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Cantareira tem ainda menos chuva em 2015
16/01/2015

 

Primeira metade de janeiro recebeu só 22% da precipitação esperada no mês, agravando condições que já eram críticas

 

Nível de reservatório que abastece Grande SP caiu de 7,2% para 6,2% numa época em que deveria ter enchido

FABRÍCIO LOBEL
DE SÃO PAULO

Se a crise no Cantareira já era a pior da sua história, 2015 tem enterrado a expectativa de sobrevida ao principal reservatório da Grande SP.

A primeira metade de janeiro trouxe cenário ainda mais pessimista do que era projetado por especialistas e governo: a quantidade de chuva nas represas e a vazão dos rios que poderiam socorrê-lo ficaram muito abaixo da média histórica, enquanto as temperaturas estão elevadas, um incentivo para maior consumo.

A situação, por enquanto, confirma um ano de deserto em São Paulo, metáfora usada pelo novo presidente da Sabesp, Jerson Kelman, para falar do agravamento da crise.

Nesta semana, ele já passou a admitir a possibilidade de um rodízio --abastecimento alternado entre regiões.

O começo de janeiro, historicamente, é quando as represas enchem. O Cantareira chegou a ter seu nível elevado de 75% para 94% nos primeiros 15 dias de 2011. Neste ano, porém, caiu de 7,2% para 6,2%.

A quantidade de chuva no Cantareira nesta primeira metade de janeiro é a menor nesse mesmo período em pelo menos 12 anos. Os 60 mm até agora são só 22% do esperado para este mês inteiro. Mesmo na capital, a precipitação está 28% abaixo da média.

No final do ano passado, previsões climáticas diziam que este verão teria um padrão habitual de chuvas.

"Mas não é isso que está acontecendo. Desde a primeira semana do ano, os meteorologistas rebaixaram a expectativa de chuvas", afirmou Bianca Lobo, meteorologista da Climatempo.

Ela explica que uma incomum coincidência de fenômenos climáticos fez com que, pelo segundo ano consecutivo, tenhamos um janeiro com poucas chuvas.

"Um sistema de alta pressão está atuando sobre o Sudeste, impedindo a chegada de frentes frias, que trazem acumulados significativos de chuva para o Estado. Sem essas frentes frias, temos só as pancadas de chuva no fim de tarde, que trazem transtornos, mas não ajudam no abastecimento", disse.

Para que o Cantareira feche o mês na média, teria que chover mais que o triplo do que vem chovendo em 2015.

Outro ponto é que não só a chuva, mas a entrada de água no Cantareira está pior. O ritmo histórico com que os rios costumam desaguar nessas represas em janeiro é de 62,8 metros cúbicos por segundo.

Em 2014, ele foi o mais baixo da história do reservatório, com 14,3 m³/s. Neste começo de 2015, a vazão está ainda menor: 9,2 m³/s.

Esse ritmo é inferior ao que a Sabesp vem tirando de água do sistema. Na prática, enquanto isso continuar, o nível do Cantareira cairá.

Assim, a segunda etapa do volume morto --porção de água abaixo dos tubos de captação que precisa ser bombeada-- poderia acabar em pouco mais de três meses.

Para completar o cenário, os dias estão mais quentes.

A média das temperaturas máximas nos primeiros 15 dias é de 32,5ºC --0,5ºC mais que no mesmo período de 2014, que ficou marcado como o mês mais quente de São Paulo. Com calor, o consumo de água costuma disparar.

Folha de S. Paulo