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'Os Miseráveis', de Victor Hugo, faz 150 anos
03/04/2012

 

Livro, iniciado em 1846, é considerado a maior obra literária do século 19

 


IVO BARROSO, ESPECIAL PARA O ESTADO, IVO BARROSO É POETA, TRADUTOR - O Estado de S.Paulo


Há 150 anos, precisamente no dia 3 de abril de 1862, publicava-se simultaneamente em Paris, Leipzig, Bruxelas, Bucareste, Milão, Roterdã, Varsóvia e... Rio de Janeiro, o romance Os Miseráveis, do escritor francês Victor Hugo, que seria considerado daí por diante a maior obra literária do século 19. O próprio autor tinha consciência do que criara, pois em carta a seu editor, ao lhe enviar a revisão final do livro, chega a afirmar: "Tenho a convicção de que este livro será um dos pontos mais altos de minha obra, se não o mais alto de todos." E estava certo.



O livro que ele iniciara em 1846, interrompera em 1848 por causa da Revolução Francesa, reiniciara em 1851 já no exílio, e refundira, reescrevera, acrescentara capítulos, ensaios, divagações, etc., foi trabalhado até um ano antes de sua publicação, com a tenacidade de quem constrói um monumento para sempre. E nele os críticos puderam reconhecer o ponto mais alto não só da obra de Hugo, mas de todo o Romantismo francês, verdadeiro compêndio de ficção enciclopédica, abrangendo um leque extensíssimo de conhecimentos, com sua multidão de personagens, muitos dos quais se tornaram "vivos" na memória dos leitores de todos os quadrantes.


De enredo fascinante, capaz de entreter o leitor ao longo de suas mil e tantas páginas, já evidencia toda a técnica da narrativa moderna com o uso do suspense, da interrupção para tomada de fôlego, da variedade estilística, da interferência e onisciência do narrador - enfim de todos os "macetes" da novelística atual, livresca ou televisiva, que abusa das coincidências e das trocas de nomes e pessoas sem que o leitor se sinta por isto ludibriado ou pouco sagaz.


As adaptações e condensações do romance transformaram-no ao longo do tempo numa simples história de aventuras, e o cinema serviu definitivamente para fazer dele um filme de perseguição policial, em que o "vilão" Javert não larga o pé do "virtuoso" Valjean. Não há quem não tenha visto pelo menos uma das mais de 50 versões levadas ao cinema, e a fisionomia figé de Jean Gabin e o ar sorumbático de Bernard Blier personificam em nosso imaginário não só os dois heróis de Hugo, mas praticamente toda a história do livro.


Mas ele é muito, muito mais que seu simples enredo: um longo capítulo sobre a crise de consciência de Valjean, entre a necessidade de entregar-se à justiça e a possibilidade fácil de livrar-se dela, constitui em si um romance, pode-se dizer até mesmo psicológico, psicanalítico, tendo Hugo como que aberto para nós um cérebro humano, cujo funcionamento pudéssemos seguir e analisar.


Sua descrição da batalha de Waterloo, segundo ele ganha por Deus e não pelos ingleses, é o relato de uma pesquisa de campo que consumiu boa parte de seu tempo. Mas Hugo é multíplice e fala com a mesma autoridade das propriedades alimentícias e orgânicas da urtiga, bem como das riquezas fecais da cloaca parisiense.


Cada capítulo é um banho de emoção, cultura, imaginação, ousadia. Se o leitor não dispuser de tempo ou coragem para encarar o tijolaço (o desconhecimento de sua totalidade chega a ser recriminável), que pelo menos acompanhe os comentários que Mario Vargas Llosa faz a respeito em A Tentação do Impossível (Editora Objetiva/Alfaguara). A análise de Vargas Llosa é tão minuciosa e aliciante que o leitor ficará mais que motivado para ler o original, depois de saber tanta coisa da vida desse Homem-Oceano.


Tem-se dito correntemente que a vida de Victor Hugo vale um romance, não só pelos seus sucessos literários e teatrais, sua carreira política e suas lutas libertárias e progressistas, mas ainda pelos episódios de sua agitada vida sentimental; daí às vezes conhecermos melhor seus dados biográficos do que propriamente sua obra, de importância incontornável.


Se não dispomos até hoje da "clássica" biografia (detalhista nos aspectos "sentimentais") de Alain Decaux, nem muito menos da meticulosa obra-vida de Jean-Marc Hovasse (já em seu segundo volume dos quatro prometidos), temos pelo menos a excelente Victor Hugo - Uma Biografia, de Graham Robb, traduzida por Alda Porto e editada pela Record no ano 2000. Robb, multipremiado biógrafo de autores franceses (Baudelaire, Balzac, Rimbaud), encontrou em Victor Hugo aquele ponto culminante que decerto estava procurando. Não lhe escapou nada de importante na vida do Ego-Hugo e nem deixou de fora as suas peraltices eróticas.


Quanto a Os Miseráveis, o livro propriamente dito, temos, desde 2002, a definitiva tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros, na edição da Cosac Naify, cuja capa roxo-funéreo e as lombadas negras fazem do livro um objeto de respeito e veneração. Altamente recomendável para quem quer (e precisa) conhecer esse romance imprescindível.


VICTOR HUGO


ESCRITOR


Nascido em 1802, em Besançon, na França, foi soberbo como romancista, poeta, desenhista, escultor, orador e homem público. Foi autor também de Notre-Dame de Paris, de 1831, com o famoso corcunda. Morreu em Paris, em 1885.



Fonte: Estadão.com.br/Cultura