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Poética do olhar
22/03/2012

 

Fotopoesia traz parte da extensa obra do mestre mexicano Manuel Álvarez Bravo

 

22 de março de 2012 | 3h 11




SIMONETTA PERSICHETTI, ESPECIAL PARA O ESTADO - O Estado de S.Paulo


"Nasci na Cidade do México, atrás da catedral, onde antigos deuses mexicanos construíram seus templos." Dessa forma, Manuel Álvarez Bravo (1902- 2002), ou d. Manuel, como ficou conhecido, apelido carinhoso dado por seus "discípulos", falava sobre si e a sua fotografia que durante quase 70 anos de atividade desenvolveu no México, tornando-se um dos grandes mestres latino-americanos, influenciando várias gerações de fotógrafos.



Parte de suas imagens - as realizadas entre 1920 e 1950 - poderá ser vista a partir de hoje no Instituto Moreira Salles, depois de passar pelo Rio. Manuel Álvarez Bravo: Fotopoesia foi realizada em colaboração com a associação que leva seu nome dirigida pela filha e pela viúva do fotógrafo e conta também com o apoio do Museu de Arte moderna, Instituto Nacional de Belas Artes no México. Paralelamente à exposição, o IMS apresenta o livro Manuel Álvarez Bravo: Fotopoesia (336 págs., R$ 90), volume que reúne 374 imagens do fotógrafo com textos de Colette Álvarez Urbaijtel, do historiador de fotografia Jean-Claude Lemagny, do romancista John Banville e do filósofo e escritor Carlos Fuentes.


Nascido quinto filho numa família de oito irmãos, ainda criança Álvarez Bravo perambulava pelas ruas da cidade, entre mercados e livrarias. Leitor apaixonado, foi nas páginas de Miguel de Cervantes, Diderot, Dostoievski, Voltaire, Rousseau, Joyce e Freud que aprendeu a conhecer o mundo. Na adolescência, teve contato com a fotografia por meio de um amigo, Luis Ferrari.


No início. Anos mais tarde, ele descreveria durante uma entrevista sua primeira experiência num laboratório fotográfico: "Estávamos quietos e concentrados, quase sem respirar. Ele colocou uma chapa de vidro sob uma lâmpada com luz vermelha e à nossa frente surgiu a imagem". Mesmo assim, Álvarez Bravo não se interessou imediatamente pela fotografia, pensava mais em se tornar escritor ou pintor.


No início dos anos 1920, porém, ele começou a trabalhar com fotografia. Suas primeiras imagens remetem a uma estética pictorialista ainda em voga, influenciado por nomes como o fotógrafo alemão Hugo Brehme, pai da pintora Frida Khalo, Guillermo Khalo e o fotógrafo Augustin Casasola, que deixou o estúdio de retratista para seguir e fotografar a revolução mexicana.


Mas seria somente alguns anos mais tarde, já no meio da explosão cultural do México, com os muralistas e com a chegada de vários intelectuais europeus e norte-americanos, que a fotografia de Manuel Álvarez Bravo se tornaria mais autoral, mais própria, voltada para questões políticas e de identidade mexicana. É preciso destacar nesse momento a influência marcante da fotógrafa italiana Tina Modotti e de seu namorado na época, o fotógrafo norte-americano Edward Weston.


Vanguarda. Álvarez Bravo deixou de lado uma estética mais "academicista", de imagens de natureza, de forma a ter um olhar mais vanguardista, um olhar urbano, com cenas do cotidiano nas ruas, influenciado talvez também pelo fotógrafo norte-americano Paul Strand. É o período de seu amadurecimento profissional. Visitou e passou pelas mais diversas tendências da modernidade e das vanguardas, aproximando-se inclusive do cinema.


Diz a lenda que o escritor André Breton queria que ele se filiasse ao movimento surrealista, mas teria respondido: "Eu não sou surrealista, surrealista é o México". Ainda assim, em 1939, Breton organizou em Paris a exposição Mexique com várias de suas imagens, algumas publicadas na revista surrealista Minotaure. No ano seguinte suas obras seriam incluídas numa mostra surrealista, na Cidade do México.


Álvarez Bravo nunca deixou de tentar evitar o clichê. Como escreve Collete Álvarez Urbajtel, sua viúva, no prefácio do livro que acompanha a exposição: "Odiava o excesso, o lugar-comum, a afetação, os clichês da beleza. Amava os jogos de palavras, os provérbios, as alusões literárias, a poesia barroca". Ele amava descobrir por meio do olhar, de surpreender e se surpreender com o que via.


Galeria. Mas além das imagens do cotidiano, são seus retratos e seus nus que também chamam a atenção. Os retratos, uma verdadeira galeria de um momento de efervescência cultural, em que se destacavam, entre outros, o filósofo Octavio Paz, o escritor Carlos Fuentes, o cineasta Serguei Eisenstein, a pintora Frida Khalo, o escritor e fotógrafo Juan Rulfo e os muralistas Diego Rivera e José Clemente Orozco.


Livre em seu olhar e nas suas pesquisas imagéticas, Álvarez Bravo não se prendeu a temática nenhuma. Fotografou até praticamente o fim de sua vida, aos 100 anos. Nunca perdeu a poética de suas imagens, a delicadeza e sensibilidade de seu olhar. Pelas suas imagens passa quase que a totalidade do século 20. Fato é que Manuel Álvarez Bravo é figura fundamental na história da fotografia.


O historiador francês, Jean-Claude Lemagny escreveu: "Álvarez Bravo é um artista da forma e do volume. Na periferia desses círculos, sua obra revela verdades gerais sobre a vida e o mundo. Álvarez Bravo força a refletir sobre a fotografia como atividade do espírito".


Fonte: Estadão.com.br/Cultura