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Indenização da Shell pagará estudos sobre câncer em SP
24/04/2015

 

Compensação por danos ambientais em Paulínia (SP) é de R$ 200 milhões

 

Caso de contaminação na cidade ocorreu a partir da década de 1970; Ministério Público entrou com processo em 2007

VENCESLAU BORLINA FILHO
DE CAMPINAS

Cem mil crianças da região de Campinas serão acompanhadas do nascimento até os 18 anos por médicos do Centro Infantil Boldrini, referência em câncer infantojuvenil.

O estudo é coordenado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e engloba 1 milhão de crianças em oito países.

O hospital de Campinas só conseguiu iniciar a pesquisa porque foi beneficiado com o pagamento de parte dos R$ 200 milhões da indenização por danos morais coletivos em um dos maiores casos de contaminação ambiental do país, o "Caso Shell", ocorrido a partir da década de 70 em Paulínia (a 117 km de SP).

Além do Boldrini, mais quatro instituições --entre elas o Hospital de Câncer de Barretos-- foram as primeiras a receber os valores repassados pelo Ministério Público do Trabalho, que entrou com uma ação em 2007 contra as empresas Shell e Basf.

A pesquisa vai analisar hábitos alimentares, uso de medicamentos, condições de moradia e até de trabalho dos pais e relacioná-los com a incidência de câncer. Serão feitos questionários com a mãe ainda gestante.

Segundo a presidente do Boldrini, Silvia Brandalise, se não fosse esse financiamento a pesquisa não seria possível. Ela afirmou que os outros países participantes (China, EUA, Inglaterra, Austrália, Japão, Dinamarca e Alemanha) já estão em estágio avançado do levantamento.

A incidência da doença em crianças e adolescentes de 0 a 18 anos é de até 13 casos a cada 100 mil nascimentos. Com o dinheiro, também será construído um centro de pesquisa onde ficarão armazenados pedaços da placenta da mãe e o teste do pezinho do recém-nascido. O projeto todo está orçado em R$ 90 milhões e novos aportes poderão ser feitos.

OUTROS CASOS

No Hospital de Câncer de Barretos, a pesquisa vai mapear características genéticas e de ocupação de pacientes detectados com algum tipo de câncer e que passaram por exames nas carretas do câncer, que são veículos adaptados que percorrem o interior do Estado para realizar exames de prevenção da doença.

No total, serão 350 mil exames à disposição dos cientistas. "A partir disso, teremos condições de adotar medidas de prevenção e tratamento de forma mais fácil, além de identificar o agente causador do câncer nos indivíduos", afirma Rui Reis, coordenador de pesquisa em oncologia molecular do hospital.

O diretor-geral do Hospital de Câncer e Barretos, Henrique Prata, afirmou que o valor de R$ 69,9 milhões repassado pelo Ministério Público do Trabalho foi o maior já recebido para pesquisas. "Temos o maior banco de tumores da América Latina e os valores que recebíamos para pesquisas eram medíocres."

Além dessa pesquisa, o hospital vai construir mais uma unidade de diagnóstico e tratamento do câncer de mama em Campinas e um laboratório em Barretos. Quatro novas carretas também serão equipadas com o tomógrafo, máquina de ressonância magnética e mamógrafos.

Em nota, a Shell informou que estudos mostraram que a contaminação ambiental não impactou a saúde de ex-trabalhadores e seus dependentes. A Basf informou que mantém seu compromisso em se posicionar com transparência e integridade em todos os aspectos relacionados a este assunto.

Folha de S. Paulo