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Brasileiro gosta ou não de ler?
11/06/2014

 

Durante o 2º Fórum do Espaço de Leitura, promovido pelo Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo (Fussesp), na semana passada, público e palestrantes debateram o tema Brasileiro Lê, em contraposição ao senso comum ‘brasileiro não gosta de ler’. Dados, pesquisas e estudos sobre os brasileiros leitores foram mostrados, entre eles o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf) e o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

Pesquisa de 2013, do Inaf, apontou que 65% dos entrevistados afirmaram gostar de ler para se distrair. Esse estudo revela o gosto pela leitura entre jovens de 15 a 24 anos mais frequente do que entre a população mais velha.

Alguns especialistas da área argumentaram que a era digital traz novas ferramentas – redes sociais, twitter, e-mails e sites de busca –, criando, assim, mais um canal para a leitura e a escrita, mas a pesquisa de 2013 do Pisa mostra piora no quadro, ao revelar que grande parte dos jovens leitores não é capaz de deduzir informações do texto e compreender nuanças da linguagem.

Essas foram questões norteadoras do fórum, realizado no auditório Tattersal, no Parque da Água Branca. Lá, no chamado Espaço de Leitura, oito quiosques repletos de livros ficam abertos permanentemente ao público infantil e adulto, com atividades diárias ligadas à leitura, desde a sua criação, em 2010. Mais de 20 anos atrás, nessa área existiam viveiros de pássaros, desativados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis – Ibama. Nesse espaço vem-se desenvolvendo a ação que oferece um acervo de livros variados para ser consultados pelos visitantes do parque e por grupos de instituições sociais cadastrados no Fussesp e atendidos no Espaço de Leitura.

Diariamente são promovidas atividades para oferecer ao público, além do acesso à leitura, auxílio para descobrir o prazer de ler por meio da oralidade da escrita, da observação e da interpretação.

Estímulo à leitura – No ano passado, o Espaço de Leitura criou, por meio do Instituto Poesis de Apoio à Cultura, o 1º Fórum com o tema Por que ler? – série de palestras e experiências reunindo quase 200 educadores. Lançada a semente, em sua segunda edição, o fórum juntou neste mês igual número de público, formado por educadores, estudantes, livreiros, gestores públicos e escritores.

Ganhou destaque a participação, entre vários palestrantes, de Marisa Lajolo, autora de O poeta do exílio e do volume infantil Monteiro Lobato livro a livro (Prêmio Jabuti); Gabriel Perissé, autor de mais de 20 livros relacionados à leitura e criatividade, ética, formação docente e didática, artigos e ensaios em revistas; além de Heloísa Prieto, autora de 55 obras de fábulas fantásticas, narrativas de suspense e encantamento.

Segundo Heloísa, incentiva-se a leitura expondo a criança ao livro, deixando-a absolutamente livre para escolher. “É um equívoco o adulto querer nortear a leitura infantil, decidir o que é bom e o que é ruim, dizendo este livro não serve, não é próprio para a sua idade”, afirma Heloísa. Outra coisa importante, de acordo com a escritora, é o livro-brinquedo. “Ele educa o olhar, a atenção. Em casa, devem ser respeitadas as leis do leitor: ler o que quiser, amar ou detestar um livro, ler o mesmo título várias vezes, começar pelo meio, não terminar, ler o fim antes...”

Gabriel Perissé apresentou o tema Ler o Mundo – reflexão sobre os pontos de encontro entre a literatura e a leitura e suas diversas potencialidades de “compreender um pouco melhor o que nos rodeia”. Para ele, a esperança é que houvesse reais estímulos à leitura; um deles viria da escola, com professores lendo, pensando e escrevendo. “O calcanhar de Aquiles da educação é a formação do professor”, acredita Perissé.

De bula a Dostoievski – O bate-papo com Zeca Baleiro, artista que transita por várias linguagens, teve mediação da escritora Carla Caruso, ganhadora do Prêmio Jabuti pelo livro Almanaque dos sentidos. Além de compositor, cantor, cronista e músico de MPB, Zeca é autor de Bala na agulha, Reflexões de boteco, Pastéis de memória e outras frituras e Vida é um souvenir made in Hong Kong.

Por quase duas horas, ele arrancou risos e aplausos da plateia ao falar da sua experiência com a leitura, iniciada em Arari, Maranhão, onde o pai tinha uma farmácia. “Arari é uma cidade com muita tradição em leitura, vivência importante para mim: manga no pé, histórias de assombração, acho que nem Monteiro Lobato teve experiência assim.” O pai, farmacêutico, conta Baleiro, lia de bula de remédio a Dostoievski. “Ele nos obrigava a ler, principalmente, literatura clássica infantil. A farmácia era um ponto de encontro de duplas de emboladas, repentistas, sanfoneiros cegos – tudo isso ajudou na minha formação. Quando, aos 14 anos, o professor pediu que eu lesse Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e o Estrangeiro, de Albert Camus, o mundo se transformou.”

Para a sócia-proprietária da Livraria Nobel no Mais Shopping, no Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, zona sul da capital, Solange Mazia, participar de fóruns tem sido uma experiência enriquecedora. Formada em administração de empresas, sempre gostou de ler, embora não tivesse acesso à leitura na infância. “Lia livros emprestados de uma vizinha. Conforme me saía bem na escola, ela me trazia livros. Foi dessa forma que tive contato com a leitura. Aos 9 anos li A divina comédia, de Dante Alighieri. Quando participo de encontros de leitura, aplaudo com entusiasmo.”

DOE, Executivo II, 11/06/2014, p. IV