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Pesquisadores criam armas contra mosquito da dengue
23/07/2014

 

Grupos da UFMG e da USP estão testando tecnologias contra o Aedes aegypti

 

Equipe mineira criou coquetel que mata as larvas do mosquito; paulistas desenvolveram sistema de captura

REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Grupos de pesquisa da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e da USP de São Carlos estão testando com sucesso tecnologias inovadoras e de custo relativamente baixo que podem se tornar armas contra o mosquito da dengue.

A equipe mineira desenvolveu um coquetel químico que não parece trazer riscos para o ambiente e a saúde humana, mas que, se colocado na água onde estão as larvas do Aedes aegypti, impede que elas comam ou respirem.

Cientistas da computação da USP, por sua vez, criaram uma armadilha inteligente que pode ser sintonizada para capturar os mosquitos e deixar insetos inócuos em liberdade.

O químico Jadson Belchior, da UFMG, prefere não revelar a composição do produto antimosquito que desenvolveu junto com seus colegas porque a equipe ainda aguarda a concessão da patente do invento. "O que posso dizer é que se trata de um produto abundante, amplamente utilizado pelo ser humano e que inclusive faz parte do nosso metabolismo", disse à Folha.

O produto está sendo testado em duas "embalagens". Na primeira, ele é incorporado a tijolos porosos, que flutuam na água e podem ser colocados onde as larvas do mosquito costumam viver, como caixas d'água. A segunda versão é aplicada em tecidos, que podem recobrir c alhas, outro local de acúmulo de água.

Em ambas as versões, o produto antilarva é liberado após uma reação que necessita da presença da luz solar e da água. Nos testes, os pesquisadores verificaram que, por ficar na interface entre o ar e a água, a substância atrapalha a respiração das larvas.

Além disso, o produto destrói a matéria orgânica da qual se alimenta a fase larval do mosquito. "Vimos que o produto é capaz de reduzir drasticamente o nascimento das larvas. E as que nascem acabam morrendo antes de virar mosquitos", diz.

A equipe agora espera a aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para o produto e um acordo com uma empresa para a fabricação em escala comercial. Belchior estima que o gasto para cobrir a superfície de uma caixa d'água de mil litros com os tijolos flutuantes seria de R$ 30.

ZUMBIDO

O bater das asas dos mosquitos é o responsável por gerar o insuportável zumbido dos insetos, mas também ajudou a equipe do ICMC (Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação) da USP de São Carlos a bolar sua armadilha inteligente.

Durante temporada como pesquisador visitante na Universidade da Califórnia em Riverside, Gustavo Batista, coordenador do projeto, chegou à ideia de tentar identificar espécies de insetos com base na frequência de batidas de suas asas.

A partir daí, a equipe chegou a um sistema que envolve um laser que "varre" determinada área. Quando o inseto voa na frente do laser, a passagem da luz é interrompida, e a frequência das batidas pode ser interpretada por um circuito eletrônico.

Com isso, é possível saber qual inseto passou voando por ali, com precisão superior a 90%.

Isso já seria suficiente para usar a tecnologia como ferramenta de monitoramento. Mas também dá para adaptá-la para capturar os insetos.

Para isso, os pesquisadores usam uma rede fechada que atrai o mosquito. Ao entrar na rede e ser identificado pelo laser, o inseto é empurrado para um papel adesivo.

A vantagem do sistema, com custo estimado de R$ 30 por armadilha, é que ele poderia ser sintonizado para diferentes espécies de insetos --de vetores de doenças humanas a pragas agrícolas. A pesquisa tem apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Folha de S. Paulo