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Cracolândias crescem fora do centro de SP e viram favelinhas
03/03/2015

 

Barracos nas calçadas e aglomeração de viciados em várias ruas se assemelham ao cenário da Luz

 

Na Vila Leopoldina (zona oeste), área onde havia caixotes de madeira tem barracos ao longo de cem metros

ARTUR RODRIGUES
DE SÃO PAULO

As cracolândias espalhadas por bairros da capital paulista inflaram e estão cada vez mais semelhantes à da Luz (região central), devido à montagem de barracos nas calçadas e à aglomeração que toma conta de várias ruas.

A reportagem percorreu 15 pontos de uso de drogas mapeados pela Prefeitura de São Paulo no fim de 2013 com a intenção de ajudar nas políticas de combate ao crack.

Na ocasião, foram diagnosticados cerca de 30 pontos. Mais de um ano depois, é possível constatar a expansão na estrutura que acompanha os viciados --confirmada por vizinhos e por comparação com imagens de anos anteriores do Google Street View.

Uma das aglomerações mais volumosas é a que fica atrás do Ceagesp, na Vila Leopoldina (zona oeste), onde a expansão dos barracos nos últimos anos lembra a favelinha da região da Luz.

Perto de cem viciados em crack ocupam a rua Prof. Ariovaldo Silva e as avenidas Manuel Bandeira, José César de Oliveira e Mofarrej.

Na Ariovaldo Silva, as calçadas abrigavam há poucos anos caixotes de madeira de empresas que trabalham no Ceagesp. Agora, cerca de cem metros do passeio público estão ocupados pelos barracos onde há consumo de crack.

Em julho de 2014, a equipe de limpeza da Subprefeitura da Lapa encontrou um corpo dentro de uma caçamba de entulho no local.

Próximo dali, na avenida Manuel Bandeira, fica a área conhecida como "fluxo" --onde ocorre utilização mais intensa da droga.

Nesse ponto, a Folha foi abordada várias vezes por traficantes oferecendo crack, que fazem a mesma coisa com quem passa de carro ou a pé. A região é rodeada por empresas --que reforçaram a segurança devido ao aumento de viciados e queixas de assaltos.

Dependentes ouvidos pela reportagem no local reclamavam da falta de auxílio do poder público --que concentra as ações de assistência social no centro de São Paulo.

SEGURANÇA

Na zona sul, também foram montados nos últimos meses várias barracas debaixo do viaduto Jabaquara e em uma praça próxima do local.

"Está cada vez pior aqui", diz a cabeleireira Marta da Cunha, 51, que tem um salão nas proximidades. "Os clientes ficam com medo quando os viciados encostam. É por isso que muito comércio aqui não vai para frente."

Nos arredores da avenida Roberto Marinho e da rua Doutor Estácio Coimbra, no Brooklin (zona sul),há também mais barracas, lixo e usuários de drogas. Com isso, aumenta a sensação de insegurança na vizinhança.

"O Estado não cumpre seu papel. Eles deviam ser levados para tratamento coercitivamente. E depois receber abrigo, porque ninguém nasceu para morar na rua", afirma a advogada Cledima Guerra, 60, moradora da região. "Eu fico com medo porque eles estão fora de si. Podem roubar, podem matar."

As pequenas cracolândias --mapeadas ou não pela prefeitura-- estão em outros bairros como Tatuapé (zona leste), Vila Maria (zona norte) e até mesmo na região da Paulista, onde há uso da droga no túnel Noite Ilustrada.

Folha de S. Paulo