levou. O curioso é que Martin Scorsese também concorria, na categoria principal, melhor filme, com outra produção em 3D - A Invenção de Hugo Cabret. Há controvérsia de que Hugo tivesse de ser assim. Toda a arquitetura do filme converge para o resgate final de um clássico perdido.


Scorsese inspirou-se no francês Georges Méliès e na sua Viagem à Lua, de 1902, que recria com tecnologia de ponta. Vai nisso certo exibicionismo - uma apropriação 'hollywoodiana'. Como filme mais 'spielbergiano' de Scorsese, Hugo não necessitava do 3D e poderia muito bem ter sido feito em 2D. Já nos filmes de Herzog e Wenders, a técnica é essencial. Herzog já levou o público, com sua câmera, a muitos lugares exóticos. Fascinado pela gruta de Chauvet, no sul da França, seu documentário capta imagens nunca vistas - e, principalmente, faz movimentos inéditos no local, que é fechado à visitação pública.


Herzog entrevista cientistas e historiadores e documenta os mais antigos registros de desenhos da pré-história que ainda existem. As cenas no interior da gruta necessitaram de uma autorização especial emitida pelo Ministério da Cultura da França. Apenas três pessoas, além de Herzog, foram autorizadas a entrar no local - o diretor de fotografia, o técnico de som e um assistente (o próprio diretor se encarregou da luz). Todos usaram roupas (e sapatos) esterilizados, sem nenhum contato com o exterior. E podiam ficar ali somente um par de horas por dia, por causa das potentes emissões de carbono e rádio. Todo esse sacrifício valeu a pena porque Herzog logra colocar o espectador 'dentro' da gruta e das próprias inscrições, que, em certos momentos, parecem saltar das paredes de Chauvet.


A gruta dos sonhos esquecidos vira metáfora do próprio cinema, cuja origem, os historiadores gostam de dizer, remontam às imagens que os prisioneiros podiam ver, projetadas nas paredes da gruta de Platão. Antes de se lançar à experiência, Herzog se havia definido como 'cético' em relação às possibilidades artísticas do 3D. Tendo visto apenas um filme feito com a tecnologia - Avatar, de James Cameron -, ele admitia que era impressionante, mas só servia para fantasias. Outro alemão, Wenders, sonhara durante anos com a realização de um filme sobre a coreógrafa Pina Bausch - uma das artistas mais completas e intensas da dança. Sempre que se encontravam, Pina cobrava de Wim: "E o meu filme?".


Quando Wenders finalmente resolveu o enigma do desafio em sua cabeça, Pina estava morta. Por um momento, o diretor pensou em desistir, mas o próprio ensemble da coreógrafa - a sua Danztheater - o exortou a seguir em frente. Wenders descobriu que, com o 3D, poderia jogar o espectador dentro da coreografia e envolvê-lo pelos gestos dos dançarinos. Em ambos os casos, Herzog e ele reduziram as equipes e o maquinário para chegar à essência, ao intimismo. Em Hollywood, nos anos 1950, os primeiros experimentos com 3D visavam justamente a exterioridade, a monumentalidade. O 3D de arte busca o oposto. Confinado numa cadeira de rodas, Bernardo Bertolucci também já anunciou que pretende fazer um filme com apenas dois personagens, um homem e uma mulher. Em 3D. Se conseguir, será a radicalização das propostas de Herzog e Wenders.


Fonte: Estadão.com.br/Cultura