Notícias

Transplante mais brando cura anemia falciforme
02/07/2014

 

Experimento realizado nos EUA não destrói completamente a medula do paciente

 

No Brasil, transplante de medula para tratar a doença ainda não foi regulamentado pelo Ministério da Saúde

FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO

Um experimento feito nos EUA com um forma menos agressiva de transplante de medula óssea para o tratamento da anemia falciforme grave em adultos teve uma taxa de sucesso de quase 90%. Os resultados foram publicados nesta quarta-feira (2) na revista científica "Jama".

A anemia falciforme é a doença genética com maior prevalência no Brasil. Ela atinge mais a população negra e é causada por uma alteração genética na hemoglobina, proteína que dá a coloração avermelhada ao sangue e ajuda no transporte de oxigênio pelo corpo.

Essa alteração faz com que as hemácias --glóbulos vermelhos do sangue-- assumam a forma de foice. As células deformadas se tornam rígidas e dificultam a circulação sanguínea.

O transplante é um procedimento indicado apenas para as formas mais graves da anemia falciforme --em torno de 20% dos casos-- e é a única cura conhecida para a doença.

O procedimento tradicional destrói completamente a medula óssea do paciente por meio da quimioterapia para que a pessoa receba a nova medula. Apesar da alta taxa de cura (95%), é um procedimento arriscado em pacientes já comprometidos pela doença.

"É difícil prever a evolução da doença e as complicações vão se somando com a idade, o que torna o transplante arriscado para adultos", diz Belinda Simões, hematologista da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.

Já o novo procedimento usa doses menores de químio e imunossupressores e doses maiores de células-tronco do que a terapia tradicional.

O estudo americano durou quase dez anos e envolveu 30 pacientes adultos que tinham complicações decorrentes da doença --26 ficaram livres da doença e 1 morreu.

Simões diz que o estudo é importante porque mostra que, mesmo utilizando doses baixas de quimioterapia, é possível que uma nova medula óssea se desenvolva.

Como no experimento feito nos EUA a medula do paciente não é completamente destruída, parte dela convive com a medula do doador.

Por isso, ainda é preciso avaliar se essas medulas compartilhadas continuarão funcionando corretamente ou se a medula "doente" vai prevalecer sobre a transplantada, o que levaria ao retorno da anemia falciforme, explica Luis Fernando Bouzas, diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea do Inca (Instituo Nacional de Câncer).

NO SUS

O transplante para o tratamento da anemia falciforme ainda é experimental no Brasil e não é feito pelo SUS.

"Estamos esperando a portaria que regulamenta o transplante ser publicada. O último pedido foi enviado no final de 2012, mas até agora não houve nada", diz Belinda Simões. Nos EUA e na Europa o procedimento é autorizado e cerca de 1.200 transplantes já foram realizados.

No estudo americano, o número de hospitalizações dos pacientes caiu de 14 por ano (um ano antes do transplante) para 1 (três anos após ele).

"Esse dado é importante porque mostra que, apesar dos altos custos do transplante, no médio prazo há economia, com a diminuição das hospitalizações, além de melhora na qualidade de vida do paciente", diz Simões.

Bouzas também é favorável à inclusão do transplante no SUS, mas adverte que os riscos do procedimento devem ser bem avaliados.

"No caso de transplante convencional, a taxa de mortalidade no primeiro ano gira em torno de 30% a 40% dos pacientes", diz.

O Ministério da Saúde afirmou que está concluindo as análises técnicas e de impacto orçamentário para incluir o transplante de medula óssea para anemia falciforme no SUS o mais breve possível.

Folha de S. Paulo