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Perda de animais já é tão grave quanto o desmate, diz estudo
25/07/2014

 

Desde 1970, populações de vertebrados encolheram 30%, de invertebrados, 45%

 

REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O desmatamento é uma ameaça ambiental grave, obviamente, mas o "desfaunamento" --o sumiço de animais, mesmo em matas aparentemente preservadas-- é um fenômeno igualmente perigoso e cada vez mais comum, alerta um novo estudo.

O trabalho, publicado na revista "Science", é assustador porque diz respeito não apenas a animais grandes, que são alvo de caça desde tempos imemoriais, mas também a invertebrados, como borboletas ou besouros.

As populações de invertebrados que os cientistas monitoraram regularmente sofreram declínio médio de 45% dos anos 1970 para cá. No caso dos vertebrados (de mamíferos a peixes), houve queda populacional média de 30%.

"Em geral, no caso de invertebrados, que são difíceis de monitorar, esses dados na verdade se referem a espécies que eram bastante comuns. Os números provavelmente são uma subestimativa", contou à Folha o ecólogo Mauro Galetti, da Unesp de Rio Claro (SP), coautor do estudo.

Para a equipe, a preocupação com a extinção de certas espécies individuais, em geral as mais carismáticas, acabou obscurecendo a diminuição drástica da população de um número muito maior de animais, ou seu sumiço em parte da distribuição geográfica original dos bichos.

É um fenômeno insidioso, pois ocorre inclusive em áreas naturais protegidas por lei e aparentemente intactas.

"São lugares na mata atlântica, por exemplo, onde tem pouco ou nenhum bicho", diz Galetti. "Há muitos projetos de restauração florestal na mata atlântica, com plantio de corredores ecológicos, mas restaurar fauna é muito mais complicado."

Os motivos variam de espécie para espécie, mas a caça (ilegal no Brasil) continua tendo um papel-chave no caso dos vertebrados maiores, como antas, veados e aves de grande porte.

Por outro lado, o empobrecimento do habitat, a competição com espécies invasoras, alterações climáticas e micróbios causadores de doenças são os flagelos que mais dizimam bichos menores, como anfíbios.

EFEITO DOMINÓ

Anfíbios são um exemplo da razão pela qual "desfaunar" florestas é algo que afeta os humanos. Sapos e rãs estão diretamente ligados à qualidade da água, já que os bichos "limpam" de matéria orgânica os cursos d'água.

Aves, morcegos e abelhas, são polinizadores, garantindo o sucesso de lavouras. Insetívoros controlam pragas agrícolas, herbívoros evitam que a vegetação saia de controle e grandes predadores controlam a população de diversos outros animais.

A remoção dessas peças do tabuleiro ecológico tem efeitos imprevisíveis, numa espécie de efeito dominó.

Folha de S. Paulo