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'Ciclovia é caminho sem volta', diz Haddad
28/08/2014

 

Vias, que ainda serão multiplicadas por dez, recebem elogios de especialistas e críticas de taxistas e motociclistas

 

Para petista, também é questão de saúde; 'paulista é rico, não quer chegar suado no trabalho', diz taxista

ARTUR RODRIGUES
CÉSAR ROSATI
DE SÃO PAULO

O prefeito Fernando Haddad (PT) disse nesta quarta-feira (27) que a expansão das ciclovias na capital paulista é "um caminho sem volta".

Após a criação de 30,6 km de vias desde junho, a gestão ganhou fama de "bike friendly" (amigável a bicicletas, em tradução livre).

No entanto, a iniciativa também despertou a ira de taxistas, motoboys e comerciantes, dando uma amostra da polêmica que causará até o fim de sua implementação.

Haddad pretende criar um total de 400 km de vias segregadas para ciclistas em seu mandato, ao custo de cerca de R$ 80 milhões.

Baseado no exemplo de outras cidades do mundo, o prefeito aposta que o crescimento de demanda para as ciclovias diluirá a resistência inicial. "É um programa de saúde, esporte, de mobilidade que dialoga com muitas demandas da sociedade", diz.

Enquanto especialistas em transportes elogiam a iniciativa, parte da população dos bairros acusa o prefeito de falta de planejamento.

"É um caminho de improviso com resultados imprevisíveis", afirma o presidente do Conseg (Conselho de Segurança) da Santa Cecília, Fábio Fortes, repercutindo as afirmações que o prefeito fez nesta quarta.

Neste mês, ele e outros moradores do bairro chegaram a fazer um boletim de ocorrência contra as ciclovias. Entre as justificativas, está a falta de aviso e consulta aos moradores dos bairros.

"[As ciclovias] são um fetiche! Por que não gastaram R$ 80 milhões para consertar as calçadas?", questiona ele.

Na terça (26), cerca de 600 motoboys protestaram contra o fim das motofaixas e de vagas de estacionamento para dar lugar às ciclovias.

"A criação das ciclovias complicou a vida dos motociclistas", afirma Gilberto dos Santos, presidente do sindicato da categoria.

Ele cobra que a prefeitura crie faixas para motos entre as pistas de carros --medida que, no entanto, depende de regulamentação federal.

Também pede a criação de políticas públicas para quem utiliza o meio de transporte. Em São Paulo, há cerca de um milhão de motocicletas.

A prefeitura criou uma comissão para analisar os pedidos dos motoboys.

Os taxistas são outro grupo que critica duramente as vias para bicicletas, vista por eles como "coisa de lazer".

"Paulista é um povo rico. O cara não quer ir trabalhar de bicicleta e chegar suado no escritório", afirma Natalício Bezerra, presidente do sindicato dos taxistas.

Ele diz que vários pontos de táxi foram retirados para dar local às ciclovias (ele não especifica quantas) e que não há demanda para esse tipo de via. "A gente não vê uma bicicleta na rua."

DEMANDA REPRIMIDA

Apesar das críticas, a criação das ciclovias é uma das apostas para reverter os baixos índices de popularidade do prefeito, em especial entre os mais jovens.

A administração municipal rebate a acusação de falta de planejamento, sustentando que a criação das faixas ganhou fôlego após um ano e meio de discussão.

Para a arquiteta Meli Malatesta, especialista em mobilidade não motorizada, há uma demanda reprimida na cidade para o uso de bicicletas que deve aflorar.

Ela diz que o uso das bikes vem crescendo, conforme pesquisas feitas pelo metrô. "Isso sem estruturar uma rede válida para você fazer uma viagem completa do começo ao fim e sem facilidades como bicicletários."

"Na hora em que começar a aparecer isso o número de viagens de bicicleta tende a aumentar", completa.

Ela cita como exemplo a expansão das ciclovias em Nova Iorque. "Era uma cidade que não tinha nenhuma tradição. E agora você vê uma quantidade imensa, e não são só jovens", diz.

Folha de S. Paulo