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Morre aos 68 anos o escritor italiano Antonio Tabucchi
26/03/2012

 

Ficcionista vivia com a mulher em Lisboa, onde estava internado com câncer

 


Expoente da literatura italiana, autor de "Afirma Pereira" foi o principal tradutor de Pessoa em seu país

DE SÃO PAULO

Antonio Tabucchi, um dos mais importantes escritores italianos contemporâneos, morreu ontem, em Lisboa, aos 68 anos, em decorrência de um câncer.


O autor estava internado no Hospital da Cruz Vermelha, na capital portuguesa, onde morava com a mulher e parceira de várias obras, Maria José de Lancastre.


Filho único de um vendedor de cavalos, Tabucchi nasceu em Pisa, a região da Toscana, em 24 de setembro de 1943, e estudou literatura em Paris na década de 1960.


Foi quando, ao ler uma tradução em francês de Fernando Pessoa, se apaixonou pela obra do poeta português. Acabou se tornando o responsável pela edição italiana da obra do autor português.


Também traduziu a coletânea poética "Sentimento do Mundo", de Carlos Drummond de Andrade, e o romance "Zero", de Ignácio de Loyola Brandão -que, censurado no Brasil, acabou saindo antes na Itália, em 1974.


Tabucchi lançou seu primeiro livro em 1975. Até o dia de sua morte, seus romances e ensaios foram traduzidos para 40 idiomas.


Entre suas obras mais conhecidas, estão "O Tempo Envelhece Depressa", lançada pela Cosac Naify em 2010, "Noturno Indiano" (Rocco, com nova edição prevista para setembro pela Cosac Naify), de 1984, e "Afirma Pereira" (Rocco), de 1994.


Essas duas últimas foram adaptadas ao cinema. A primeira foi dirigida pelo francês Alain Corneau ("Todas as Manhãs do Mundo"), enquanto "Afirma Pereira", com Marcello Mastroianni como protagonista, ganhou o título "Páginas da Revolução" e estreou no Brasil em 1996.


Crítico ferrenho de Silvio Berlusconi, o escritor cancelou duas vezes sua participação na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty): uma por motivo de saúde, em 2010, e a outra, no ano passado, em protesto contra a decisão do governo brasileiro de acolher o terrorista italiano Cesare Battisti.


Para Tabucchi, a decisão foi uma ofensa à única instituição italiana (a magistratura) que ainda resistia ao neofacismo (ou "fascismo fashion") de Berlusconi.


A atitude inconformista que sempre expressou, em jornais como o italiano "Corriere della Sera" e o espanhol "El País", dos quais era articulista, o acompanhou até o fim.


Em sua última coluna no jornal romano "La Repubblica", discutiu a atual política cultural italiana e o racismo no governo.


"A Itália é um país que nunca deixou de dar ao mundo a sua genialidade e a sua arte", escreveu. "Mas, enquanto a maldade e a ignorância estiverem prevalecendo, é difícil sentir orgulho da nossa recuperação."


Fonte: Folha de SPaulo/Ilustrada