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Palácio dos Bandeirantes: do tradicional ao sustentável
04/11/2014

 

Em dezembro de 1982, o presidente norte-americano Ronald Reagan visitou o Palácio dos Bandeirantes onde ministrou um seminário para empresários. A presença do mandatário exigiu esforço hercúleo do cerimonial do palácio por causa das medidas de segurança exigidas pelos americanos, pois no ano anterior Reagan tinha sofrido um atentado em seu país. Os funcionários tiveram a rotina totalmente modificada. Conviveram com cães farejadores e atiradores de elite no telhado durante toda a visita. Essa e outras histórias estão presentes na memória de muitos funcionários que trabalham lá até hoje.

Sede do Governo paulista, o Bandeirantes é, também, personagem de diversos livros que relatam desde seu cotidiano à coleção de suas obras de artes. O local transformou-se ao longo dos anos assim como o próprio Estado de São Paulo. Mantém a tradição, mas se adaptou aos novos tempos. Hoje, passa por processo de mudanças, entre as quais a adaptação de espaços para pessoas com deficiência e projetos de sustentabilidade, como o reaproveitamento do óleo de cozinha do restaurante e das sobras de papel, e a produção de energia solar para a geração de energia elétrica, com a instalação de telhas fotovoltaicas para aproveitamento da luz solar, entre outras.

Mais do que uma cidade – O Palácio dos Bandeirantes tem 125 mil metros quadrados de área total e 2 mil funcionários (entre comissionados, de carreira e terceirizados), que trabalham em turnos, 24 horas. Muitos profissionais trabalham na portaria, segurança, limpeza e defesa civil durante o turno da madrugada. Em termos de comparação populacional, Paulistânia, município da região de Bauru, distante aproximadamente 300 quilômetros da capital, possui 1,8 mil habitantes.

Os números no Palácio dos Bandeirantes impressionam. O local recebe cerca de 10 mil pessoas por mês. Em tempos de internet, as cartas ainda são o meio de a sociedade civil se comunicar com o governador. De acordo com o Departamento de Gestão e Documentação Técnica e Administrativa, de janeiro a outubro, chegaram ao local 7,2 mil cartas. Durante 2013 foram 11,2 mil cartas. “Elas vêm de todos os setores da sociedade: do cidadão a câmaras municipais e prefeituras”, informa Luiz Carlos de Carvalho Silva, diretor técnico do departamento.

Entre janeiro e outubro o serviço Fale Conosco, mantido pela Biblioteca Virtual, recebeu 111,8 mil e-mails. O Cerimonial do Palácio também registra um número alto de atividades. Em 2013, foram realizadas 126 audiências e mil eventos com o Governo (incluem governador, primeira-dama e vice-governador). Mas não só de audiências e eventos festivos vive o cerimonial. “Infelizmente, também realizamos eventos fúnebres aqui no Palácio, como o do ex-governador Mario Covas, do ex-governador Orestes Quércia e da apresentadora Hebe Camargo”, diz Christine Starr, assessora de relações internacionais do cerimonial do Palácio dos Bandeirantes e autora do livro Os bastidores do Palácio. A Defesa Civil mantém no local um Centro de Gerenciamento de Emergências 24 horas por dia.

Jardins – Nos 87,5 mil metros quadrados de jardins, mais de 2 mil árvores de variadas espécies compõem o cenário. São exemplares de pau-brasil, árvore símbolo do Brasil, ipê-amarelo, flor símbolo do País, ipê-rosa, palmeira-jerivá, castanheira, cedro-do-líbano, tipuana, jequitibá-rosa, cedrinho, quaresmeira, jatobá, jacarandá-mimoso, paineira, pata-de-vaca, pau-ferro, araucária, cerejeiras, entre outras. Nessa área ajardinada, que ocupa 70% do terreno, foram identificadas também 40 espécies de aves que fazem dos jardins seu hábitat. Entre elas, o pica-pau-amarelo e negro, quero-quero, joão-de-barro, tico- -tico, alma-de-gato e o sabiá-laranjeira, a ave símbolo do Brasil.

O plantio do bosque de cerejeiras aconteceu durante o governo Covas. Cem mudas foram plantadas em 5 de novembro de 1995, em comemoração ao Centenário do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação, entre Brasil e Japão, dois dias antes da visita da princesa Sayako, filha dos imperadores Akihito e Michiko. Esculturas de Bruno Giorgi, Felícia Leirner e Maria Bonomi destacam-se em meio a flores e muito verde.

Dos Elísios ao Morumbi – Em 1964, o então governador Adhemar de Barros resolveu que era hora de mudar a sede do Governo estadual do Palácio dos Campos Elísios (região central da capital) para as colinas do Morumbi. O local não comportava mais a máquina administrativa e a mudança tornou-se uma necessidade. O Palácio dos Bandeirantes foi adquirido em troca do perdão das dívidas fiscais do Grupo Matarazzo. A ideia do conde Francisco Matarazzo era criar uma universidade dirigida ao comércio. O projeto nunca saiu do papel, mas a marca da universidade pode ser vista no alto do telhado com imagens femininas representando a economia, as finanças e a ciência.

MEIO SÉCULO DE SERVIÇO

A inauguração do Palácio dos Bandeirantes ocorreu em 22 de abril de 1965, dia do descobrimento do Brasil e do aniversário de Adhemar de Barros. Estiveram presentes 4 mil convidados. A primeira concepção arquitetônica do Palácio dos Bandeirantes ocorreu em 1938. De autoria do arquiteto italiano Marcello Piacentini, o projeto apresentava linhas abstratas, colunas, muros lisos e ampla fachada.

Na década de 1950, o engenheiro Francisco da Nova Monteiro assumiu a direção do projeto, alterando sua concepção para o estilo italiano, eclético, com inspiração no neoclassicismo. O lançamento da pedra fundamental para a construção do edifício principal da universidade aconteceu em 1954, mas nunca saiu do papel por causa das dificuldades financeiras enfrentadas pelo Grupo Matarazzo. O então governador Laudo Natel, em sua segunda administração (1971-1975), foi efetivamente o primeiro a despachar diariamente do Palácio dos Bandeirantes.

Um passeio detalhado e cuidadoso pelos cantos do Bandeirantes revela a trajetória da história paulista. Os simbolismos estão retratados na Galeria dos Governadores – passando pela imensa coleção de obras de arte (quase 2 mil peças) e chegando aos painéis na frente do edifício – e revelam o desenvolvimento da economia paulista durante séculos.

Acervo – O processo de mudança para a nova sede (em 1965) incluiu tríplice destinação ao Palácio: sede do poder executivo estadual, com suas atribuições decisórias e de representação, sede administrativa e residência do governador. “Atualmente, o Palácio dos Bandeirantes exerce a dupla função de residência e sede do poder administrativo estadual e a de Palácio – museu aberto ao público”, explica Ana Cristina Carvalho, curadora do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo.

Em 30 de março de 1970, durante a administração de Abreu Sodré, o Palácio torna- se a sede definitiva do Governo paulista, com o nome de Palácio dos Bandeirantes. A partir de então, houve um esforço no sentido de fazer do local um centro de cultura, com a constituição de acervo de móveis, quadros e objetos. Uma comissão formada por Oswald de Andrade, Paulo Mendes de Almeida, Sílvia Sodré Assunção, Marcelo Ciampolini e Pedro Antonio de Oliveira Neto deu início à aquisição de obras de arte que até hoje compõem o acervo artístico.

Entre elas destacam-se, no hall nobre, os painéis de Antônio Henrique do Amaral, Clóvis Graciano, Cândido Portinari, Djanira Motta e Silva, Tomie Ohtake, Alfredo Volpi e Aldemir Martins. Nos demais ambientes, encontram-se obras que retratam um Brasil repleto de diferenças, como, por exemplo, a série do artista Rubem Valentim, que, com cores e símbolos, registra a etnia negra, e a de José Cláudio da Silva, que retrata uma viagem à Amazônia – pedaços de um Brasil que poucos conhecem.

A curadora do acervo artístico, Ana Cristina Carvalho, informa que o Palácio dos Bandeirantes mantém visitas monitoradas e gratuitas para grupos e pessoas que desejam conhecer o local e sua coleção. “As visitas guiadas, com duração de uma hora, de terça-feira a domingo. São 2,5 mil visitantes por mês, 50% deles estudantes.”

Esse número poderia ser ainda maior, explica Ana Cristina, pois ainda há certa dificuldade devido ao fato de o Palácio estar localizado no Morumbi, enquanto outros museus, como o da Língua Portuguesa, a Pinacoteca e o Masp estão distribuídos na área central da cidade, com acesso mais fácil. “Mais que um polo cultural, o palácio é um ponto de lazer que mexe com o imaginário das pessoas,” diz Ana Cristina.

Raridades – Para cuidar da coleção dos palácios, a equipe do acervo é composta por 40 pessoas – especialistas em história, museologia, conservação. Além disso, há investimentos na área da reserva técnica, onde ficam as obras que serão restauradas e conservadas. “Como curadora do acervo, também coordeno o programa Patrimônio em Rede, um banco de dados – catálogo referencial único para as obras do Governo, sob a administração direta e indireta do Estado, por meio das secretarias e fundações. É um trabalho de catalogação e difusão desse patrimônio, efetivamente capaz de gerar benefícios tanto para o público quanto para o artista. Essa valorização estimula o artista a interpretar o momento histórico com uma leitura própria, inovadora e singular”, acredita Ana Cristina. Além da reserva técnica, o departamento mantém um ateliê de restauro. Na reserva técnica ficam as obras que serão transferidas para outras unidades, como o Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão.

Histórias de arrepiar

Palácio que é palácio tem sempre uma história de fantasma. Não é diferente no Bandeirantes. Funcionários mais antigos “juram de pés juntos” que, em certas noites, nos corredores desertos e intermináveis da ala residencial, é possível escutar o ex-governador Adhemar de Barros (1963–1966) e o conde Matarazzo (1900–1977) discutindo. “Barulho de portas e passos também são comuns”, diz Saulo Menezes, um dos primeiros moradores do Palácio, antes mesmo da construção.

Reformas – O prédio passou por algumas reformas, como a plantação de uma horta e a construção de uma creche (gestão de André Franco Montoro – 1983-1987); de uma academia de ginástica e de uma pista de cooper (governo Orestes Quércia – 1987-1991); reforma por todas as partes (Mario Covas – 1995-2001); redecoração do palácio e reforma do auditório (Cláudio Lembo – 2006); instalação de janelas antirruídos (José Serra – 2007 a 2010). Mesmo sem o processo formal de tombamento, todas as informações sobre as reformas são enviadas para a avaliação do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental do Município de São Paulo (Conpresp).

Mais antigos – Os olhos azuis da funcionária Therezinha de Albuquerque revelam o fascínio que o Bandeirantes exerce em todos que trabalham no lugar. Com 50 anos de trajetória profissional, somente no palácio, a senhora de 83 anos diz: “Vim para cá no tempo do governador Adhemar de Barros. O palácio se destacava no meio da paisagem. Adoro este lugar!”

Desde 1964, o marceneiro Aníbal Fernandes trabalha no Bandeirantes. Sempre disposto e extremamente competente, viu suas habilidades serem postas à prova com a visita do presidente francês Charles de Gaulle, em 1964. O homem tinha 1,96 m e não havia cama do tamanho dele. Seu Aníbal precisou fazer uma 20 centímetros maior que as disponíveis.

Saulo Menezes pode ser considerado o primeiro morador do Bandeirantes. Na década de 1960, ele e sua família (mãe e dois irmãos) mudaram-se para o terreno,
ainda desocupado. Despejados em 1966, ele não abandonou o Palácio. Mudou de residência e hoje trabalha com o chefe de gabinete da Casa Civil.

Personagem – O Palácio dos Bandeirantes virou personagem em alguns livros. O catálogo Acervo Artístico dos Palácios – Panorama das Coleções é um deles. Escrito por Ana Cristina Carvalho e editado pela Imprensa Oficial do Estado, traz para o leitor explicações sobre as mais importantes obras nos diversos palácios paulistanos: Bandeirantes, do Horto e Boa Vista (Campos do Jordão).

Os bastidores do Palácio, de Christine Starr, revela algumas situações interessantes vividas pelo cerimonial do Palácio dos Bandeirantes. Em linguagem acessível, traz passagens memoráveis como a do assessor do príncipe herdeiro da Tailândia que se prostou de joelhos no chão para se aproximar de Sua Alteza, príncipe Maha Vajiralongkorn, Filho Real e Príncipe Herdeiro do Sião, durante um jantar de gala. Outra história é a do presidente Nelson Mandela, que teve suas malas desviadas e chegou mais de quatro horas atrasado ao evento no Bandeirantes.

DOE, Executivo I, 04/11/2014, p. I e IV