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Poupança registra pior saldo em 20 anos
06/02/2015

 

Retiradas da caderneta em janeiro superam depósitos em R$ 5,5 bi; CDB também perdeu

 

EDUARDO CUCOLO
DE BRASÍLIA

A poupança teve em janeiro a maior perda de aplicações já registrada pelo Banco Central. Os saques superaram os depósitos em R$ 5,5 bilhões, maior saldo negativo da série histórica iniciada em janeiro de 1995.

O número é a diferença entre depósitos no valor de R$ 147,5 bilhões e retiradas de R$ 153,0 bilhões no mês.

O recorde anterior era um saldo negativo de R$ 3,8 bilhões em março de 2006.

Em valores corrigidos pela inflação, o resultado de janeiro de 2015 é a terceira maior saída líquida, atrás do registrado em fevereiro de 1998 (R$ 9 bilhões) e março de 2006 (R$ 6 bilhões).

A poupança não foi a única aplicação que perdeu recursos no início deste ano.

Nos CDBs (Certificados de Depósito Bancário), a captação estava negativa em R$ 10,6 bilhões até o dia 29, último dado divulgado pelo BC.

Nos fundos de investimento, o saldo do mês passado foi positivo em R$ 2,3 bilhões, segundo a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Quase todas as categorias tiveram mais depósitos do que saques.

Os destaques foram os fundos de curto prazo (captação positiva de R$ 9 bilhões) e DI (R$ 1,7 bilhão). As exceções foram as saídas de líquidas de R$ 8,3 bilhões nos multimercados e de R$ 868 milhões nos fundos de ações.

DÍVIDAS

Janeiro não é um mês com uma tendência definida em relação à captação das principais aplicações financeiras. No caso da poupança, desde 2007 os resultados foram, na maioria das vezes, positivos.

Foi uma época marcada pelo aumento da renda e da queda na diferença entre a caderneta e os fundos.

Desde o início de 2014, porém, a entrada líquida de recursos na poupança encolhe.

A especialista em finanças pessoais Myrian Lund, professora da FGV, diz que o aumento menor da renda e a elevação do endividamento das famílias estão entre os fatores que explicam a mudança.

Em janeiro, somou-se a isso o clima de pessimismo com a economia brasileira, que tem levado muitas pessoas a usar o dinheiro guardado para quitar dívidas e equilibrar o orçamento.

"Era muito comum encontrar pessoas com dívidas no cartão de crédito e no cheque especial, mas com dinheiro na poupança, o que não faz sentido", afirmou Myrian.

Ela não espera que o resultado de janeiro na caderneta se repita, mas afirma que não se deve esperar grandes captações em 2015.

"Vai ser muito difícil poupar neste ano, porque o impacto [da inflação] no orçamento familiar será muito maior. Os alimentos continuam subindo, e tem a conta de luz."

Folha de S. Paulo