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Alívio para dores nas articulações
31/03/2015

 

Simone de Marco

Depois do tratamento a que se submeteu, em um período crítico de
osteoartrose, Rosely Arcebi, 66 anos, teve melhora das constantes
dores, que não cessavam nem durante a noite. Agora retomou as
atividades manuais, como tricô, bordado e artesanato – até o remo
passou a fazer parte da sua rotina.

Na USP de São Carlos, pesquisadores criaram
equipamento que potencializa os efeitos
terapêuticos, associando a técnica do ultrassom
à do laser.

“A prática de remo foi uma coincidência, pois meu marido
começou na atividade e resolvi acompanhá-lo. Não achei que iria
conseguir. Mas não tive mais dor”, diz ela, que consolidou a melhora
após participar dos testes clínicos feitos em um aparelho portátil e
de baixo custo, desenvolvido no Instituto de Física de São Carlos
(IFSC), da USP.

A pesquisa da nova metodologia, que associa a técnica do ultrassom
à do laser, comprovou a eficácia do tratamento para a doença
por meio de testes com voluntárias, entre as quais Rosely. Desenvolvida
pelo físico do IFSC-USP, Vanderlei Salvador Bagnato, com
a professora Alessandra Rossi Paolillo, do Departamento de Terapia
Ocupacional da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e os
pesquisadores Fernanda Rossi Paolillo, Jéssica Patrícia João e Herbert Alexandre João, também do IFSC, a iniciativa tem como principais objetivos a
analgesia, a ação anti-inflamatória e a reparação de tecidos, além da recuperação de fraturas ósseas.

Impactos – A osteoartrose é uma doença crônica que compromete as articulações, com degeneração da cartilagem e dos tecidos adjacentes de joelhos, quadril, coluna vertebral, tornozelos, pés, ombros, cotovelos e mãos. Segundo Alessandra, ela vem ocorrendo cada vez mais cedo, provavelmente por causa da realização de movimentos laborais repetitivos, treinamento esportivo excessivo, obesidade, e em decorrência de outras doenças, como a artrite reumatoide, que acomete pessoas adultas, interferindo, inclusive, no desempenho de atividades profissionais.

“Esses aspectos geram grande impacto socioeconômico, além da diminuição da
qualidade de vida”, avalia. “A ocorrência representa aproximadamente 40% das consultas em ambulatórios especializados de reumatologia e é responsável por 7,5% dos afastamentos do trabalho no Brasil”, informa a professora.

O quadro clínico é caracterizado, principalmente, por crepitação articular (espécie de estalo que ocorre durante o movimento), deformidades ósseas, processo inflamatório, edema, degeneração, rigidez e instabilidade articular, além da diminuição da amplitude de movimento, perda sensório-motora e fraqueza muscular.

Larga escala – O trabalho teve início após a observação de que a associação
das duas técnicas levava a melhor resultado no alívio da dor e relaxamento muscular. “Um importante sinal foi que, a partir da indução da dor em camundongos, o grupo tratado com laser e ultrassom simultâneos obteve o melhor resultado no alívio da dor e relaxamento muscular”, explica a terapeuta da UFSCar.

O grupo se empenhou, então, na criação do aparelho, que, além de acelerar o
processo de tratamento, potencializa os benefícios, com o aumento da vascularização, da atividade enzimática e da síntese de colágeno, que acelera a reparação dos tecidos, além de ter efeito anti-inflamatório e analgésico.

Segundo Alessandra, o novo dispositivo não é invasivo, apresenta praticidade,
simplicidade na aplicação, e sua portabilidade permite que os atendimentos
sejam realizados tanto em clínicas quanto em domicílio (sistema home care). Além disso, conforme a programação dos parâmetros e a dose de energia do ultrassom e do laser, o novo equipamento poderá ser usado para reabilitação ou para estética, dependendo da frequência em megahertz (MHz) utilizada.

Com custo estimado em R$ 10 mil, o equipamento patenteado chamou a atenção
de vários interessados em comercializá-lo. “Nosso próximo passo será a exploração do potencial dessa nova técnica, por meio do tratamento de diversas patologias e áreas corpóreas, além da negociação, para que ele possa ser usado em larga escala”, conclui Alessandra.

Qualidade de vida – O foco dos testes de comprovação da validade do método foi a melhora da qualidade de vida das pessoas com osteoartrose, pois a doença não tem cura, apenas pode ser controlada. Para isso, foram selecionadas 90 mulheres, sendo metade para o tratamento das mãos e o restante, dos joelhos.

A professora Fernanda Paolillo esclarece que durante a fase de testes o tratamento foi aplicado apenas nesse público--alvo, porque homens e mulheres possuem hormônios diferentes, e isso poderia prejudicar as conclusões. “A mulher tem massa óssea, força muscular, flexibilidade e velocidade diferentes do corpo masculino. Então, sempre evitamos avaliar homens e mulheres juntos, porque seus padrões são diferentes”, explica.

Os principais resultados foram o alívio da dor e o aumento da funcionalidade
da mão e dos membros inferiores. “Constatamos esses benefícios por meio de
um equipamento chamado algômetro, que avalia o limiar de dor e possibilita a realização de testes padronizados para as funções da mão e do joelho”, conta Alessandra.

Ela diz que alguns voluntários sentem melhoras nas primeiras aplicações, porém, normalmente, a metodologia inovadora leva cerca de três a cinco sessões, com duração entre 15 e 30 minutos cada uma, para apresentar resultados positivos.

Rosely participou da pesquisa após ser diagnosticada com osteoartrose nas
mãos. “Comecei a perceber primeiro numa delas, que ficou dura, meio parada. Depois, vieram as dores e a dificuldade para realizar movimentos”, conta. Aposentada há cinco anos, diz que durante sua trajetória profissional datilografou e digitou muito. “Fui secretária a minha vida inteira, o que certamente provocou o desgaste”, justifica.

Rosely havia passado por outros tratamentos antes dos testes na USP e pôde
comparar: “Realmente, o resultado é melhor e mais rápido do que o da fisioterapia tradicional. Fiz dez sessões, uma por semana, não tive mais dores e melhorou muito minha qualidade de vida”, garante ela, que quer aproveitar a aposentadoria para fazer atividades para as quais antes não tinha tempo.

Assim também ocorre com Dilma Bonadio, 66 anos. No seu caso o foco é a osteoartrose nos joelhos. Ela afirma que, desde que iniciou o tratamento, nunca mais sentiu dor. “Tem sido ótimo. Além disso, sou uma pessoa ‘elétrica’, me exercito todos os dias, e isso também me ajuda”, conclui.


DOE, 31/03/2015, p. 1