Notícias

Inmetro pretende dificultar acesso de criança a baterias
14/06/2014

 

Produtos devem mudar abertura de compartimento de pilhas, diz instituto

 

Medida ocorre após campanha sobre riscos de ingestão de peças; menino ficou 50 dias com bateria no nariz

FABIANA FUTEMA
DE SÃO PAULO

O Inmetro vai propor às empresas brasileiras a adoção de mecanismos que dificultem a abertura do compartimento de pilhas e baterias de seus produtos --principalmente por parte de crianças.

A medida deve ocorrer após campanha mundial de conscientização sobre os riscos da ingestão acidental das baterias, especialmente as do tipo botão --modelo que se assemelha a uma moedinha.

Essas baterias estão presentes em produtos do dia a dia de crianças e adultos, como chave de carro, controle de portão, calculadora, balança eletrônica e até tênis infantis com solado piscante.

"Vamos nos reunir com os fabricantes para alertar sobre os riscos e sugerir que agreguem voluntariamente mecanismos de proteção que impeçam o acesso ao compartilhamento de pilhas e baterias", diz Paulo Coscarelli, diretor-substituto de avaliação da conformidade do Inmetro.

Se as empresas não adequarem seus produtos voluntariamente, o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) pode então partir para a regulamentação compulsória.

Ou seja, os fabricantes serão obrigados a mudar o sistema de abertura de compartimento de pilhas e de baterias de seus produtos.

"A ideia é que os fabricantes possam fazer modificações em seus projetos que dificultem a abertura desse compartimento. Hoje, se um controle cai no chão e a pilha se solta, pode ser facilmente engolida", diz Coscarelli.

CAMPANHA

Na próxima semana, o Brasil se juntará a outros países no lançamento de uma campanha mundial de conscientização sobre os perigos da ingestão dessas baterias.

Nos EUA, por exemplo, são relatados cerca de 3.500 casos por ano de ingestão de pequenas baterias por crianças.

Uma vez engolidas, elas podem ficar presas na garganta, causar queimaduras graves e até levar à morte.

O Inmetro diz que ainda não existem estatísticas sobre esses casos no Brasil.

Levantamento da Secretaria da Saúde divulgado em 2012 apontava que o Estado de São Paulo tinha cerca de 20 mil casos de retirada de objetos estranhos por ano.

As crianças de um a quatro anos de idade eram as principais vítimas, representando cerca de 26% dos atendimentos. Os objetos mais comuns, segundo o estudo, eram as moedas e pilhas.

O índice se relaciona com o de intoxicação. No ano retrasado, a secretaria contabilizava que três crianças eram internadas por dia devido à ingestão de substâncias tóxicas. As corrosivas, como as contidas em pilhas, correspondiam a 9,4% dos casos.

NO NARIZ

Neste ano, um menino de dois anos de Goiânia chegou a ficar por 50 dias com uma bateria no nariz. O garoto foi atendido seis vezes no pronto-socorro até os médicos identificarem o produto.

Antes, foi diagnosticado com resfriado, sinusite, virose. O material interno da bateria vazou e causou lesões no septo nasal do garoto, que só poderá ser reconstruído quando ele tiver 16 anos.

Coscarelli diz que um dos objetivos da campanha também é fazer um alerta para os pais e médicos, que ainda desconhecem os sintomas provocados pela ingestão de uma bateria. "Os sintomas apresentados pela criança, como febre e dor de estômago, podem ser facilmente associados a resfriados, viroses ou alergias", afirma.

A campanha, que no Brasil terá a parceria da ONG Criança Segura, também será lançada na União Europeia, nos EUA e em outros países.

Folha de S. Paulo