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Revolução Constitucionalista de 1932
2/10/2014

 

82 anos do fim de uma epopeia

 

Antônio Sérgio Ribeiro*


Após 80 dias de luta, iniciada com a eclosão da Revolução Constitucionalista, em 9 de julho de 1932, as forças de São Paulo estavam sob violento fogo das tropas ditatoriais em vários flancos, notadamente na divisa com Minas Gerais, na região de Campinas. Com a queda de várias cidades, como Itapira, efetivou-se a invasão do território paulista agravando-se a situação a favor daqueles que defendiam o governo de Getúlio Vargas.


A iminência da capitulação de Campinas era um fator preocupante, pois o rompimento da unidade das forças constitucionalistas resultaria na definição da vitória do exército invasor, comandado pelo general Pedro Aurélio de Góes Monteiro.


No dia 27 de setembro, o comandante da Força Pública (hoje Policia Militar) paulista, coronel Herculano de Carvalho e Silva, convocou uma reunião de emergência, em seu QG em Campinas, com todos os seus oficiais, com o intuito de analisar a gravidade da situação. Discutiu-se a situação militar, chegando todos na conclusão que estava configurada irremediavelmente a derrota de São Paulo.


Ficou resolvida nessa reunião que os presentes delegavam ao coronel Herculano poderes para entrar em entendimentos imediatos com os chefes da ditadura para a cessação dos combates.


O coronel Herculano e o tenente-coronel Alexandrino Gaia seguiram ao encontro, dos coronéis Euclides de Figueiredo (pai do presidente João Figueiredo) e Palimércio de Resende, chefe do estado-maior, na região do Túnel, no Vale do Paraíba, para conversarem sobre a decisão tomada. Figueiredo discordou da decisão, afirmando prosseguir na luta, e procurou convocar uma reunião, com todos os comandantes militares paulistas e com membros do governo do Estado, para discutir a situação. Este solicitou a general Bertoldo Klinger, comandante das forças constitucionalistas que não prosseguisse na negociação do armistício que estava em andamento e que impedisse que o coronel Herculano de enviar representantes para negociar com o adversário. Klinger concordou em sustar a divulgação de sua proposta de armistício, mas só autorizou o coronel Euclides dirigir-se ao coronel Herculano em seu próprio nome. Na conversa, o comandante da Força Pública respondeu que não havia possibilidade de suspender os entendimentos com as forças governistas.


Enquanto prosseguiam as conversações para o fim das hostilidades, no dia 29 de setembro chegava ao porto do Rio o navio alemão General Osório, trazendo da Europa material bélico para reequipar as tropas do governo federal. O cerco se fechava sobre São Paulo.


Na capital paulista o coronel Euclides Figueiredo, procurou o chefe civil do movimento, o governador Pedro de Toledo, e juntos convocaram para o mesmo dia uma reunião no Palácio do Governo, com os comandantes militares, e membros civis do governo paulista. Convocado a participar, o general Klinger recusou-se, mantendo-se firme em sua disposição de negociar a paz.


No encontro, em que se debateu a possibilidade de prosseguir a luta, resolveu-se exonerar o coronel Herculano de Carvalho do comando do setor de Campinas e também da Força Pública, nomeando para substitui-lo nos dois postos o major Romão Gomes, pelo mesmo ato promovido a tenente-coronel.


No dia 30 de setembro, as tropas da Força Pública de São Paulo se recusaram a obedecer às ordens do general Klinger. Este sabedor da impossibilidade de continuar a luta tentou mais uma vez um acordo para a cessação da rebelião, enviando uma mensagem diretamente a Getúlio Vargas no Rio de Janeiro.


O comando da polícia paulista, em entendimento direto com o general Góes Monteiro, apresentou então uma fórmula de paz, que foi aceita à revelia dos líderes do movimento revolucionário, em seguida foi passado ao coronel Herculano a seguinte instrução: “Deveis assumir imediatamente governo militar central depondo interventor ou governador e fazendo diretores de secretarias responder expediente mesmas sob vossa fiscalização. Ficais investido poderes necessários garantir ordem, vida e propriedade população”.


Do centro da cidade, Luís de Toledo transmitia notícias pelo telefone, do que se passava nas ruas, onde o povo enfurecido dava morras ao general Klinger, ao coronel Herculano e o capitão Rogerio. Havia alguns que propunham uma interpelação ao governo civil.


Às 15h30 do dia 2 de outubro de 1932, compareciam ao Palácio dos Campos Elíseos, o tenente-coronel Eduardo Lejeune, o major Mário Rangel, íntimo do coronel Miguel Costa (famoso membro da coluna com Luís Carlos Prestes), e o capitão João Francisco da Cruz, encarregados pelo comandante-geral da Força Pública de participar ao governador as resoluções da ditadura getulista.


Comunicaram a necessidade de falar com o doutor Pedro de Toledo, por este recebidos, quando encontrava-se no salão de despachos em companhia do professor Waldemar Ferreira, secretário estadual da Justiça e auxiliares, comunicaram o recado que traziam, intimando o governador a considerar-se preso, sob palavra e as ordens do governo federal. Com a serenidade e energia, responde-lhes o governador dos paulistas: “Eu já o previa. Podem retirar-se”.


Pôs-se a caminhar pelo hall do Palácio, indo e vindo compassadamente, a cabeça erguida, tristonho, mas altivo, sem uma queixa, sem uma imprecação. Encarando o jornalista Silveira Peixoto, que ali se encontrava, falou: “São Paulo não foi derrotado, Fomos traídos e vencidos no campo das armas! Os ideias que nos levaram à luta, porém, esses, tenho a certeza, serão vitoriosos!”


Finalmente, após quase três meses de luta, terminava a Revolução Constitucionalista, quando foi deposto o governo do Estado, chefiado por Pedro de Toledo, pelo coronel Herculano de Carvalho, comandante geral da polícia paulista, que assumiu o poder interinamente até a chegada das autoridades federais.


Com o fim do conflito, Getúlio Vargas nomeou como comandante da 2ª Região Militar o general Waldomiro Lima, que assumiu também o cargo de governador militar em São Paulo. Todos os 77 cabeças da Revolução Constitucionalista foram encaminhados presos para o Rio de Janeiro, e posteriormente, 74 foram exilados na Europa. O número de vítimas do conflito até hoje é uma incógnita, mas calcula-se que perto de dois mil homens morreram no conflito, além de milhares de feridos, inclusive muitos civis.


Apesar de ter perdido a luta por falta de armas e de estrutura, e principalmente com a falta de apoio de vários estados da federação, que haviam se comprometidos e falharam em sua palavra, os paulistas acabaram vitoriosos politicamente, já que poucos meses depois, em 3 de maio de 1933, foram realizadas as eleições para a Constituinte, que elaborou uma nova Carta Magna para o Brasil. Com a sua promulgação, em 16 de julho de 1934, houve o retorno da tão esperada democracia.


82 anos depois os ideais dos Heróis de 1932, continuam vivos, mais do que nunca.


*Antônio Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador. É funcionário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.


Fonte: http://diariooficial.imprensaoficial.com.br/nav_v4/index.asp?c=12&e=20141002&p=1