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Água que te quero viva
23/03/2012

 

Ontem foi o Dia Mundial da Água, que deve ser sempre lembrado e comemorado por ser a água a base da vida.

 

Marina Silva


Por esse motivo, a ONU aprovou em 2010, por expressiva maioria dos seus países-membros, a resolução 64/292, que declara a água limpa e segura e o saneamento um direito humano essencial para gozar plenamente a vida e todos os outros direitos humanos.


Tal resolução tem fortes implicações em todo o mundo e é coerente com um dos Objetivos do Milênio: "reduzir para a metade, até 2015, a proporção de população sem acesso sustentável a água potável segura e a saneamento básico". Hoje, 884 milhões de pessoas no mundo não têm acesso a água potável segura e 2,6 bilhões de pessoas (40% da população mundial) não têm acesso a saneamento básico. Portanto, temos um longo caminho para colocar a resolução da ONU em prática.


No Brasil, há uma boa cobertura de distribuição de água tratada. Em relação ao saneamento, no entanto, os números são vergonhosos. Apenas 44,5% da população estão conectados a redes de esgoto -do esgoto coletado, somente 38% é tratado. Isso significa que menos de 20% da população têm acesso a esgoto tratado, o que implica no lançamento de grandes quantidades de material orgânico em nossos rios e no mar, no caso das cidades litorâneas.


Essa situação está muito bem refletida em um estudo produzido pela SOS Mata Atlântica, que avaliou a qualidade da água de 49 rios, córregos, ribeirões, represas, lagos e açudes pelo país, e classificou 25% deles como "ruim" e 75% como "regular".


Nenhum dos corpos de água avaliados recebeu a classificação "bom" ou "ótimo". As análises seguem padrões do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e foram realizadas em 11 Estados brasileiros entre janeiro de 2011 e março de 2012.


Se, por um lado, estamos contaminando os recursos hídricos e piorando a qualidade das águas, por outro, vemos serem aprovadas no Congresso Nacional mudanças no Código Florestal que podem afetar de forma irreversível a quantidade de água disponível para nosso consumo. A cobertura florestal dá uma essencial contribuição para a regulação do ciclo climático e para o regime das chuvas, além de ser fundamental para a preservação dos mananciais.


A poluição das águas provocada pela falta de coleta e de tratamento de esgoto pode ser revertida. Não é fácil, pois significa dobrar o volume de investimentos que vêm sendo feitos em coleta e tratamento de esgoto. Mas é ainda mais difícil recompor a cobertura florestal que podemos perder nas margens de rios e lagos e no entorno de mananciais. Seria como destruir as estações de tratamento já construídas.


MARINA SILVA escreve às sextas-feiras nesta coluna.


Fonte: Folha de SPaulo/Opinião