Notícias

Hidrelétricas podem estar superestimadas
10/2/2015

 

Estudo mostra que projeções do ONS são otimistas; informações defasadas prejudicam planejamento do setor

 

Renovação das garantias físicas, que deveria ser feita em 2014, tem novo prazo até o final deste ano

DE SÃO PAULO

Informações defasadas sobre a capacidade de geração de energia prejudicam o planejamento do funcionamento do sistema elétrico, segundo especialistas.

A origem do problema está na renovação das garantias físicas das usinas hidrelétricas --que deveria ter sido feita no ano passado, mas acabou ficando longe das prioridades do governo diante da crise no setor.

A garantia física corresponde à quantidade de energia que determinada usina é capaz de gerar. Com base nela, define-se quanto aquela usina poderá se comprometer a entregar nos contratos de venda de energia. Caso a garantia física esteja superestimada, a hidrelétrica não será capaz de entregar o que se comprometeu.

Para especialistas, isso pode estar acontecendo no Brasil. Estudo da Thymos Energia (consultoria especializada no setor elétrico), feito para o instituto Acende Brasil em 2013, já mostrava que há um comportamento distinto entre as simulações de geração de energia, feitas pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), e a operação efetiva do sistema.

O estudo, que avaliou os anos de 2011 e 2012, concluiu que as estimativas do ONS, feitas a partir de um modelo matemático que tenta representar o sistema elétrico, sempre são mais otimistas do que a realidade.

"A projeção do ONS para o nível dos reservatórios sempre foi superior ao nível verificado de fato no estudo", diz Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil.

"A nossa grande suspeita é que os dados usados na simulação não estejam mais fidedignos com a realidade", diz João Carlos Mello, presidente da Thymos.

Segundo o especialista, essa diferença entre as simulações para a operação do sistema e o que de fato ocorre deve ser capturada na revisão das garantias físicas.

Essa discrepância preocupa porque é com base nessas projeções que o ONS define o acionamento das usinas, térmicas ou hidrelétricas. As garantias físicas, por sua vez, são usadas como parâmetros em novos leilões e contratos.

NOVO PRAZO

O tema está no radar do Tribunal de Contas da União (TCU). Em maio de 2014, uma auditoria do tribunal apontou indícios de que a atual capacidade de geração seria estruturalmente ineficiente para garantir a segurança energética por vários fatores, entre eles a superavaliação da capacidade das hidrelétricas.

O TCU, então, pediu que o Ministério de Minas e Energia elaborasse um plano para a renovação das garantias. Em dezembro, a pasta determinou a formação de um grupo de trabalho para analisar a metodologia.

O assunto é sensível para as geradoras de energia elétrica, que podem ter seus contratos revistos com a redução da garantia física, levando-as a perdas de receita.

Folha de S. Paulo