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1 em cada 5 cursos de medicina tem nota ruim
19/12/2014

 

Ministério avaliou 154 graduações; 27 registraram desempenho insatisfatório

 

Entre os cursos mal avaliados, 5 estão em universidades federais; instituições dizem que vão recorrer ao MEC

FLÁVIA FOREQUE
DE BRASÍLIA
JOSÉ MARQUES
DE SÃO PAULO

De um total de 154 cursos de medicina avaliados pelo Ministério da Educação no ano passado, 27 tiveram desempenho ruim --quase uma em cada cinco graduações.

Esse grupo não alcançou nota maior que 2 no CPC (Conceito Preliminar de Curso), índice que considera fatores como infraestrutura, titulação de docentes e, principalmente, desempenho dos alunos no Enade (exame federal).

Cinco dos cursos reprovados estão em universidades federais --de São João Del-Rei (MG), do Pará, do Rio Grande do Sul, de Pelotas (RS) e de Campina Grande (PB).

Com notas de 1 a 5, o CPC foi criado em 2007 e é usado pelo MEC para corte de vagas e suspensão de vestibular. No ano passado, o foco foram os cursos da área de saúde.

As notas dos cursos compõem um índice mais abrangente --o IGC (Índice Geral de Cursos), que avalia instituições públicas e privadas. Ao todo, 2.020 faculdades, centros universitários e universidades receberam o conceito.

Desse total, 354 (17,5%) tiveram nota insatisfatória. A USP, que começou a participar da avaliação no ano passado de forma experimental, não tem sua nota divulgada.

O IGC é alvo de crítica do setor privado, que aponta peso excessivo dos estudantes --eles participam também por meio de um questionário sobre a organização do curso e a infraestrutura disponível.

"O IGC apenas diz que os meus alunos estão mais satisfeitos que os seus", afirma Elizabeth Guedes, diretora-executiva da Abraes (Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Educação Superior).

Ela diz que o concluinte, que faz a avaliação, não tem "nenhum compromisso formal" com o Enade.

JUSTIFICATIVAS

Boicote de estudantes, falta de estrutura e nota diferente da realidade do curso são algumas das explicações das faculdades federais de medicina com desempenho ruim.

"Houve um problema muito pontual entre os alunos contra um professor. Eles boicotaram o Enade", justificou Lúcia Maria Kliemann, vice-diretora da faculdade de medicina da UFRGS.

Ela diz que a situação já foi solucionada e que a universidade solicitou uma nova avaliação ao governo federal.

Já no campus de Cajazeiras da federal de Campina Grande, o diretor Antônio Fernandes admitiu falta de estrutura. "Nossos alunos têm dificuldades por falta de hospital universitário e ambulatório de especialidades."

Ele afirma que a maioria do corpo docente não tem mestrado nem doutorado. "Falta investimento", reclamou.

A federal de São João Del-Rei (MG) informou que a nota 2 "não expressa a realidade do curso" e que, em visita em 2013, recebeu nota 4.

Em nota, a federal do Pará afirma que, "por um equívoco", inscreveu o número incorreto de alunos e que entrou com recurso ao ministério, mas não foi atendida.

A Ufpel (federal de Pelotas) não respondeu à reportagem.

Colaborou DANIELA MERCIER

Folha de S. Paulo