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Agosto de 1954: 60 anos de uma tragédia brasileira
05/08/2014

 

Agonia e morte do presidente Getúlio Vargas

 

Ao completar 60 anos dos fatos que culminaram com o suicídio do presidente Getúlio Vargas, a Agência Assembleia e o Diário da Assembleia publicam, a partir desta segunda-feira, 4/8/2014, uma série de textos que relatam a sequência dos eventos que ocorreram naqueles negros dias de agosto e que enlutaram o Brasil. Tentaremos narrar cronologicamente, seguindo a mesma data, porém seis décadas depois, esses acontecimentos tão marcantes para a história do nosso país.

Antônio Sérgio Ribeiro*

Quinta-feira - 5 de agosto de 1954 - O atentado da rua Tonelero

Naquele amanhecer do dia 5, a nação brasileira acordava sobressaltada pela notícia vinda da então Capital Federal, Rio de Janeiro, do atentado ocorrido no início da madrugada do qual foi vítima o jornalista Carlos Lacerda, ferindo mortalmente o major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz.

Carlos Lacerda, então diretor do jornal “Tribuna de Imprensa”, havia participado, na noite anterior, de uma conferência no Externato São José, localizado na rua Barão de Mesquita, 164, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. A convite da Associação dos Antigos Alunos, Lacerda foi recebido por mais de mil pessoas, muitas sem lugar para sentar, que lotavam o teatro do externato, sendo aplaudido de pé demoradamente.

A palestra foi aberta pelo presidente da Associação, que exaltou a figura do homem de imprensa e do homem público, “que representam, numa só pessoa, um exemplo para a nossa mocidade tantos anos falha de exemplos...”.

A conferência começou um pouco antes das 21 horas, e o palestrante apresentou o problema das “tensões” no mundo moderno, falando sobre as lutas entre as classes, a luta entre a produção e consumo, salários e lucros, planejamento e espontaneidade, interesses privados e coletivos, democracia e autoridade, sempre em relação ao Brasil, criticando o governo, que com seu dirigismo impedia que se atingisse soluções para qualquer problema. Era constantemente interrompido pelas palmas. Colocou-se à disposição do público para servir de “paliteiro da curiosidade”, respondendo perguntas. Às 23 horas, terminou a conferência e o debate, por sugestão de Lacerda, para que os “donos da casa”, os irmãos Maristas, pudessem se recolher, porque acordavam cedo.

Na sede da Associação dos Antigos Alunos, foi-lhe oferecida uma flâmula, e no livro de ouro o jornalista deixou o registro de sua visita. Passava da meia-noite, quando Carlos Lacerda, acompanhado de seu filho Sérgio, de 15 anos, do jornalista da Tribuna da Imprensa Fidélis dos Santos Amaral Neto e do major aviador Vaz, deixou o São José, ainda debaixo de palmas. No minúsculo automóvel de Rubens Vaz, um modelo inglês da marca Singer, a mesma da famosa fábrica de máquinas de costura, dirigiram-se para a Zona Sul do Rio de Janeiro. Primeiro deixaram, na Urca, Amaral Neto, e depois rumaram para Copacabana, onde morava Lacerda. Aos 40 minutos da madrugada do dia 5 de agosto, chegaram ao edifício Albervânia, situado na rua Tonelero, 180 (e não Toneleros, conforme alguns erroneamente, até hoje, insistem em escrever. A Passagem de Tonelero remonta à guerra havida contra o ditador argentino Juan Manuel de Rosas, e o caudilho uruguaio Manuel Ceferino Oribe y Viana, quando no dia 17 de dezembro de 1851, uma divisão naval brasileira, sob o comando do almirante John Pascoe Grenfell, comandante-em-chefe das forças navais brasileiras, debaixo do fogo de 16 baterias de grosso calibre, conseguiu forçar a passagem no rio Paraná e conduzir para o teatro de batalha forças brasileiras, uruguaias e argentinas, estas rebeladas contra o seu mandatário, culminando com a derrota e a deposição de Rosas).

Sem pontaria

Enquanto Lacerda conversava com Vaz, seu filho foi chamar o garagista do edifício, cuja porta estava fechada. Quando Sérgio voltou, os dois ainda conversavam e, logo depois de se despedirem do major, dirigiram-se para a garagem. Ao se voltar para dizer adeus ao major, viu um homem com chapéu desabado, um mulato, atravessar a rua. Pouco antes, estava parado do outro lado, andou por trás do carro e ficou a uns três metros. Segundo depoimento do jornalista, ele teria aberto o paletó, sacado sua arma e atirado. Portando um revólver de calibre pequeno, Lacerda revidou e atirou também, tentando proteger seu filho em um muro existente entre o seu prédio e o vizinho. Mas, assustado, o rapaz voltou e agarrou-se ao pai. Nessa hora, sentiu pesar seu pé esquerdo, uma dor violenta, olhou e viu um filete de sangue saindo pelo cordão do sapato.

Capengando, conseguiu entrar no prédio pela garagem em busca de socorro e salvar seu filho Sérgio. Saindo pela porta da frente, viu o criminoso há uma certa distância, na esquina de sua rua com a Paula Freitas, e novamente atirou em direção ao homem. Mas, sem pontaria e com uma arma que não tinha alcance, pouco pode fazer. Uma bala acertou a biblioteca do Barão de Saavedra, que morava na esquina.

O vigilante municipal nº 1.120, Sálvio Romeiro, de 27 anos, morador no bairro de Olaria, servindo no 5º Distrito de Vigilância de Copacabana, e que estava na altura do nº 89 da própria rua Tonelero, ouvindo os disparos na direção da rua Hilário Gouveia, subiu correndo a via e ainda não tinha dado muitos passos quando percebeu um homem correndo em direção contrária à sua. Tentou detê-lo, mas o homem disparou dois tiros, um dos quais acertou a perna esquerda do vigilante. O fugitivo ainda atirou mais duas vezes, errando-os. Em seguida, tomou um automóvel, que arrancou violentamente. Neste instante, embora caído, acertou um tiro no porta-malas do carro, que em fuga entrou pela rua Paula Freitas.

Carlos Lacerda, quando olhou para o chão, viu o major Rubens Florentino Vaz caído no meio fio, atrás do seu veículo. Tentando ajudá-lo, gritou por socorro. Ao ouvirem os disparos, três jornalistas do “Diário Carioca”, Deodato Maia, Otávio Bonfim e Armando Nogueira, que conversavam em um automóvel parado na porta do edifício do último, quase em frente ao prédio de Lacerda, rumaram em velocidade a um botequim na esquina próxima para avisar a redação do jornal e a polícia, retornando para socorrer as vítimas. Era 00h45min.

Antecedentes

A situação econômica do Brasil, desde a catastrófica presidência do então general Eurico Gaspar Dutra (1946/1951), era lastimável, com a espiral inflacionária e o custo de vida em alta, chegando alguns gêneros a subir 300%. Apesar de a legislação determinar o aumento do salário mínimo, Dutra em seus cinco anos de governo não o fez nenhuma vez, deixando de fato uma verdadeira herança maldita ao sucessor, Getúlio Vargas.

Outro grave problema enfrentado pelo governo foi o chamado Manifesto dos Coronéis, em que os militares protestavam contra a falta de recursos para o Exército e os baixos salários de seus integrantes e a proposta de elevação do salário mínimo para os trabalhadores. Esse fato resultou nas demissões dos ministros general Ciro do Espírito Santo Cardoso, da Guerra, e João Goulart, do Trabalho.

Getúlio Vargas, apesar de ter demitido Jango, manteve o índice proposto por este. Em 1º de maio de 1954, tentou recompor o salário mínimo dando um aumento de 100%, mas os empregadores recorreram dessa medida na justiça, chegando até o Supremo Tribunal Federal, que decidiu pela legalidade do ato do presidente Vargas no início de julho de 1954. Isso acabou ocasionando uma grande instabilidade social e insatisfação entre os trabalhadores.

O descontentamento da população era enorme e a oposição aproveitava todas as oportunidades para atacar o governo. Entre os grandes opositores do regime estava o jornalista Carlos Frederico Werneck de Lacerda, conhecido também por questões óbvias como “corvo”, ex-comunista de carteirinha, que havia se tornado um radical da extrema direita no Brasil (quando governador do antigo Estado da Guanabara, foi o pivô da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, e um dos cabeças no golpe militar que depôs o presidente João Goulart em 1964, mas quatro anos depois, em 1968 pagaria caro por suas atitudes: teve seus diretos políticos cassados por 10 anos pelos próprios militares, que ele havia apoiado); sendo candidato a deputado federal no pleito de 3 de outubro de 1954, aproveitava-se de tudo que lhe desse palanque, não medindo as palavras em programas de rádio e televisão. Quando da indicação de Getúlio Vargas para candidato à presidência da República, nas eleições de 1950, assim escreveu na “Tribuna de Imprensa”, de 1º de junho daquele ano: “O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

Em 1949, havia fundado o jornal Tribuna da Imprensa, cuja finalidade, a partir da posse de Getúlio Vargas na presidência da República, era atacar o governo constituído e passar a ser o porta-voz do partido da direita e da burguesia brasileira, a União Democrática Nacional, a UDN.

No período em que antecedeu o atentado de 5 de agosto de 1954, o maior prazer de Lacerda era atacar o jornalista Samuel Wainer e seu jornal, o Última Hora, pelo empréstimo que havia recebido do Banco do Brasil, apesar de seu próprio jornal também ter sido beneficiado com dinheiro do governo. Eram ainda seus alvos o ex-presidente do Banco do Brasil Ricardo Jafet, o ex-ministro da Agricultura João Cleofas, o governo do Estado do Rio, o presidente Getúlio Vargas e, principalmente, o filho deste, o deputado federal Lutero Vargas. Com manchetes em seu jornal, digno representante da imprensa marrom, atacava impiedosamente Lutero, que moveu um processo crime contra Carlos Lacerda, que, por sua vez, não perdendo a oportunidade, assim declarou perante o juiz de Direito que iria julgar a ação: “Pessoalmente, nada tenho contra o senhor Lutero Vargas; quanto ao deputado Lutero Vargas tenho a declarar que o considero um ladrão!”.

Suas acusações ao filho do presidente culminaram com uma manchete com letras garrafais de meia página na capa da edição de seu jornal de 3 de agosto de 1954, com foto, afirmando: “Lutero apontado à nação como sonegador”. A sorte estava lançada.

Major Vaz

O major aviador Rubens Florentino Vaz, de 32 anos, servia nas Rotas Aéreas do Departamento de Aviação Civil (DAC), do Ministério da Aeronáutica. Era casado com Lygia de Figueiredo Vaz e tinha quatro filhos menores - Maria Cristina, Nilton, Ronaldo e Rogério. Em 1º de abril de 1940, iniciou seu curso na Escola Militar do Exército. No ano seguinte, com a criação do Ministério da Aeronáutica, solicitou transferência para essa arma. Foi declarado aspirante em 1943, tendo realizado curso de tática aérea, de comunicações, inclusive com especialização nos Estados Unidos. Foi três vezes condecorado, era detentor das medalhas: “Cruz da Aviação”, por ter feito patrulhamento aéreo durante a guerra; “Campanha do Atlântico Sul”, pelo esforço de guerra; e outra concedida pelo governo dos Estados Unidos pelos serviços prestados durante o conflito mundial.

Desde a agressão física sofrida por Lacerda em 1948, na porta da rádio Mayrink Veiga, vários oficiais da Aeronáutica faziam as vezes de seguranças. Naquele 4 de agosto de 1954, era a vez de o major Gustavo Borges acompanhar Carlos Lacerda, mas em virtude da necessidade de realizar um voo para completar as horas determinadas aos aviadores, o major Vaz o substituiu naquela noite, fazendo um favor ao colega. Rubens Vaz foi socorrido por Carlos Lacerda e transportado para o Hospital Miguel Couto em um táxi. O major pouco depois expirava no colo de Lacerda, que ia no banco de trás do veículo. Chegando ao hospital, ficou constatada sua morte e seu corpo foi transportado para a capela. Ao saber do ocorrido, o tenente-brigadeiro Eduardo Gomes foi a primeira autoridade a chegar e inteirar-se do estado do amigo, que estava sendo medicado, descendo depois para ver o corpo de seu companheiro de arma. Afirmou a imprensa: “A honra da Nação exige que o crime seja apurado”.

Eduardo Gomes pleiteou a realização da autópsia no próprio hospital, mas foi informado pelo diretor que não havia condições de fazê-la ali e sim na sede do Instituto Médico Legal. O brigadeiro resolveu acompanhar o corpo em uma ambulância em companhia do senador da UDN do Distrito Federal, Hamilton Nogueira.

A autópsia, realizada no IML pelos médicos Alves Pacheco e Newton Sales, constatou que Rubens Vaz havia sido alvejado com dois tiros por uma arma calibre 45, tendo uma das balas entrado no peito pelo lado esquerdo, perfurando o coração e saído pela região lombar. A outra, também transfixante, penetrou na região escapular esquerda, atravessando o pulmão, o coração e saindo pela região esternal direita. O corpo do major apresentava, ainda, uma escoriação na coxa, proveniente da queda após ter sido baleado.

O ministro da Aeronáutica, brigadeiro Nero Moura, foi acordado ainda de madrugada em sua residência na Base Aérea do Galeão, na Ilha do Governador, e avisado sobre o atentado e a morte de seu subordinado. Foi diretamente à chefatura de polícia no centro da cidade e, inteirado dos fatos, ligou para seu colega da Justiça, Tancredo Neves, que imediatamente foi ao seu encontro. Às 6 horas, Tancredo, em nota oficial, informava à nação que os responsáveis pelo crime seriam presos e punidos.

Às 9:15 da manhã, o corpo chegou na sede do Clube da Aeronáutica, no centro do Rio de Janeiro, para ser velado, sendo rezada a missa de corpo presente, na presença de mais de mil pessoas, na sua maioria militares. Entre os presentes, compareceram o ex-presidente marechal Eurico Gaspar Dutra, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro José Linhares, o cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, D. Jayme de Barros Câmara, ministro da Justiça, Tancredo Neves, os três ministros militares, brigadeiro Nero Moura, da Aeronáutica, general Zenóbio da Costa, da Guerra, almirante Renato Guillobel, da Marinha, representando o presidente Getúlio Vargas o chefe da Casa Militar general Aguinaldo Caiado de Castro, senadores, deputados, altas patentes das Forças Armadas e integrantes da sociedade civil. Às 16h40min, com o caixão envolto por uma bandeira nacional, saiu o cortejo, acompanhado por aproximadamente 5 mil pessoas, em direção ao Cemitério de São João Baptista, em Botafogo. Percorrendo a avenida Rio Branco, alguns queriam que passasse em frente ao Palácio do Catete, mas o brigadeiro Eduardo Gomes, usando a sua autoridade, não permitiu, e o trajeto foi mantido pela avenida Beira Mar.

Chegando ao cemitério, às 18h40min, dois pelotões da Força Aérea fizeram as honras de estilo, em seguida uma banda da corporação tocou a marcha fúnebre. Carlos Lacerda compareceu ao sepultamento com o pé engessado, sendo amparado por dois policiais da Aeronáutica. Já era noite quando o corpo foi encomendado pelo capelão militar e um corneteiro fez o toque de silêncio. Apesar de não ter sido acordado que se fizesse discurso, um jornalista vindo de São Paulo, com a voz embargada, iniciou a sua fala, no que foi seguido por diversos oradores.

A versão do motorista

Ainda na madrugada, entre 02h30min e 03h00min da madrugada, apresentava-se no 4º Distrito Policial do Catete, o motorista de praça Nelson Raimundo de Souza, prontuário 112.735 do Estado do Rio, que residia na rua Silveira Martins, 108, e que conduzia o carro Studebaker, preto, ano 1940, placa 5-60-21. Foi recebido pelo guarda civil 984 e, por ele, apresentado ao comissário Jorge Martins, que o levou para o 2º DP, em Copacabana.

Na polícia, contou ao delegado Jorge Pastor de Oliveira que estava no centro e que um passageiro mandou seguir para Copacabana, parando em diversos lugares pelo caminho. Ao chegar ao destino, mandou que parasse na esquina das ruas Tonelero com Hilário de Gouveia e que o esperasse. O motorista ficou fumando até que, pouco depois, ouviu uns tiros. Procurou saber o que ocorria, quando o passageiro se aproximou correndo, com um revólver na mão, e entrou no carro, na frente, ao seu lado. Encostando o revólver nas suas costelas, mandou que o motorista tocasse para o centro da cidade. Nesse momento, o carro foi alvejado pelo vigilante municipal, mas não no porta-malas, como pensava, e sim na coluna lateral. Foi até a esquina das ruas México com Santa Luzia, o assassino saltou sem pagar e desapareceu. Nelson ficou rodando, até que encontrou um companheiro a quem narrou os fatos e que o aconselhou a se apresentar à polícia.

O exame pericial no automóvel utilizado no crime, o Studebaker, foi realizado em um posto de gasolina “Esso”, situado na rua Barata Ribeiro esquina com a Siqueira Campos, em Copacabana, pelo pessoal do Gabinete de Exames Pereciais (GEP). Nelson foi detido e colocado incomunicável pelo titular da delegacia, pois vários pontos de seu depoimento eram obscuros. O ministro da Justiça, Tancredo Neves, e o chefe de polícia, general Armando de Moraes Âncora, empenhavam-se pessoalmente nos trabalhos de pesquisas e nas investigações. Na Aeronáutica, o ministro Nero Moura designava o coronel aviador João Adil de Oliveira, do Estado Maior de seu ministério, para acompanhar o inquérito policial.

No Congresso Nacional, com as galerias repletas, a repercussão da emboscada foi enorme. Diversos parlamentares usaram a tribuna, tanto do Senado quanto da Câmara Federal, em acaloradas manifestações que duraram quatro horas. Comissões foram designadas para comparecer ao enterro do major e para visitar Lacerda em sua residência.

Um projeto de lei foi apresentado na Câmara dos Deputados para amparar a viúva e os quatro filhos do major. O atentando a Carlos Lacerda e a morte de Rubens Vaz indignou e revoltou toda a nação. Em São Paulo, os estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco passariam a usar um alfinete de lapela com a letra R, que significava renúncia. O presidente Getúlio Vargas foi acusado, ainda de madrugada, por Carlos Lacerda como o único responsável pelo atentado, passando a ser o único e exclusivo réu.

Manifestações de apoio chegavam de várias regiões do Brasil e também do exterior. A Sociedade Interamericana de Imprensa, sediada nos Estados Unidos, enviou mensagem ao jornalista brasileiro Carlos Lacerda, na qual se solidarizava com ele condenando o atentado o vitimara.

Convalescendo em um quarto do Hospital Pedro Ernesto, o guarda municipal Sálvio Romeiro declarou que não havia conseguido anotar a placa do veículo no qual fugira o atirador (autor do atentado contra Lacerda) e que não era capaz de dizer qual era a sua marca, mas que atirara contra ele. Informou ainda que, quando estava sendo socorrido por uma radiopatrulha, um homem aproximou-se do tenente que lhe prestava os primeiros atendimentos e disse ter ouvido os tiros e anotado o número da placa do carro, que passara por ele em alta velocidade. Naquele momento fora entregue ao oficial um papel com a placa 5-60-21. Dessa maneira, a polícia poderia chegar ao motorista e ao proprietário do automóvel.

Nesse dia, os jornais divulgaram em primeira página que um empregado do aeroporto Santos Dumont, na madrugada do crime, vira quando de um automóvel em disparada foi atirada na avenida Beira-Mar uma arma. Dirigindo-se ao local, o aeroportuário a recolheu - pois a pistola havia caído nas pedras e não no mar - e a entregou à polícia.

Investigações e depoimentos

O ministro da Justiça, Tancredo Neves, mostrava-se satisfeito com o trabalho das autoridades policiais e afirmou que não pouparia esforços para a elucidação do brutal atentado. A ideia inicial era que um desembargador presidisse o inquérito, pois teria total isenção no caso, mas a Constituição Federal não permitia tal procedimento e assim não pôde ser concretizada.

Segundo declaração prestada no 2º Distrito Policial do Catete, o pai do motorista Nelson Raimundo de Souza, ao ser ouvido pelas autoridades, afirmou não acreditar que seu filho fosse inocente no atentado, já que era muito conhecido no mundo do crime. Revelou ainda, para surpresa de todos, que ele havia sido alcaguete da polícia política do Estado do Rio. Com um pai desses, para que inimigos?

À noite, apesar da manifestação contrária do ministro da Aeronáutica, realizou-se no Clube da Aeronáutica, sob a presidência do brigadeiro Ignácio Loyola Daher, uma reunião com 400 oficiais. Além dos associados, compareceram também integrantes da Marinha e do Exército. Entre os oradores, estava o major Gustavo Borges, que havia sido substituído pelo seu colega major Rubens Florentino Vaz na missão de acompanhar Carlos Lacerda ao evento no Externato São José. Borges falou em nome de uma comissão de oficiais da Aeronáutica, afirmando inclusive que “apurasse tudo até o fim, até onde a polícia não sente coragem de ir”, sendo aplaudido várias vezes pelos presentes.

Ao final da reunião, foi aprovada e distribuída nota que solicitava uma assembleia extraordinária para tratar das homenagens póstumas e de amparo à família do saudoso companheiro Vaz, sendo que a diretoria do Clube, presente à reunião, de imediato acatou a decisão. Por determinação do ministro da Guerra, general Zenóbio da Costa, um Batalhão de Guardas e o Batalhão de Polícia do Exército permaneceram de prontidão durante o período da reunião, com o intuito de evitar possíveis agitações.

Das 16h45 às 23h, Carlos Lacerda prestou um minucioso depoimento ao delegado Jorge Pastor, titular do 4º Distrito Policial, que, ao chegar no prédio do jornalista, indagou ao porteiro se não havia ocorrido alguma altercação entre o jornalista e o major. No apartamento, com a presença do delegado e do promotor João Baptista Cordeiro Guerra - anos depois presidente do STF -, Lacerda confirmou os fatos que eram de conhecimento da opinião pública, afirmando: “os mandantes são tão poderosos que se dão ao luxo de indicar gente honrada para investigá-los”. E ainda manifestou sua descrença de que o inquérito produzisse consequências, se fosse, afinal, comprovada a responsabilidade de gente ligada ao Palácio do Catete no atentado.

Carlos Lacerda tinha prevenção contra o delegado, desde que ele começou a sustentar a tese de que o autor do crime era um homem só. Indignado, o representante do Ministério Público, Cordeiro Guerra, respondeu: “Minha presença aqui indica que estou disposto a levar o inquérito até o fim”. No final, o jornalista, não perdendo a oportunidade, reiterou o que já havia escrito no seu jornal: “apontou como principal responsável pelo bárbaro crime o sr. Getúlio Vargas”.

As investigações prosseguiam, às vezes sem nenhuma eficácia. Uma jovem de apenas 16 anos informou ao 2º DP que o autor do atentado foi seu tio, integrante da Polícia Especial. O delegado Pastor convocou a imprensa para que a moça fosse fotografada. À tarde, o delegado se dirigiu para o apartamento de Carlos Lacerda, em Copacabana, para que este fizesse o reconhecimento do policial. O jornalista se recusou e, irritado, afirmou que “aquilo era uma palhaçada, pois a polícia bem sabia que aquela pista era falsa”.

O crime da rua Tonelero continuava a ser o assunto do dia. Os vereadores da Câmara Municipal do Distrito Federal, de oposição ao governo, Lígia Lessa Bastos, Mário Martins, Frederico Trota, Paulo Areal, Aníbal Espinheira e Gladstone Chaves de Melo acusaram o governo pelo atentado.

Instado pela imprensa, o ministro da Guerra, general Zenóbio da Costa, afirmou: “exijo, em nome do Exército, que o criminoso seja descoberto e entregue à Justiça”. À noite, entraram de prontidão 30 mil homens do Exército sediados no Rio.

O Clube de Diretores e Proprietários de Jornais, reunido, condenou o inquérito policial pela forma como vinha sendo conduzido e exigiu, então, que um membro do clube acompanhasse as diligências. Foi relembrado, então, como justificativa ao pleito, o atentado ao jornalista José Eduardo de Macedo Soares, em 1945, quando o diretor do jornal Diário Carioca foi agredido por um policial que pertencia ao corpo de segurança presidencial. O inquérito não foi concluído e o crime ficou na impunidade. O indicado para integrar a comissão de inquérito foi o jornalista Elmano Cardim, diretor-proprietário do Jornal do Commércio.

O ministro Tancredo Neves, por determinação do presidente Getúlio Vargas, divulgou novo comunicado, no qual reafirmou: “Perante o país, especialmente a Aeronáutica, o compromisso de que se empenha, com o maior rigor, em apurar todas as responsabilidades pela deplorável ocorrência”, acrescentando “que não se deteria ante nenhuma consideração pessoal, social ou política pelos que o tenham inspirado ou dele participado... de forma a que ninguém se eximia de responsabilidades sob quaisquer pretextos, por mais excepcionais que sejam”.

Nelson Raimundo foi transferido das dependências do 2º DP, em Copacabana, para o quartel de Motomecanização da Polícia Militar, localizado na av. Salvador de Sá, no centro do Rio, sob o pretexto de que não se considerava seguro na delegacia, diante das ameaças de linchamento por parte dos oficiais da Aeronáutica. No quartel, foi confinado no alojamento dos sargentos.

À noite, o capitão João Ferreira Neves, professor da Escola de Polícia, com um tabuleiro de damas debaixo do braço, foi ao encontro de Nelson e o convidou a jogar. Puxando conversa com o preso, este foi falando de sua vida, que até como barbeiro já havia trabalhado. O capitão deu corda para que seu interlocutor falasse mais, e quando perguntou se ele era da polícia, surpreendido, ouviu que sim. Nelson Raimundo afirmou que era investigador da polícia do Estado do Rio de Janeiro. Indagado se conhecia alguns integrantes da Polícia Especial, ele citou o nome de um certo Valente. Depois de alguma insistência, o capitão perguntou quem ele transportava em seu automóvel no momento do atentado, e depois de pensar respondeu: Climério.

Nelson Raimundo de Souza confessou então que, na noite da véspera do crime, Climério Euribes de Almeida, membro da guarda pessoal do presidente da República, chamara-o pelo telefone e com ele contratara, por 20 mil cruzeiros, o transporte para o local do crime e a fuga posterior. Climério Naquela mesma noite haviam estado no Externato São José, na Tijuca, onde Lacerda realizava uma palestra. Seria lá o local do crime, mas ali era desfavorável em virtude do aglomerado de pessoas que se formou em torno de Carlos Lacerda. De lá seguiram para Copacabana, onde chegaram em torno da meia noite. Estacionou o carro em uma transversal, após o crime foi para o centro e depois retornou ao seu ponto em frente ao Palácio do Catete. Pouco depois, chegou Climério, vindo de Copacabana, a quem transportou para sua residência em Cachambi, zona norte do Rio de Janeiro.

Chegando ao seu destino, percebeu que o carro estava marcado à bala. Preocupado, resolveu apresentar-se na delegacia do Catete naquela mesma madrugada. Ainda na noite de sábado, o coronel João Adil de Oliveira telefonou para a residência oficial do ministro Nero Moura, no Galeão, informando em primeira mão que se encontrava no quartel da PM, no centro da cidade, e que “tinha o chofer aberto a boca e contado tudo”. Solicitou a presença do ministro porque “havia elementos da guarda pessoal do presidente envolvidos e temos que buscá-los agora no Catete”.

Quando o ministro da Aeronáutica chegou à sede da Motomecanização, Adil deu a entender que havia pessoas da família Vargas envolvidas na trama. No local, já se encontravam o brigadeiro Eduardo Gomes e o promotor Cordeiro Guerra. Nelson já tinha confessado que havia transportado o pistoleiro e sido contratado por gente da guarda pessoal, um tal de Climério. Como se tratava de um homem de dentro do Palácio e o ministro era de confiança do presidente, foi solicitado a Nero que fosse buscá-lo. Ele respondeu de pronto que era um problema exclusivo da polícia, assunto do Ministério da Justiça e pediu licença para chamar Tancredo Neves.

8 de agosto de 1954

Ainda não amanhecera quando foi tomado o depoimento de Nelson Raimundo, gravado em discos de acetato como prova e para resguardar da melhor forma possível a grave denúncia. Depois da ligação de Nero Moura, o ministro Tancredo Neves, ainda em sua casa, telefonou para o general Caiado de Castro, chefe da Casa Militar da presidência da República, informando-o dos novos fatos e convidando-o a comparecer ao Palácio do Catete, onde se encontrariam.

Tancredo Neves seguiu primeiramente em direção ao quartel, enquanto o general Caiado se comunicou por telefone com o chefe do pessoal do Palácio, major Ene Garcez dos Reis, e determinou-lhe que comparecesse imediatamente ao Catete, para onde também se dirigiria. A preocupação era a identificação do membro da guarda e que não se evadisse do local.

Ao saber da vinda de Tancredo, o brigadeiro Eduardo Gomes, segundo palavras do ministro Nero, “pulou fora...”. Ao chegar, o ministro da Justiça ouviu pessoalmente o que Nelson havia dito em seu depoimento, reafirmando o envolvimento de integrante da guarda pessoal do presidente da República no crime. Nero Moura, preocupado, sugeriu a Tancredo que comunicasse ao presidente Getúlio Vargas a grave denúncia. Como era ainda muito cedo, 5h da manhã, informou que iriam primeiro ao encontro do general Caiado de Castro na sede do governo.

Para o Palácio do Catete, rumaram Tancredo, Nero e o coronel Adil, onde se encontraram com o general Caiado em seu gabinete, que foi informado com maiores detalhes do depoimento de Nelson Raimundo. De imediato, mandou chamar o chefe da guarda pessoal do presidente, tenente Gregório Fortunato, que ao ser indagado pelo chefe da Casa Militar sobre a existência de alguém chamado Climério, com evasivas, respondeu: “Não, não. Agora não tem. Acho que já tivemos esse nome aqui. Ele já pertenceu à guarda, mas há muitos anos”. Adil fez algumas perguntas e descobriu que Gregório conhecia Climério e que era até seu compadre. Apesar de ter-se comprometido em apresentar Climério, Gregório, sabedor dos fatos ocorridos no quartel da PM, havia mandado o denunciado fugir. Alguém avisara o chefe da guarda.

Caiado afirmou a Garcez e a Gregório: “Temos que apanhar esse homem de qualquer maneira”. Desconhecendo o paradeiro de Climério, foi chamado o secretário da guarda João Valente de Sousa, que afirmou até desconhecer o seu endereço. Chegaram ao Palácio do Catete o chefe de polícia, general Armando de Morais Âncora, e o promotor Cordeiro Guerra. O general Aguinaldo Caiado de Castro mandou Gregório ligar para Climério e chamá-lo até o Palácio, mas, retornando, informou: “telefonei para minha comadre. Ele não está em casa...”

Logo após o atentado, Getúlio Vargas indagou ao chefe da guarda: “Gregório, alguém da guarda está envolvido nisso?” Ele respondeu que não. O presidente reiterou a pergunta e teve a mesma resposta.

Ao ter conhecimento das novas e graves notícias, o presidente mandou chamar novamente Gregório e lhe perguntou: “E tu, Gregório, não estas metido nisso?” Pela reação de Gregório Fortunato, que não respondeu olhando nos olhos e sim para chão, o presidente não guardou silêncio e manifestou claramente o seu pensamento: “Ninguém me convence de que não estejas nesse caso...”

O até então fiel escudeiro, envergonhado e profundamente humilhado, retirou-se do gabinete presidencial e comentou com seus companheiros o ocorrido. A fala sincera e firme do presidente o havia deixado magoado.

Às 9h, por convocação do presidente da República, teve início uma reunião com as autoridades presentes no Palácio. O governo fez um balanço da situação e, então, tranquilo, reconheceu que estava em condições de resistir a quaisquer investidas contra ele. Entre as importantes decisões tomadas estavam: a captura de Climério e a demissão do chefe de polícia, general Armando de Morais Âncora. Foi escolhido, então, em substituição, o coronel Paulo Torres, comandante do 3º Regimento de Infantaria, com sede em Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro. E por sugestão do ministro Tancredo Neves foi proposta a extinção da guarda pessoal, que foi aceita por Vargas.

O presidente Getúlio Vargas, consciente de tudo que passava a seu redor, declarou, após o término da reunião, já em seu gabinete, ao general Caiado, que daquele momento em diante poderia tomar todas as providências necessárias para o esclarecimento do crime, sem atender a formalidades nem a regulamentos, inclusive franqueando o Palácio às autoridades que ali quisessem realizar diligências. E afirmou ainda: “Prenda qualquer pessoa no Palácio que esteja envolvida no crime, sem mesmo me consultar”.

Depois da reunião, o coronel Torres, antes mesmo de ter sido empossado em seu novo cargo, declarou à imprensa: “Serei inflexível no cumprimento do dever... A ordem é entregar o criminoso à Justiça, seja ele quem for”.

O líder do governo na Câmara Federal, o deputado Gustavo Capanema, afirmou que a impunidade só seria prejudicial ao governo. E acrescentou: “O presidente Vargas me disse que esse assassino é o seu maior inimigo”.

Pelo país pronunciaram-se várias autoridades e partidos políticos: o governador de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez; o prefeito de Porto Alegre, Ildo Meneghetti; o governador de Pernambuco, Etelvino Lins; o ex-governador da Bahia, Otávio Mangabeira; o ex-prefeito de São Paulo, Prestes Maia; o prefeito de São Paulo, Jânio Quadros; o Partido Republicano (PR); o Partido Libertador (PL); e o Partido Democrata Cristão (PDC), todos pela imediata apuração das responsabilidades.

Pelos órgãos de imprensa, a população carioca foi convocada para participar de uma passeata de desagravo a Carlos Lacerda. Milhares de pessoas desfilaram pela rua Tonelero, residência do jornalista. Começou a vazar informações de que várias pistas do crime conduziam ao Palácio do Catete.

O presidente Getúlio Vargas convocou para o final da tarde uma reunião ministerial para analisar a situação. Em seguida, dirigiu-se para seu apartamento particular, localizado na avenida Rui Barbosa, atrás do Morro da Viúva, entre o Flamengo e Botafogo, para uma reunião com seus familiares, amigos e conterrâneos, entre eles o ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, e o deputado federal Flores da Cunha, para analisar a situação. Durante o encontro, afirmou categoricamente: “Carlos Lacerda levou um tiro no pé. Eu levei dois tiros nas costas”.

(*) Antônio Sérgio Ribeiro, advogado, pesquisador e funcionário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

DOE, Legislativo, 05/08/2014, p. 4
DOE, Legislativo, 06/08/2014, p. 3
DOE, Legislativo, 07/08/2014, p. 4
DOE, Legislativo, 08/08/2014, p. 3