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O caminho de um gênio chamado Schumpeter
10/4/2012

 

Por Luiz Sérgio Guimarães | Para o Valor, de São Paulo






Schumpeter: um "bon vivant" conservador que jamais deixou em segundo plano a paixão pelo estudo incessante


Joseph Alois Schumpeter (1883-1950) queria se tornar o maior economista, o maior cavaleiro e o maior amante do mundo. Mas frequentemente admitia que as coisas não iam nada bem com os cavalos. Blague espirituosa ou autoconfiança excessiva? Em 1983, o ano em que se comemorou o seu centenário e também o do arquirrival John Maynard Keynes (1883-1946), a revista "Forbes", entre um e outro, elegeu a visão schumpeteriana como a mais completa para entender os desafios inerentes às súbitas mudanças econômicas. E as mulheres? Elas o amavam e o salvaram várias vezes de severos traumas.


Conservador confesso, Schumpeter foi um "bon vivant" que jamais deixou em segundo plano a paixão pelo estudo incessante (a dedicação compulsiva ao trabalho teria sido a causa básica de sua morte), a obsessão em desvendar os segredos da economia, da sociologia e da história. Foi também um especulador da Bolsa e banqueiro que perdeu toda a sua fortuna. Pode não ser o maior, mas conquistou posto cativo entre os grandes economistas de todos os tempos. Por isso, vale muito a pena se aventurar nas 770 páginas de "O Profeta da Inovação - Joseph Schumpeter e a Destruição Criativa", de Thomas K. McCraw, professor emérito de história empresarial da Harvard Business School.


McCraw não pretendia tratar do pensamento econômico de Schumpeter. Em vão. Os conceitos e as teorias que lhe trouxeram notoriedade estão todos lá, analisados para a compreensão do leigo, sem prejuízo para o leitor mais interessado em saber como as tragédias pessoais marcaram e moldaram o caminho do gênio. Mas põe ênfase em sua vida turbulenta e na sua necessidade compulsiva de entender o capitalismo, em sua efervescente mistura de elementos econômicos, sociais, culturais e políticos, no que tem de melhor e de pior, e no seu impacto avassalador sobre a vida dos indivíduos, das famílias e das nações.


Schumpeter é idolatrado pelos empresários pelas preciosas advertências que faz em relação à inovação, ao empreendedorismo, às estratégias de negócios e aos ciclos econômicos. Ele nunca escreveu manuais que ensinam como chegar ao sucesso nem fornece a receita de como evitar o fracasso, quem for capaz de entender a dinâmica capitalista chamada por ele de "destruição criativa" levará enorme vantagem sobre a concorrência. Essa célebre expressão foi cunhada em 1942 para designar a cruel força cega e amoral que leva ao crescimento econômico.


Mago da mudança irrefreável, o economista nascido em Triesch, então parte do império austro-húngaro, atual República Theca, alertava para a maneira como produtos e métodos capitalistas inovadores estão sempre e impiedosamente tomando o lugar dos antigos. Enaltecia os empreendedores, considerados "o pivô em torno do qual tudo gira", os agentes da inovação e, portanto, da destruição criativa. Para forjar o novo, o capitalista destrói o velho e, com ele, os valores antigos que davam segurança às pessoas.







A "máquina capitalista" - outra expressão indissociável do mundo schumpeteriano - é implacável em punir quem, abrindo mão de um pensamento estratégico diuturno, não ousa. Mas acreditava que os escombros da destruição que o capitalismo carrega atrás de si não são maiores do que a prosperidade que pode gerar.


O livro é dividido em três partes. Não por comodidade. Teria de ser assim porque, ao longo da odisseia intelectual de Schumpeter, ocorreram três sutis reorientações. No começo, ele se concentrou na economia do capitalismo, depois em sua estrutura social e, finalmente, na vertente que lhe pareceu mais satisfatória, em sua história. "O prazer que sentia na solução de tantos enigmas em tantos campos diferentes chegava às vezes à beira da exultação", escreve McCraw.


A constante inovação que pregava para as empresas, Schumpeter exerceu em sua vida. Reinventou-se várias vezes durante o atribulado momento histórico em que viveu. Sua ambição era tornar-se um pensador desprovido de ideologias. Queria uma isenção de valorações que o mantivesse puro e livre dos vieses ideológicos e das armadilhas que tragaram Marx e Keynes. Não aspirava ser apenas infenso às ideologias. Além da neutralidade valorativa, buscava a exatidão científica e a fidelidade à experiência histórica. Trata-se de pretensão inatingível, levada ao extremo hoje pelos modernos métodos quantitativos.


O mundo de hoje, capitalista em toda a sua parte exitosa, parece dar razão à sua tese de que o capitalismo apresenta incomparáveis vantagens em matéria de produtividade e crescimento relativamente a outros sistemas econômicos. Mas o processo não é indolor. O capitalismo se assemelha a um rolo compressor. "No que tem de pior, o capitalismo reduz as relações humanas a grosseiros cálculos pessoais de custo e benefício. Coloca os valores materiais acima dos espirituais, danifica o meio ambiente e mobiliza os aspectos mais sórdidos da natureza humana", diz McCraw.


Dá para ser de outra maneira? Apesar dos seus defeitos, o capitalismo, na visão do professor de Harvard, tem sido capaz de fomentar as inovações científicas, técnicas e medicinais necessárias para elevar a humanidade acima daquele estado natural descrito por Hobbes, segundo o qual a vida é solitária, pobre, sórdida, animalesca e curta.


As últimas décadas têm sido, até para os padrões schumpeterianos, de uma destruição acelerada demais: o súbito colapso do comunismo, após sete décadas de contendas atrozes com o capitalismo; a desregrada prosperidade da década de 1990, seguida por uma epidemia de escândalos corporativos, levando à falência acionistas e empregados e desacreditando o próprio capitalismo; a irrupção do flagelo do terrorismo internacional, instituindo um estado de guerra permanente; o surgimento, na China, de um sistema que associa uma predatória economia capitalista com um velho regime político comunista; e uma infindável crise na Europa.


Em meio à perplexidade geral, talvez fosse o caso de investigar se o capitalismo atual não se dedica somente à destruição pela destruição, sem criação e sem criatividade. Schumpeter estaria muito atarefado hoje.


"O Profeta da Inovação"


Thomas K. McCraw Trad.: Clóvis Marques Record, 770 págs., R$ 84,90


Fonte: Valor Econômico