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Alto Tietê ganha sobrevida com água do volume morto
15/12/2014

 

Estado recebeu aval para usar reserva que dá fôlego extra de 2 meses ao abastecimento na região leste da Grande SP

 

Sistema que poderia entrar em colapso até janeiro passou de 4,1% para 10,7%, superando nível do Cantareira

DE SÃO PAULO

A Sabesp recebeu autorização para incorporar a partir deste domingo (14) a água de um volume morto que dará sobrevida ao sistema Alto Tietê --que abastece 4,5 milhões de pessoas na região leste da capital e Grande São Paulo.

Essas represas estavam em nível mais crítico que as do Cantareira e, sem chuva forte nos próximos dias, poderiam entrar em colapso em janeiro.

Agora, especialistas estimam que pode haver um fôlego extra de cerca de dois meses --suficiente para atravessar a temporada de verão.

O Alto Tietê ganhou volume adicional de 39,5 milhões de metros cúbicos de água da represa Ponte Nova, em Salesópolis (a 97 km de SP).

Sem ele, seu nível estaria ontem em 4,1% --contra 7,3% do Cantareira, que usa a segunda cota do volume morto (água do fundo do reservatório que não era contabilizada).

A Sabesp, ligada ao governo Geraldo Alckmin (PSDB), afirma que a duração da água do sistema vai depender muito do volume de chuvas nos próximos meses.

Com a autorização dada pelo DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica, ligado ao governo estadual) para usar a nova reserva de água, a capacidade do Alto Tietê passou para 10,7% --ele não operava com dois dígitos desde 19 de novembro.

Segundo a Sabesp, diferentemente do que ocorreu no Cantareira, não será necessário implantar equipamentos nem fazer obras para incorporar a nova reserva.

A empresa diz que foi realizada uma batimetria (medição da profundidade) que permitiu ajustar a capacidade do Alto Tietê aproveitando a estrutura existente.

Afirma ainda que bastou, para isso, a autorização do DAEE, sem ser preciso aval de órgãos federais, como a ANA (Agência Nacional de Águas).

Roberto Kachel, engenheiro especialista em hidrologia e membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, diz estranhar a utilização desse volume morto pela Sabesp sem a realização de nenhum tipo de obra.

Para ele, um ajuste feito só a partir da batimetria indicaria um erro grosseiro de cálculo sobre a real capacidade do reservatório até então.

"Não é possível um erro dessa ordem. Errar meio metro na batimetria é um absurdo em termo de engenharia. Isso seria uns quatro a cinco metros de erro de batimetria. Se fosse meu aluno, faria dependência por no mínimo três anos. É algo absolutamente impossível", diz Kachel, professor da Universidade de Mogi das Cruzes.

Antonio Carlos Zuffo, professor da Unicamp, afirma que, diante do atual quadro, a Sabesp irá captar a "água que tiver".

(ROGÉRIO PAGNAN E SIDNEY GONÇALVES DO CARMO)

Folha de S. Paulo